Claudia Regina Santos: “Só a educação pode ajudar o povo do campo a lutar por seus direitos”

Há mais de 20 anos, Cláudia Regina Carvalho e Santos atua na defesa dos direitos das comunidades rurais e pelo meio ambiente no sul do Piauí, região que faz parte do Matopiba, considerado a “última fronteira agrícola do Cerrado”. O nome da cidade vem das primeiras sílabas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Desde que conheceu a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e chegou ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Currais, município em que reside, começou a visitar as comunidades e tomou suas causas, sobretudo a luta pelo direito à terra, como suas. Como dirigente sindical, teve a vida marcada pelos conflitos agrários locais, contabilizando várias ameaças de morte.

Nesse período, Cláudia também viu os camponeses serem acuados pelo desmatamento e as mudanças climáticas, que limitam cada vez mais seu meio de vida e segurança alimentar, e o abuso de agrotóxicos, que contaminam brejos e nascentes e trazem problemas de saúde para a população.

Além da atuação política como presidente do Sindicato e, atualmente, como articuladora de um dos territórios do Estado e também da prefeitura de Currais, ela acredita na educação como forma de empoderar a população rural.

Uma das primeiras alunas do curso de Educação no Campo da Universidade Federal do Piauí – campus da cidade de Bom Jesus (CPCE) -, Cláudia está terminando agora sua especialização com um trabalho que conta a história de criação desse curso.

“Lutamos para que os filhos de camponeses cheguem à universidade. Só a educação pode mudar esse povo e fazer com que busquem seus direitos”, disse ao blog Mulheres Ativistas do Conexão Planeta.

Quais são os principais problemas na sua região?

Vivemos com conflitos ambientais, trabalhistas e sociais e eles vêm aumentando nos últimos tempos. Aqui, no sul do Piauí, não tem justiça. É uma região muito rica em água e terra, um berço riquíssimo do Cerrado, alvo de muita cobiça.

Já destruíram as partes mais altas e, agora, querem as áreas de baixo, onde vivem as comunidades. Tem muito investimento de capital estrangeiro, com compradores de terras de outros países, além de todos os lugares do Brasil.

Além disso, o clima está mudando. Passamos anos sem chuva de verdade. E agora quando ela veio, chegou desequilibrada e forte demais, desceu em enxurrada e até rompeu uma barragem.

Aqui, quando chove, é inverno. Antes, em dezembro se colhia arroz, mas agora nem plantam mais porque a chuva foi para janeiro. Neste ano, só chegou em março. Quanto mais desmatam, mais distante fica a chuva. Além disso, em setembro, outubro e novembro, a temperatura vai a quase 50 ºC.

No Cerrado, o veneno também corre solto. Pulverizam as fazendas com avião e vai longe, atingindo as comunidades. Com as chuvas, o veneno desde das partes altas e pessoas que viviam do buriti, nos brejos, não têm mais como fazer.

Achamos que o aumento de doenças, principalmente câncer em mulheres, é por causa do veneno, mas não temos comprovação porque não há estudos. Já pedimos para fazerem levantamento, para ter lei que proteja as nascentes, mas até agora nada.

A região está muito desmatada. Questiono o Ibama para saber se quem desmata tem autorização, mas não me respondem. Sou língua grande, questiono muito, mas o Estado não faz nada. Aqui é terra sem lei. Novos fazendeiros plantam soja, milho, arroz e, agora, estão criando gado.

Como você se envolveu com as lutas em prol dos trabalhadores rurais?

Nasci na comunidade de Poços, em Currais, e fui criada na roça com 15 irmãos. Aos 17 anos, muito nova, fui levada para a cidade de Bom Jesus, na região de Currais, onde era praticamente escrava de meu marido, que me trancava em casa quando ia para o serviço e me ameaçava dizendo que me mataria se não fosse só dele.

Mesmo assim, consegui entrar na Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2000, onde tive consciência da minha situação. Na primeira reunião do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Currais que participei, estava acontecendo eleição de uma nova diretoria.

Disse algumas coisas que acharam interessante e me elegeram vice-presidente. Quando cheguei em casa, meu marido disse para eu escolher entre o sindicato e ele. Não tive dúvida, me separei de vez.

A partir daí, comecei a visitar as comunidades em conflito e tomei gosto pela luta. Logo, me tornei presidente do Sindicato e fiquei nessa função por mais de 16 anos.

Quais eram os conflitos e por que você se tornou alvo de ameaças?

Já nas primeiras visitas que fiz às comunidades quando entrei no Sindicato, chamou minha atenção a necessidade de regularização de terras e passei a lutar por isso como se fosse para mim. Pedíamos desapropriação das terras para os trabalhadores.

Comecei a me destacar, a fazer cursos, e isso atraiu a atenção dos fazendeiros que passaram a me perseguir. Consegui visitar uma fazenda, que fica a 140 km de Bom Jesus, onde havia denúncia de exploração de trabalhadores, e constatei que não tinham carteira.

O Ministério do Trabalho foi até lá e, quando descobriram que fui eu que denunciei, me ameaçaram de morte. Depois disso, já fui ameaçada mais de cinco vezes. Fazem coisas como ir à minha casa e lançam luzes de lanternas pelas janelas.

Neste momento, temos uma comunidade indígena, com duas famílias, que está sendo ameaçada e o juiz deu liminar contra eles. Há pouco mais de um mês, tocaram foto na casa desses trabalhadores. Nem tive coragem de ir até lá ver, mas conseguiram reverter a liminar.

A tendência dos conflitos é piorar, pois os fazendeiros estão descendo para os baixões, onde têm comunidades tradicionais e assentamentos. Dizem que essas populações não têm estrutura e não querem trabalhar, e entram.

Você também presenciou conflitos violentos. Pode contar como acontecem?

Em geral, homens de fora chegam, começam a fazer amizade com a comunidade, dão presentes. O povo é carente, e eles tomam conta do território. Em 2008, um desses, que veio de Goiás, começou a ameaçar uma pequena comunidade, chamada Sucruiú. Um dia mandou derrubar as casas, jogar as coisas das pessoas fora, destruir as plantações e jogar veneno nos brejos para contaminar a água. Fomos até lá para fazer uma reunião e resgatar as pessoas e vimos que ele já havia passado cerca nas terras. Quando passamos, nos ameaçou.

Estávamos em duas caminhonetes (eu estava na de trás) quando, na volta, nos aproximamos da entrada e apareceu um monte de jagunços, que começou a atirar. Os carros tiveram os pneus furados e as pessoas foram agredidas e espancadas, sem distinção de idade – um bebê de nove meses teve a clavícula quebrada e uma mulher grávida depois morreu no parto.

Nunca conseguimos ter uma audiência sobre esse caso, apesar de termos insistido muito. Passado todo esse tempo, a questão fundiária ainda é grave na região. Não temos o caminho, mas vamos continuar tentando resolver.

Como a educação entrou na sua vida?

Em 2012, fiz o vestibular e entrei na Universidade Federal do Piauí. O edital para criação do curso dizia que seria um curso agrário, mas pedimos para ser uma licenciatura voltada para educação no campo, com foco em direitos humanos e sociais.

Nos primeiros dias de aula, chorava, achava que ali não era meu lugar, tinha falta de ar, não conseguia ficar trancada na sala. Cheguei a dizer para uma professora que ia embora, mas ela me incentivou, aguentei. Terminei a graduação em 2018.

No início, éramos discriminadas na universidade, mas mais mulheres foram entrando (somos 80% dos alunos), de comunidades, quilombolas. Hoje o curso é respeitado, têm a melhor nota no Ministério da Educação, mais de 250 alunos e é o que tem menos gente que desiste.

Com isso, conseguimos trazer uma especialização na mesma área e também estou cursando. Agora estou montando meu trabalho de conclusão. Tinha escolhido falar sobre as nascentes da região, mas me incentivaram a contar a história do curso e da especialização – como foi montar um curso, basicamente, para mulheres camponesas.

As alunas são mulheres mais velhas – me formei com 43 anos-, que recebem formação para educar as pessoas do campo, falando a mesma linguagem. E também para mobilizar as escolas a não fechar e fazer que os filhos de camponeses cheguem à universidade. Queremos mostrar para as pessoas que a universidade é nossa e que temos que participar. Só a educação pode mudar esse povo e fazer com que busquem direitos.

Quais são suas atividades agora?

Saí da direção do sindicato e estou no meu segundo mandato como coordenadora do território da Chapada das Mangabeiras, um dos doze territórios regionais do Piauí.

Coordeno as reuniões, articulo os municípios da região para ver o que a região precisa e para a elaboração do orçamento participativo. Tenho também um cargo na Secretaria de Agricultura do município de Currais para ir atrás de projetos. O prefeito quer que eu faça esse elo com as comunidades.

Tenho três filhos, o mais novo com 18 anos, e dois netos. Falo para eles que quero deixar um legado, uma história para eles. Sempre clamo por justiça. Sofremos descaso, na maior parte das vezes não temos a quem recorrer. Não é fácil ser mulher e dirigente sindical por aqui, mas a gente chega lá.

Edição: Mônica Nunes

Foto: Arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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