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Cobras venenosas devem migrar para novas áreas com aumento da temperatura global

Cobras venenosas devem migrar para novas áreas com aumento da temperatura global

Esta semana um adolescente de 14 anos morreu em Santa Catarina por causa da picada de uma serpente. Ele chegou a ser levado para o hospital, recebeu soro antiofídico, mas não resistiu. O jovem foi atacado por uma cobra do gênero Bothrops, uma jararacuçu ou jararaca. Kauê Alexandre está entre as cerca de 138 mil pessoas que morrem, todos os anos, vítimas de picadas, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda segundo a entidade, que considera o envenenamento por picadas de serpentes como uma doença tropical negligenciada, entre 1,8 milhão a 2,7 milhões de casos são registrados anualmente. E esses números podem aumentar. E muito.

Um estudo publicado por um grupo de pesquisadores internacionais, e liderado pelo professor do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe, Pablo Martinez, faz uma projeção sobre a distribuição geográfica de 209 espécies de cobras venenosas em 2070.

“Prevê-se que as mudanças climáticas tenham impactos profundos na distribuição de espécies de cobras venenosas, incluindo reduções na biodiversidade e alterações nos padrões de envenenamento de seres humanos e animais domésticos”, alertam os autores do estudo, publicado na renomada revista científica The Lancet.

Usando modelos computacionais com diferentes variações climáticas para as próximas décadas, a análise aponta que poderá ocorrer tanto extinções de espécies, como a migração de diversas delas para novos territórios, onde comunidades já vulneráveis enfrentarão uma nova ameaça.

A projeção mostra que Nepal, Níger, Namíbia, China e Myanmar serão alguns dos países mais suscetíveis a presenciar a chegada de cobras venenosas de nações vizinhas, em um planeta com temperaturas mais altas. Como é o caso da víbora-do-gabão (Bitis gabonica) que pode expandir sua distribuição geográfica em 250%.

“A combinação do aumento de áreas climaticamente adequadas e de fatores socioeconômicos (incluindo grandes populações rurais de baixa renda) significa que o sudeste Asiático e a África – e países como Uganda, Quênia, Bangladesh, Índia e Tailândia, em particular – poderão estar mais vulneráveis a picadas de cobras no futuro, com potenciais efeitos na saúde pública humana e veterinária”, afirmam os autores do estudo.

Já no sul da África e na América do Sul, e em locais como a Amazônia, os pesquisadores indicam que espécies poderão ser extintas, tanto pelas altas temperaturas, como pela perda de habitat, provocada pelo avanço da agropecuária. São citadas várias víboras peçonhentas da subfamília Viperinae, que podem ter seu habitat reduzido em até 70%.

“As nossas previsões estão alinhadas com as tendências no declínio dos tetrápodes, incluindo os répteis. Países de baixa renda geralmente têm menos programas de conservação e mais déficit de conhecimento sobre cobras venenosas do que os ricos, o que limita a capacidade de desenvolver estratégias para mitigar e adaptar-se a estes efeitos das alterações climáticas”, destacam os pesquisadores.

Os cientistas reforçam que o impacto não será sentido apenas na saúde humana. Picadas de cobras matam animais domésticos e aqueles criados para a subsistência de comunidades rurais. E há ainda o impacto ambiental do desaparecimento de serpentes em seus habitats.

“A saúde dos ecossistemas e o bem-estar humano estão em risco devido às alterações climáticas. Milhares de espécies ameaçadas poderão ser extintas nas próximas décadas. Entre os répteis, as cobras são a principal linhagem de predadores e desempenham um papel fundamental na estrutura e funcionamento dos ecossistemas. Além disso, as cobras venenosas são uma fonte de recursos altamente importante para o desenvolvimento farmacêutico e biotecnológico”.

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Foto de abertura: Renato Augusto Martins, CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

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