Cientistas brasileiros fazem registro inédito no mundo de reprodução de corais branqueados

Cientistas brasileiros fazem registro inédito no mundo de reprodução de corais após branqueamento

Ao longo das últimas décadas, várias regiões do planeta presenciaram o fenômeno do branqueamento de corais e a mortalidade dos mesmos. Muitos desses organismos têm perdido sua coloração devido às altas temperaturas das águas marinhas, uma consequência do aquecimento da superfície da Terra, já que 93% do calor que fica preso na superfície do planeta é absorvido pelos oceanos.

E o litoral brasileiro também tem sido afetado. Em maio do ano passado, noticiamos no Conexão Planeta quando os recifes de corais do Nordeste tiveram um branqueamento em massa. Acontece que, no primeiro trimestre de 2020, a temperatura da água foi a maior já medida em 35 anos. Os primeiros sinais foram identificados por um jangadeiro, em Tamandaré, Pernambuco. E logo outros alertas foram feitos em Porto de Galinhas e Maracajú, no Rio Grande do Norte.

“No Brasil costumávamos ver um caso de branqueamento aqui, outro acolá, mas nenhuma mortalidade expressiva. Até 2019, quando registramos a mortalidade de duas espécies. Apesar de a situação aqui ainda ser muito melhor do que no Pacífico ou no Caribe, por exemplo, porém estão ficando cada vez mais graves na costa brasileira. A nossa tranquilidade já não é mais tão grande e vamos sofrer com mais branqueamentos de corais nos próximos anos”, afirma Miguel Mies, coordenador de Pesquisas do Projeto Coral Vivo e pesquisador associado do Instituto Oceanográfico da USP.

De acordo com o especialista, os corais brasileiros são mais resilientes. Entre outros motivos, o formato das colônias os faz mais fortes, assim como as simbioses com algumas algas e a própria turbidez do Atlântico Sul, que fazem com que calor e energia sejam absorvidos pelas partículas presentes na água.

Uma nova prova da resiliência dos corais brasileiros foi comprovada através de uma investigação feita durante uma pesquisa que culminou em um registro inédito para a ciência mundial. Pela primeira vez um grupo de cientistas conseguiu documentar a reprodução das principais espécies construtoras dos recifes do Atlântico Sul.

Cientistas brasileiros fazem registro inédito no mundo de reprodução de corais após branqueamento

A desova do coral branqueado

O fenômeno foi observado nas espécies Mussismilia hispida (coral-cérebro) e Mussismilia harttii (coral-couve-flor), que se mostraram capazes de desovar mesmo estando completamente branqueadas. A descoberta foi relatada em um em artigo científico em uma publicação internacional, a revista Marine Biology.

Conversamos com Leandro Godoy, pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e principal autor do artigo.

Por que vocês escolheram estudar essas duas espécies em especial? São as mais comuns na região?
Os estudos que estamos conduzindo no âmbito da Rede de Pesquisas Coral Vivo têm sido focados em duas espécies: o coral-couve-flor (Mussismilia harttii) e o coral-cérebro (Mussismilia hispida). Ambas são espécies endêmicas, ou seja, só existem aqui na costa brasileira, e estão entre as principais formadoras dos recifes brasileiros. No caso da M. harttii, a espécie já é considerada em perigo de extinção.

O período de reprodução dessas espécies é muito próximo, às vezes acontecendo até de ambas desovarem no mesmo dia. Dessa forma, a possibilidade de termos o material biológico (espermatozóides e óvulos) disponível ao mesmo tempo para as pesquisas, tornou possível trabalharmos com as duas espécies.

Onde exatamente elas foram coletadas?
As colônias de corais foram coletadas pela equipe do Projeto Coral Vivo no Parque Municipal Marinho do Recife de Fora (Porto Seguro – BA), e então levadas para a Base de Pesquisa do projeto, que fica localizada no Arraial D’Ajuda EcoParque. Essa região (litoral sul da Bahia) concentra um das maiores biodiversidades marinhas do Oceano Atlântico Sul.

Cientistas brasileiros fazem registro inédito no mundo de reprodução de corais após branqueamento

A desova dos corais brasileiros é prova de sua resiliência

Existe alguma chance do resultado apresentado em laboratório (reprodução) ser diferente do que acontece no mar?
Na Base de Pesquisa, as colônias são mantidas em viveiros que são abastecidos com a água do mar, em condições semelhantes às do recife. Dessa forma, se nós observamos colônias branqueadas desovando nos viveiros, certamente a desova também aconteceu no recife, e talvez de forma até mais intensa.

E o que essa descoberta representa exatamente?
Esse registro das colônias branqueadas desovando é inédito. Milhares de pesquisadores ao redor do mundo têm trabalhado intensamente com corais, na tentativa de conhecê-los melhor e assim buscar alternativas para sua conservação. Porém, ninguém nunca havia presenciado colônias que foram tão severamente afetadas pelo aquecimento do oceano conseguirem se reproduzir e gerando gametas viáveis. É um episódio que de fato chama a atenção do mundo para os corais brasileiros.

Os corais brasileiros serão mesmo então mais resilientes? Ou será possível que em outras regiões do mundo corais, mesmo branqueados, também consigam se reproduzir?
Realmente os corais brasileiros são guerreiros, ou resilientes. O ambiente onde as espécies evoluem é capaz de imprimir características particulares à esses seres. As águas do Indo-Pacífico e do Caribe, por exemplo, são pobres em nutrientes e muito mais transparentes quando comparadas às águas da costa brasileira. Lá, o alimento para os corais vem quase que exclusivamente da fotossíntese realizada pelas microalgas que vivem dentro do tecido do coral, ou seja, para as espécies do Indo-Pacífico e Caribe o branqueamento é quase uma sentença de morte (dependendo da intensidade e duração do branqueamento).

Já as espécies brasileiras evoluíram numa água muito mais turva e com maior concentração de nutrientes. Isso pode ter levado ao que chamamos de “maior grau de heterotrofia”, ou seja, os corais daqui não têm a fotossíntese das microalgas como única fonte de alimento e isso parece ser uma grande vantagem. Dessa forma, mesmo branqueados pelo aumento da temperatura do oceano, os corais permaneceram vivos e produziram espermatozóides e óvulos, o que explica esse episódio observado por nós.

Cientistas brasileiros fazem registro inédito no mundo de reprodução de corais após branqueamento

A pesquisa dos brasileiros resultou numa descoberta inédita no mundo

Leia também:
Em primeira nova descoberta após 120 anos, cientistas se deparam com recife de 500 m de altura na Grande Barreira de Corais
Sem turistas, devido à pandemia do coronavírus, mergulhadores se unem a cientistas para restaurar a Grande Barreira de Corais da Austrália
Cientistas encontram altos níveis de pesticidas na Grande Barreira de Corais, na Austrália

Fotos: Leandro Santos/Projeto Coral Vivo

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

2 comentários em “Cientistas brasileiros fazem registro inédito no mundo de reprodução de corais branqueados

  • 13 de março de 2021 em 7:11 AM
    Permalink

    Olá! Gostaria de saber se os corais que nascem dos corais branqueador são corais brancos tbm. Gratidão

    Resposta
    • 21 de março de 2021 em 9:23 PM
      Permalink

      Oi Bia, tudo bem?
      Conversei com o pesquisador, o Leandro Godoy, e ele explicou que não há relação entre o coral branqueado e o óvulo fecundado. As larvas irão adquirir do próprio ambiente e da água as microalgas e assim, fazer a simbiose. Ou seja, por ele estar branqueado não irá gerar corais sem cor.
      Abraço,
      Suzana

      Resposta

Deixe uma resposta