Chadwick Boseman morre e símbolos do ‘Pantera Negra’ são incorporados ao movimento #BlackLivesMatter

Assim que a morte de Chadwick Boseman foi anunciada em 28 de agosto, o mundo soube que o ator que interpretou o rei T’Challa, superherói do filme Pantera Negra nos cinemas, lutava contra um câncer de cólon há quatro anos.

Foi, portanto, entre sessões de quimioterapia e cirurgias, que ele não só protagonizou o filme com o qual ganhou fama mundial – e pelo qual será sempre lembrado -, como também estrelou Capitão América: Guerra Civil, Marshall, Vingadores: Guerra Infinita, Vingadores:UltimatoCrime sem Saída e Da 5 Bloods: Irmãos de Armas. Imagine seu esforço físico nas cenas de ação…

Chadwick fazia de sua profissão uma forma de militância e de engajamento na luta contra a desigualdade racial, que vivenciou e venceu no cinema. Inspirou com palavras e ações. E também com os papeis que escolheu interpretar no cinema.

Para Martin Luther King III, filho mais velho do ativista dos direitos civis, Martin Luther King Jr, o ator “trouxe a história à vida”, interpretando muitos homens negros proeminentes, como o cantor de soul James Brown.

Vale destacar que o ator faleceu no mesmo dia em que milhares de pessoas protestavam contra o racismo em Washington, em celebração pelo 57o. aniversário da passeata de Luther King, em 1963, quando ele fez seu histórico discurso Eu Tenho um Sonho. Na ocasião, o reverendo Sharpton, também líder dos direitos civis, disse à multidão: “Você pode matar o sonhador, mas não pode matar o sonho”.

Os protestos lembram a morte de George Floyd, asfixiado por um policial em maio, e a violência contra Jacob Blake, que levou sete tiros, na semana passada, e está numa carreira de rodas.

Sumir de cena agora, neste cenário de grande violência contra os negros nos Estados Unidos e no mundo, fortalece ainda mais a urgência de mobilização. Os manifestantes aproveitaram a ocasião para incorporar a saudação Wakanda Forever! e o gesto de cruzar os braços em frente ao peito como símbolos do movimento Black Lives Matter.

Wakanda Forever!

Rapidamente, nesse dia, as redes sociais foram tomadas pelo “grito de guerra” do filme Pantera Negra – Wakanda Forever (Wakanda Para Sempre) -, disseminado por celebridades, ativistas de direitos civis e fãs, que publicaram suas mensagens revelando grande emoção com o desaparecimento do astro. E foi incorporado ao movimento Black Lives Matter.

Wakanda é uma nação africana super desenvolvida e tecnológica, que escapou da colonização europeia, portanto, não se tornou miserável.

Uma das cenas do filme – na qual T’Challa fala de morte – também se espalhou. Nela, ele diz: “Na minha cultura, a morte não é o fim. É como um ponto de partida”. Muito apropriada para este momento em que o ator desencarnou.

Braços cruzados

Este é o símbolo da saudação Wakanda Forever no reino fictício de Pantera Negra. E foi com esse gesto que várias pessoas homenagearam Chadwick estes dias, como a apresentadora da TV Globo, Maju Coutinho, acima.

O piloto de Fórmula 1, Lewis Hamilton, também aderiu a essa homenagem. Antes e depois do treino e, no dia seguinte, depois da vitória – como hexacampeão mundial -, ele cruzou os braços em frente ao peito para saudar o ator.

“Não foi tão fácil focar no treino classificatório com isso no coração. Mas tentei ir para a pista e ser o melhor possível, fazer o que ele fez pela nossa gente. Ele está na história e viverá para sempre”, declarou. “É realmente importante a pole position, porque acordei hoje com essa notícia triste. Na verdade, é um ano de notícias muito ruins para todos, mas esta me afetou”.

“Foi um fim de semana emocionante, quero dedicar esta vitória a Chad e sua família, ele foi uma inspiração e seu legado vai viver. Estou postando esta imagem porque devemos continuar lutando pela igualdade, nada mudou ainda e a batalha continua”.

E Hamilton acrescentou: “Descanse no poder (Rest in Power) de sua luta, meu amigo”.

Aqui, vale uma explicação sobre a expressão Rest in Power, ou Descanse em Poder (variação do descanse em paz). Em comunidades principalmente negras e LGBT nos Estados Unidos, é uma expressão usada para lamentar, lembrar ou celebrar uma pessoa falecida, especialmente alguém que lutou contra o preconceito sistêmico como racismo, homofobia ou transfobia, ou sofreu com isso. A expressão também é usada para homenagear uma figura pública que fez a diferença na vida das comunidades minoritárias e foi significativa e respeitada dentro delas. Sugere que, mesmo na morte, a pessoa que se vai ainda tem o poder de fazer a diferença entre os vivos. A frase é uma declaração de solidariedade e um apelo para que se continue a luta por justiça social, já que o falecido não poderá ‘descansar em paz’ enquanto a sociedade não mudar. Pode significar, ainda, a esperança de que a pessoa falecida agora vá descansar, livre da opressão.

O tweet mais curtido da história

A mensagem do Twitter que anunciou a morte de Chadwick Boseman tornou-se o tweet mais “curtido” da história dessa rede social, até ontem: 7,2 milhões de pessoas clicaram o símbolo do coração.

A informação foi confirmada pela administração, que escreveu: Um tributo para um rei – Wakanda Forever, uma alusão à saudação imortalizada pelo ator americano no filme Pantera Negra e que agora, também, se tornou símbolo dos protestos contra o racismo. 

Vale destacar que o segundo tweet mais curtido da história do Twitter (com 4,3 milhões de corações) é de outro homem negro: o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

A mensagem é de 2017 e diz: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele ou de sua origem ou de sua religião…”.

Discurso inspirador

Em maio de 2018, ano em que o filme Pantera Negra foi lançado, Chadwick voltou à Universidade de Howard, em Washington, nos Estados Unidos, onde havia se formado 18 anos antes, para discursar na cerimônia de formatura. Não poderia haver alguém mais inspirador naquele momento.

Para encorajá-los a enfrentar suas trajetórias profissionais, ele incentivou-os a desafiar o sistema, que, em geral, relega aos negros o papel de “vítimas estereotipadas, sem esperanças de talento”. Foi isso o que ele fez diante do primeiro roteiro que recebeu e do personagem que lhe ofereceram: um jovem que havia sido abandonado pelo pai e teve que morar com o irmão mais novo num abrigo porque sua mãe era viciada em heroína, estava prestes a se envolver com uma gangue.

“Eu não queria assumir que personagens negros são criminosos, drogados e têm pais incapacitados”, contou. “Quando questionei isso, um novo caminho se abriu pra mim. O caminho do meu destino. Este é o seu momento!”. Assista no final deste post.

Nunca desistir dos sonhos

No ano passado, o Chadwick declarou que Pantera Negra mudou o que significa ser “jovem, talentoso e negro”. Sim, o filme transformou a cabeça de muitas crianças e de muitos jovens negros porque, pela primeira vez, eles se sentiram representados, se reconheceram na telona.

Em março de 2018, no Rio de Janeiro, o jogador Vitinho organizou uma mostra de cinema com produção de René Silva e da ONG criada por ele, Voz das Comunidades, no Complexo do Alemão, para que as crianças pudessem assistir Pantera Negra. No final da sessão, questionadas pela Mídia Ninja sobre a mensagem do filme, a maioria respondeu: “Nunca desistir dos sonhos”. Foi lindo demais! Assista, abaixo, no final deste post.

A Central Única das Favelas fechou uma sessão de cinema para que crianças e jovens negros que nunca tinham ido ao cinema fossem ver Pantera Negra.

No mesmo mês, em Porto Alegre, a estudante Vitória Sant’Anna Silva fez uma campanha de crowdfunding para levar 200 crianças para assistir ao filme e foi acusada de racismo.

Renato Siqueira de Castro, de 15 anos, voltou a estudar depois que assistiu Pantera Negra: “Quero salvar vidas, quero ser bombeiro, mas sem a escola eu não consigo nada. Parei e pensei: Pô, melhor eu voltar a estudar. Foi o Pantera Negra que me fez voltar a estudar”.

Inspirado pelo filme, o ativista Jonathan Raimundo criou um projeto ao qual deu o nome de Wakanda in Madureira, que define como “um pequenique colaborativo que visa o encontro de pessoas pretas para celebrar a vida. Celebrar a forma africana de ser”. Tem Facebook e Instagram.

“O conceito de Wakanda saiu das telas”, conta o jornalista Manoel Soares, um apaixonado pelo Pantera Negra. “Toda vez que os negros se encontravam na laje ou estudavam, antes da pandemia, eles se autodefiniam como Wakanda. Quando a pandemia começou, os negros não se cumprimentavam com o cotovelo, mas cruzando os braços na frente do corpo, como no filme. Wakanda definiu uma identidade. É um simbolismo muito forte”.

Pantera Negra, pela primeira vez, na TV aberta

A TV Globo confirmou que alterou sua grade de programação e exibirá o filme Pantera Negra hoje, 31/8, em sua Tela Quente.

Antes, o jornalista Manoel Soares (acima) fará uma pequena introdução para destacar a importância histórica de um filme de super-herói ter sido protagonizado por um ator negro. Não só isso: o elenco é todo composto por atores negros.

“Eu esperei quase 40 anos para ter um super-herói parecido comigo e a pessoa que personificou esse sonho não está mais entre nós”, disse o apresentador para o site Notícia Preta.

“Chadwik Boseman representou essa geração que ansiava por isso e se espelhou nessa conquista. Nesse momento em que o povo negro luta muito por representatividade, é lindo a TV Globo fazer essa homenagem para um homem e um filme que transformaram o imaginário social. Hoje, quando se pensa em África não se pensa só em pobreza e morte, mas também em Wakanda”, completou.

Assista ao depoimento de Soares sobre o legado de Chadwick em programa da Globo.

E, para finalizar, quero lembrar de uma frase do filme Pantera Negra, que pode ter sido escrita com alvo definido – os EUA da era Trump -, mas que serve muito bem para definir o nosso país, hoje:

“Agora, mais do que nunca, as ilusões da segregação ameaçam a nossa existência. Todos nós sabemos a verdade. Mais coisas nos conectam do que nos separam. Mas em tempos de crise, os sábios constroem pontes enquanto os tolos constroem barreiras”.

Fontes: G1, Globo Esporte, NYT, Extra

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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