Cloroquina tem efeitos tóxicos sobre células vasculares, alerta estudo da UFPR

Cloroquina tem efeitos tóxicos sobre células vasculares, alerta estudo da UFPR

Apesar da Anvisa e entidades médicas terem reforçado, novamente, há poucas semanas, que NÃO há tratamento preventivo contra a COVID, infelizmente, ainda existe muita desinformação circulando pelas redes sociais e inclusive, disseminada por alguns profissionais de saúde. Essas pessoas defendem o uso do chamado  “Kit-COVID”, um mix de medicamentos como a hidroxicloroquina, cloroquina, a azitromicina e a ivermectina (esta última, prescrita para tratar piolho), que deveriam ser usado para prevenir a infecção ao novo coronavírus.

Assim como as autoridades brasileiras, especialistas de diversos outros países já afirmaram que a eficácia desses remédios contra a COVID-19 não tem respaldo científico. E em alguns casos, a ingestão deles, principalmente sem o acompanhamento médico, pode trazer riscos à saúde.

Em julho de 2020, a U.S. Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, assim como a Anvisa, no Brasil, fez um alerta sobre o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina fora do ambiente hospitalar devido ao risco de problemas cardíacos e um mês antes, revogou a aprovação do uso emergencial dos dois medicamentos para o tratamento da COVID-19 (leia mais aqui).

Agora, um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) vem corroborar, mais uma vez, o perigo do uso da cloroquina sem supervisão médica.

Paulo Cézar Gregório, do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia, Parasitologia e Patologia, trabalhou com linhagens de células endoteliais humanas extraídas de vasos sanguíneos, que foram cultivadas na presença de cloroquina, em concentrações incapazes de causar sua morte celular, por até 72 horas (o endotélio é a camada celular que forra interiormente os vasos sanguíneos e linfáticos).

De acordo com o pesquisador, Oobservou-se que, durante esse período, a célula induziu significativamente o acúmulo de organelas ácidas, aumentou os níveis de radicais livres e diminuiu a produção de óxido nítrico, levando ao estresse oxidativo e dano celular. Este processo, chamado de disfunção endotelial, pode resultar no funcionamento incorreto ou até na morte da célula.

“Ela para de produzir substâncias que a protegem e passa a produzir em excesso substâncias tóxicas”, ressalta Andréa Emília Stinghen, professora do Departamento de Patologia Básica da UFPR e orientadora do trabalho.

Com o possível impacto na circulação sanguínea, órgãos como coração, rins e pulmões podem ser afetados.

Os pesquisadores explicam que o comportamento das células cultivadas em laboratório é semelhante ao de células endoteliais infectadas pelo vírus SarsCov-2, responsável pela COVID-19. Por isso, eles acreditam que a lesão nas células pode contribuir com o fracasso da cloroquina como terapia para o tratamento da doença. “Se por um lado, a cloroquina pode diminuir a replicação viral, por outro promove uma citotoxicidade que pode potencializar a infecção viral”, diz Gregório.

Cloroquina tem efeitos tóxicos sobre células vasculares, alerta estudo da UFPR

Ilustração mostra os efeitos de diferentes concentrações de cloroquina nas células endoteliais

Vale destacar, entretanto, que a cloroquina é utilizada há anos para o tratamento de outras doenças, como a malária, a artrite reumatóide e o lúpus, contudo, sempre com a recomendação de um médico.

Os resultados do estudo dos cientistas da UFPR foram publicados na revista internacional Toxicology and Applied Pharmacology.

Trump enviou milhões de doses de hidroxicloroquina para o Brasil

Vale lembrar que, assim como o presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também foi um ardoroso defensor da hidroxicloroquina no começo da pandemia, no ano passado. E disse, inclusive, que estava tomando o medicamento como forma de prevenção. Mesmo assim, Trump pegou a COVID-19 e precisou ser internado, mas no hospital, a hidroxicloroquina não esteve entre os remédios que seus médicos optaram para seu tratamento.

Em julho de 2020, a U.S. Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, assim como a Anvisa, no Brasil, fez um alerta sobre o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina fora do ambiente hospitalar devido ao risco de problemas cardíacos e um mês antes, revogou a aprovação do uso emergencial dos dois medicamentos para o tratamento da COVID-19 (leia mais aqui).

Com estoque sobrando – já que não há eficácia comprovada -, o governo de Trump decidiu enviar “generosamente” 2 milhões de doses do medicamento para o Brasil…

*Com informações e texto da Universidade Federal do Paraná

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Foto: Marcelo Casal/Agência Brasil/Fotos Públicas

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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