Com mensagens confusas, Brasil, EUA, Nicarágua e Venezuela contribuíram para que 50% das mortes de Covid no mundo fossem nas Américas

Com mensagens confusas, Brasil, EUA, Nicarágua e Venezuela contribuíram para que 50% das mortes de Covid no mundo fossem nas Américas

A organização Anistia Internacional divulgou hoje seu relatório anual “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo”. Como não poderia deixar de ser, o estudo tem como foco principal a resposta das principais nações do mundo à pandemia da Covid-19, mas também analisa outras questões fundamentais para sociedades democráticas, como liberdade de expressão e proteção de grupos vulneráveis como povos indígenas.

O principal destaque da publicação 2020/2021 foi a (péssima) gestão dos países do continente americano à crise do coronavírus. A região, que abriga
apenas 13% da população global, registrou 49% de todas as mortes por Covid-19 no mundo e isso contribuiu para que a desigualdade social se aprofundasse ainda mais.

Havia 209 milhões de pessoas (33,7% da população) em situação de pobreza na América Latina e no Caribe ao final de 2020, um aumento de 22 milhões em relação ao ano anterior. Destes, 78 milhões (12,5% da população) viviam em extrema pobreza, 8 milhões a mais do que em 2019.

O levantamento destaca ainda que, com mensagens de saúde confusas, falta de transparência e medidas de proteção inadequadas, os governos do Brasil, Nicarágua, Venezuela e Estados Unidos (até então sob a administração do ex-presidente Donald Trump), a situação da pandemia foi ainda mais agravada.

Sobre o presidente brasileiro, a organização internacional destaca que o fato de ele negar constantemente a gravidade da pandemia foi um dos motivos pelo qual o país teve número recorde de mortes. Já passam de 330 mil vítimas, com mais de 13 milhões de infectados. Nas últimas 24 horas, foram registradas mais de 4 mil mortes. O Brasil é o país com o segundo maior número de mortes e casos de Covid-19 no mundo.

Liberdade de expressão e proteção de minorias

No caso do Brasil, em específico, a Anistia Internacional alerta em seu relatório que “A escalada da retórica contrária aos direitos humanos prosseguiu, aumentando os riscos para defensoras e defensores dos direitos
humanos. O espaço cívico continuou sendo reduzido por uma narrativa oficial que estigmatiza ONGs, jornalistas, ativistas, defensoras e defensores dos direitos humanos e movimentos sociais”.

A organização afirma que sob a presidência de Jair Bolsonaro a proteção dos recursos naturais e dos territórios tradicionais foi negligenciada, pois as estruturas governamentais para proteger os povos indígenas e o meio ambiente foram ainda mais desmanteladas e enfraquecidas.

“A pandemia expôs desigualdades profundas na sociedade brasileira, atingindo de modo desproporcional aquelas comunidades que já eram discriminadas”, denuncia a Anistia Internacional.

Entre os dados citados pelo documento da entidade estão o aumento do desmatamento na Amazônia – 9,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) -, e também, que a taxa de feminicídio cresceu em 14 dos 26 estados brasileiros entre março e maio
do ano passado, em relação ao mesmo período de 2019. No Acre houve um salto de 400% no índice de assassinatos a mulheres.

“Em 2020, um mero aglomerado de moléculas abalou o mundo inteiro. Menor do que se pode ver a olho nu, um vírus muito local desencadeou com grande rapidez uma pandemia global. Tempos excepcionais demandam respostas excepcionais e exigem uma liderança expcecional. Em 2020, a liderança excepcional não veio do poder, do privilégio ou dos lucros. Veio, em vez disso, de enfermeiros, médicos e outros profissionais de saúde na linha da frente de serviços que salvam vidas”, diz Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional.

Para ela, o ano que passou também revelou a fraqueza da cooperação internacional. “Um sistema multilateral em desagregação, submisso aos mais poderosos e ineficaz em prover aos mais fracos; um sistema incapaz, quando não relutante, de ampliar a solidariedade global”, lamenta.

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Foto: Márcio James/Amazônia Real/Fotos Públicas

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

3 comentários em “Com mensagens confusas, Brasil, EUA, Nicarágua e Venezuela contribuíram para que 50% das mortes de Covid no mundo fossem nas Américas

  • 7 de abril de 2021 em 2:14 PM
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    Porem , a mae do virus que atingiu boa parte do mundo , e a China.
    Nao e justo tirar essa honra a grande China is !

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  • 7 de abril de 2021 em 2:21 PM
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    O que esta a decadas acontecendo na regiao Norte e Nordeste do Brasil, nao se trata somente de cobica , pela fauna, flora, riquezas minerais. Mas as aguas.
    Opositores do governo federal, nao ficaram satisfeitos com o “Corte” de alguns troques de voto por um pouco de agua potavel, no Nordeste.

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  • 7 de abril de 2021 em 2:36 PM
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    Para explicar o inexplicável e não pirar no torvelinho deste caos em que nos encontramos, costumo refletir, à guisa de consolo, que cada um nasce na familia que merece, no berço rico ou pobre que precisa e no país que construiu, direta ou indiretamente com o poder do voto. Nada é por acaso, colhemos o que plantamos, seja no inferno ou no Céu que preferimos, somos responsáveis, com exceção dos loucos, dos bêbados, dos animais e das crianças, estes sim, os inocentes que pagam por todos os nossos pecados.

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