Coletar sementes é coletar memórias, é se ‘encher’ dos cantos dos passarinhos e de histórias pra contar

Esta semana precisei ir à praça perto de casa para fazer algo que estava com saudades: coletar elementos específicos para um projeto. E precisava ser naquela praça porque eu queria sementes de tipuanas, que são as semente aladas da foto abaixo.

As sementes de tipuana / Foto: Ana Carol Thomé

De tantas coletas que já fiz em tempos anteriores, nesse mesmo espaço, sabia exatamente onde estavam as árvores da espécie e eram as mais próximas de casa. Também sabia que era tempo dessas sementes.

Enquanto coletava, muitos passarinhos cantavam. Meu corpo paralisou e percebi o recado: pausa e escuta. Imediatamente lembrei de uma fala de Jon Cree, diretor da Forest School Association, durante uma das experiências que vivenciamos em 2019, quando ele esteve no Brasil.

“Toda voz é ar. Quando um passarinho canta e você respira, você se enche do canto dele”.

Por alguns instantes me enchi de cantos. E voltei para casa cheia de tipuanas.

O que acontece quando a gente sai pra coletar?

Detalhe da árvore das sementes tipuanas / Foto: Public Domain Picture

Mais do que abastecidos de materiais naturais, a gente volta com memórias, com histórias pra contar, com um corpo marcado pelas relações e sensações que aconteceram no trajeto.

Por isso que, toda vez que eu abrir minha caixinha de sementes, vou me lembrar da manhã fria na praça quando me enchi de cantos dos passarinhos.

Quando você quiser oferecer elementos da natureza para as crianças brincarem, prefira coletar com elas do que comprar. Os elementos coletados contam histórias dos gestos da coleta, ao passo que nunca poderemos saber as histórias dos trajetos que fizeram a prateleira na qual os encontramos na loja. 

Convide famílias para coletar e combinem de se encontrar para partilharem experiências. Todo elemento que chegar virá com muitas descobertas sobre a natureza do entorno, a natureza do olhar de cada um e suas memórias.

O que tenho aqui é uma caixinha de tesouros, que guarda boas memórias. Quando coloco um desses elementos na minha mão me transporto pro espaço-tempo em que nosso encontro se deu.

Mais que uma caixinha com sementes e folhas, esta é minha caixa de lembranças de boas brincadeiras e de pessoas queridas. Ela me ajuda também a recordar, mesmo dentro de casa, da unidade que formamos com todos os seres que nos cercam. 

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Foto (destaque): Ana Carol Thomé

Ana Carol Thomé

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

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