Como a paixão de um brasileiro pelo mutum-do-sudeste conseguiu trazer esperança para a sobrevivência da espécie

De quatro a 400: como a paixão de um brasileiro pelo mutum-do-sudeste conseguiu trazer esperança para a sobrevivência da espécie

Quem já viu alguma vez o mutum-do-sudeste certamente nunca mais o confundirá com outra espécie. Com o corpo negro, a crista imponente e o bico vermelho – daí também ser conhecido como o mutum-do-bico-vermelho -, essa ave tem uma beleza singular. Endêmico do Brasil, ou seja, ele só existe em nosso país e em nenhum outro lugar do mundo, o Crax blumenbachii podia ser encontrado em áreas de Mata Atlântica nos estados da Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais.

Infelizmente, assim como outras espécies brasileiras, o mutum-do-sudeste foi praticamente extinto devido à destruição de seu habitat e à caça ilegal. Como é uma ave que passa a maior parte do tempo no solo, fica ainda mais vulnerável aos caçadores.

Mas graças à determinação de um criador, o mineiro Roberto Azeredo, essa história começou a mudar. Sua paixão pelas aves foi herança do pai e do tio, que também adoravam pássaros. Foi na década de 70 que ele resolveu trabalhar com a reprodução em cativeiro. E escolheu para tal o Crax blumenbachii.

“Minha ideia inicial era criar e devolver o mutum-do-sudeste à natureza, em áreas seguras para eles sobreviverem”, conta. Para isso, Azeredo fez a captura de dois casais há cerca de 40 anos. “Foram necessários quatro anos de expedições em sua área de distribuição para conseguirmos capturar, em julho de 1978, o primeiro casal”, conta o criador.

E a partir daí, vieram muitos aprendizados e desafios. “Havia muito pouca informação sobre reprodução em cativeiro de animais silvestres na literatura. Precisamos desbravar este caminho”, relembra.

Foi na prática que o criador aprendeu, por exemplo, como formar um casal para reprodução, que tipo de recinto utilizar, qual alimentação seria mais adequada ou sobre o período de incubação.

De quatro a 400: como a paixão de um brasileiro pelo mutum-do-sudeste conseguiu trazer esperança para a sobrevivência da espécie

Azeredo, com um filhotinho de mutum-do-sudeste

O criador também lembra, com muito carinho e gratidão, um dos grandes incentivadores de seu trabalho, o ornitólogo alemão, depois naturalizado brasileiro, Helmut Sick. “Foi um momento muito especial, em meados da década de 80, pela história do professor com a espécie, enviado para o Brasil por uma universidade alemã nos anos 30 para investigar qual era a situação do Blumenbacchii, que já consideravam quase extinto”, diz.

Hoje, quatro décadas depois das primeiras capturas, Roberto Azeredo é tido como um dos maiores criadores de aves do país e um dos principais nomes pela reintrodução de diversas espécies na vida selvagem, entre elas, a jacutinga, o mutum-de-alagoas e também, o mutum-do-sudeste.

À frente da CRAX – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, uma associação sem fins lucrativos, que ocupa uma área de 60 mil m² com muita vegetação nativa no município de Contagem, em Minas Gerais, ele viu o resultado de seus esforços, a cada nova ninhada do mutum-do-sudeste.

De quatro a 400: como a paixão de um brasileiro pelo mutum-do-sudeste conseguiu trazer esperança para a sobrevivência da espécie

O criador ao lado de uma jacutinga em uma das áreas da CRAX

Até hoje já foram reintroduzidos na natureza 392 Crax blumenbachii, em áreas de Mata Atlântica de Minas Gerais e do Rio do Janeiro. O próximo passo agora é celebrar a soltura do 400o mutum-do-sudeste, em 2021. Ainda não há data exata confirmada, mas os planos são para que isso aconteça em junho ou julho.

“A sensação que sinto depois de tanta luta para salvar uma ave é indescritível… Em poucas palavras, resumindo, é a satisfação de ver que tudo que fizemos com a ajuda de muitas pessoas não foi em vão. Todo esse esforço nos mostra como não devemos deixar uma espécie chegar a esse nível de ameaça de desaparecer”, afirma Roberto Azeredo.

O mutum-do-sudeste, com seu bico vermelho e crista preta

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Fotos: Edgar Fernandez

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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