Clima de Eleição: jovens ativistas climáticos capacitam candidaturas e ajudam a qualificar o debate

João Henrique Alves Cerqueira, de Curitiba, Beatriz Pagy, de São Paulo, Igor Vieira, de Recife e Gabriela Baesse, de Natal, são quatro amigos que trabalham com advocacy e, juntos, desenvolvem projetos para organizações.

Inquietos e movidos pelo incômodo que sentiam ao enfrentar dificuldades para articular ações relacionadas às mudanças climáticas em suas cidades, no início deste ano, decidiram e criar uma campanha para capacitar candidaturas e, assim, qualificar o debate.

Foi assim que surgiu a Clima de Eleição.

“Em meio à crise climática intensificada e à falta de iniciativas que fossem direcionadas aos municípios, sentimos a necessidade de ampliar e levar a discussão sobre a emergência climática ao âmbito eleitoral local”.

As ideias eram muitas, mas eles optaram por começar com um projeto-piloto a ser lançado em Curitiba, que ofereceria formações presenciais para os partidos. Mas veio a pandemia, que inviabilizou o projeto nesse formato.

“Por motivos sanitários tivemos que optar por uma campanha online que foi lançada em julho e, que, rapidamente, escalonou e ganhou abrangência nacional”, explica João. E o retorno foi inesperado.

“Surpresa bem boa a quantidade de pessoas que manifestaram interesse em participar da campanha”, continua. “Nossa pretensão era acessar 50 candidaturas em Curitiba, mas chegamos a 350 inscrições de cidades variadas, e de 27 dos 33 partidos existentes!”.

Por isso, os idealizadores resolveram prorrogar as inscrições para 1º de novembro (elas terminariam em 31/10) e o final do curso – com a conclusão de todas as candidaturas – para 10 de novembro, em vez de 6.

Os partidos que já tinham afinidade com o tema, como o PSoL, o Partido Verde, a Rede Sustentabilidade e o Partido dos Trabalhadores foram os que mais tiveram candidatos e candidatas à vereança inscritos no curso. E João destaca que a adesão de partidos como o MDB, o PDT, o PSDB e o DEM surpreendeu por apresentarem candidaturas interessadas e com algum conhecimento no tema.

Divulgação

“Não nos organizamos para fazer uma divulgação ampla da campanha porque somos ativistas, nossas redes são nichadas e não somos especialistas em comunicação. Por isso, tudo tem sido muito desafiador pra nós, nesse sentido, inclusive nas mídias sociais”.

Mas a falta dessa expertise, na verdade, os levou a experimentar outros caminhos que se mostraram muito acertados.

“Em vez de fazer campanha direta com candidatos e candidatas, optamos por procurar os partidos e oferecer a capacitação“, conta João. “Dessa forma, a gente obteve o compromisso dos partidos, que se encarregaram de divulgar o projeto para suas candidaturas. E funcionou muito bem porque a gente acessou de dentro para fora”.  

Agora, quase na reta final, o grupo tem intensificado o trabalho de divulgação junto a eleitoras e eleitores para que conheçam a campanha e os candidatos e as candidatas que fizeram o curso, ou seja, estão capacitados para atuar na política, defendendo projetos relacionados a mudanças climáticas. “Este é um dos objetivos da campanha também: convidar as pessoas a votarem pelo clima”.

O curso

Organizado em uma hora de vídeo-aulas, dividida em quatro módulos de 15 minutos cada, o curso pode ser concluído em cerca de quatro horas, e ainda conta com cartilhas e uma série de materiais complementares para que as candidaturas possam se aprofundar nos assuntos que compõem tema tão complexo. 

“Acreditamos que quatro horas é um período de tempo bem tranquilo”, ressalta João. “A gente tentou fazer um curso bem objetivo no sentido de ser rápido por causa da campanha eleitoral. Entendemos que a campanha para as candidaturas é um processo muito intenso, com tempo muito limitado e não queríamos que esta capacitação pudesse atrapalhar”.

Po outro lado, ele diz que a ideia nunca foi fazer apenas uma carta-compromisso com o clima, “porque elas têm pouca credibilidade: não é preciso demonstrar comprometimento, nem internalizar o tema. E, pra nós é importante que todos e todas façam o curso para demonstrar engajamento“. E completa:

“A gente não só fala da questão climática como também a contextualiza nas cidades e mostra exemplos de políticas públicas municipais nas quais as candidaturas podem se inspirar e reproduzir em suas cidades”. 

Desde o processo de criação da campanha, os quatro ativistas climáticos entendiam que, mesmo num tempo curto, o importante era oferecer acesso a conteúdo que garantisse que “elegeríamos pessoas comprometidas em transformar esse conhecimento em politicas publicas”. 

E, apesar do pouco tempo que a maioria dos candidatos e candidatas dispõe durante suas campanhas, o retorno do curso tem sido bastante positivo e incentivador.

“Incluímos um NPS (Net Promoter Score; metodologia de satisfação do cliente) no final do curso para que todos os participantes avaliem o curso e suas performances. E já posso dizer que é altíssimo! As notas vão de 1 a 5: tivemos uma nota 3, nove notas 4 e 5 notas 49, até agora”, comemora João.

Como em qualquer trabalho desse tipo, a satisfação varia. Teve quem reclamasse do timing, por exemplo: “foram poucas”. Mas o mais interessante ê que a maioria declarou que gostaria que o curso fosse mais longo para aprofundar mais o conteúdo. Mais: “muitos pedem para continuar em contato com nossa rede, que querem continuar trabalhando com a gente de alguma forma”.

E, assim, João, Beatriz, Igor e Gaby fidelizaram muitos participantes desta primeira turma. “Esse processo de feedback tá muito legal!”. E certamente, parte do sucesso da campanha seja porque os quatro estiveram atentos aos inscritos desde o princípio, dando retorno rápido e atendendo às solicitações.

“Fizemos adaptações desde que o curso começou com base nos feedbacks. Três candidaturas pediram pra gente criar um glossário para facilitar o entendimento de termos específicos do tema utilizados no curso”, conta João. “Teve também quem sugeriu alterações em algumas questões que poderiam resultar em dupla interpretação… e a gente foi adaptando e melhorando em tempo real”.

Quem termina o curso recebe certificado e um selo que se caracteriza como uma chancela de que aquela candidatura está preparada para promover o debate (e o combate) às mudanças climáticas em sua cidade.

Impacto imediato nas candidaturas

Assim que terminam o curso, muitas candidaturas que antes não falavam em clima, começam a inserir o tema na narrativa de suas campanhas nas redes sociais. “Eles marcam a gente em suas postagens, então fica fácil acompanhar. E, assim, sentimos o quanto já está reverberando”.

O clima está ganhando um novo status na política, com estas eleições.

“Tem gente que já citou projetos de lei que inserimos no curso como propostas para suas cidades. E isso também é muito legal porque revela que, de alguma forma, o aprendizado foi internalizado”. 

“Candidatos e candidatas estão compartilhando o certificado e o selo pra mostrar para eleitores e eleitoras que estão capacitados, sabem do que falam, estão comprometidos com o tema e com a gente”.

E depois das eleições de 2020?

O trabalho com as candidaturas à vereança não acaba com as eleições. O grupo definiu uma estratégia de médio prazo, que vai até o final deste ano, e que tem dois pontos principais, como explica João:

“Vamos identificar quem foi eleito e não conseguiu fazer o curso com a gente para engajá-los também, até 1 de janeiro, quando tomam posse de seus cargos. Assim, o farão depois de terem passado pela capacitação. E estão incluídos também aqueles que a gente não acessou agora, durante o período de campanha. Assim, fazemos um esforço mais direcionado das lideranças”. E ele completa: 

“O segundo ponto é fazer com que aqueles que não terminaram o curso, o façam depois das eleições. Mesmo quem não conseguiu se eleger. A gente entende que a campanha é super corrida, mas é possível finalizar o curso depois”.

E é importante não deixar o aprendizado no meio do caminho. As mudanças climáticas representam uma luta essencial para a humanidade. Que ela precisa vencer. E. quanto mais gente estiver capacitada para lidar com ela na política, melhor para garantir um futuro mais justo e saudável.

Que surjam mais movimentos pelo clima como este, promovido por João, Beatriz, Igor e Gabriela!

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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