Censo inédito irá estimar a população do mero, o “Senhor das Pedras”, um dócil gigante dos mares

Censo inédito nos litorais do Paraná e São Paulo irá estimar a população de mero, o "Senhor das Pedras", um gigante dos mares

*Por Sandrah Guimarães

A costa brasileira abriga um gigante dos mares, o mero (Epinephelus itajara), um peixe gentil que permite a aproximação humana. A espécie, que pode chegar aos 400 quilos e viver até 40 anos, habita manguezais, recifes, costões rochosos e estruturas artificiais, como embarcações naufragadas. Atualmente ela está classificada como criticamente em perigo no Brasil e vulnerável à extinção no mundo.

O desaparecimento do mero ameaça todo o ecossistema marinho, pois o “Senhor das Pedras”, como também é chamado, está no topo da cadeia alimentar. Sua dieta inclui peixes, moluscos e crustáceos, acabando assim por controlar a população de várias espécies que vêm abaixo dele.

Durante dois anos, um grupo de mergulhadores científicos do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (REBIMAR) da Associação MarBrasil vai percorrer paisagens submersas para monitorar a fauna marinha na área da Grande Reserva Mata Atlântica, um trecho que engloba os litorais do Paraná até São Paulo. Além dos meros, os mergulhadores vão registrar em fotos e vídeos diversas outras espécies.

“Com o censo vamos entender a evolução dos recifes artificiais para compreender como eles se comportam ao longo do tempo. Nunca serão iguais aos ambientes recifais naturais, pela complexidade, quantidade de fendas, buracos e riqueza de espécies. Mas a importância é monitorar ao longo do tempo para compreender o desenvolvimento da fauna e avaliar a ocorrência de novas espécies que possam colonizar esses ambientes, ou ainda verificar a redução de algumas espécies de peixes que são alvo de pesca”, explica André Cattani, coordenador geral do REBIMAR IV.

Censo inédito nos litorais do Paraná e São Paulo irá estimar a população de mero, o "Senhor das Pedras", um gigante dos mares

Mergulhadores podem se aproximar dos meros gigantes que, apesar do tamanho,
são extremamente dóceis

Os pesquisadores já começaram a contagem no trecho que abriga o Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais, nos ambientes recifais das Ilhas de Castilho e Figueira, no litoral de São Paulo, e nos bancos de arenitos localizados no litoral paranaense próximos às balsas naufragadas Dianka e Espera 7.

“Dois mergulhadores descem até os locais da amostragem e esticam uma trena de 25 metros. Eles percorrem essa distância e fazem as observações dos peixes com identificação visual e filmagem, caso precise confirmar alguma espécie que não reconhecemos imediatamente. Vamos contar os meros e monitorar os peixes menores que ficam em tocas e a fauna incrustante, aquelas algas e organismos que se fixam nos costões e recifes artificiais”, detalha Cattani.

Para o censo, os pesquisadores usarão equipamento de mergulho com rebreather, sistema de circuito fechado de ar comprimido, em que o mergulhador não produz bolhas nem ruídos. Ele é muito mais discreto e silencioso no ambiente marinho do que o usual cilindro de ar, o qual produz bolhas, permitindo mais tempo de observação de espécies e seus comportamentos naturais. Com essa inovação tecnológica, os mergulhadores conseguem permanecer no fundo por períodos de 60 minutos em profundidades de até 30 metros.

A pesquisa conta ainda com a parceria e experiência de outra iniciativa patrocinada pelo Programa Petrobras Socioambiental: o Projeto Meros do Brasil, que atua há quase duas décadas no estudo, no monitoramento e na conservação desses peixes gigantes.

“O levantamento da abundância é uma ferramenta para estudar a população e o tamanho dos meros ao longo das estações do ano e permite principalmente entender em que época estão reunidos e em quais locais, quando começam a chegar para se reproduzir e como se dá essa variação ao longo dos anos. Com base nesses dados, podemos traçar estratégias de conservação”, explica Matheus Oliveira Freitas, coordenador do Projeto Meros do Brasil no Paraná.

Dessa forma, conhecendo os locais e épocas de reprodução, os pesquisadores poderão contribuir com os órgãos fiscalizadores. O dados ainda irão ajudar a identificar áreas prioritárias para criação de novas unidades de conservação e no manejo das já existentes, somando esforços para evitar o desaparecimento da espécie. “O censo também vai contribuir para comparar áreas protegidas, como o Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais com áreas desprotegidas e assim verificar se as Unidades de Conservação cumprem seu papel”, completa Freitas.

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O mero pode pesar até 400 kg

Quando o Programa REBIMAR da Associação MarBrasil começou, era muito raro avistar um mero na costa paranaense. Era um peixe que já estava praticamente em processo de extinção, não só no Paraná, mas em escala global.

Tudo começou em 1998, com o Projeto RAM (Recifes Artificiais Marinhos) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Após diversos estudos, foi feita uma intervenção inédita do estado para melhorar as condições de reprodução e abrigo de algumas espécies.

“Foram afundadas cerca de duas mil estruturas de concreto e mais duas balsas graneleiras, na região do Parque Nacional Marinho de Currais e das Ilhas Itacolomis, formando o ponto conhecido hoje como Parque dos Meros. Além disso, a Associação MarBrasil, com o Programa REBIMAR, instalou 5.500 estruturas de concreto para a manutenção e recuperação da biodiversidade marinha, paralelas à costa de Pontal do Paraná,  sendo este o primeiro projeto do Brasil de recifes artificiais marinhos com licença do IBAMA e do Ministério do Meio Ambiente”, revela Robin Loose, coordenador de Logística e Operações Náuticas na Associação MarBrasil.

Ao longo dos últimos anos, a MarBrasil acompanhou a evolução da fauna marinha e, desde 2009, o governo federal patrocina o REBIMAR. Os resultados são nítidos. A fauna se multiplicou e o mero foi oportunamente uma das espécies que encontraram refúgio e alimento na nova “cidade submersa”. Além disso, as estruturas serviram como obstáculos para grandes embarcações pesqueiras e suas imensas redes de arrasto que varriam o fundo da costa. 

Além do sucesso do ponto de vista científico e ambiental, a iniciativa permitiu a exploração saudável do oceano por meio do turismo. Considerando a escassez de ilhas e recifes naturais no litoral paranaense, a instalação dos recifes artificiais criou uma paisagem fantástica que pode ser visitada por mergulhadores de todo o Brasil e do exterior.

“Os recifes contribuíram para o avistamento de meros na região, uma vez que a espécie tem sido observada ao longo dos anos estudados, e já é sabido que anualmente agregam nesses ambientes para o evento de reprodução. O mergulho recreativo acompanhou esse desenvolvimento e hoje, as operadoras passaram a explorar as áreas devido à facilidade de observação dos meros. O chamado “Mero Watching” ganhou repercussão nacional e trouxe renda a toda uma cadeia turística que inclui os barqueiros locais. Todos ganham com a proteção de uma espécie bandeira como o mero”, destaca Cattani.

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Fotos: Robin Hilbert Loose (abertura) e Marcelo Soeth (última)/Associação MarBrasil/Rebimar

Observatório de Justiça & Conservação

O Observatório de Justiça e Conservação (OJC) é uma iniciativa apartidária e colaborativa que trabalha fiscalizando ações e inações do poder público no que se refere à prática da corrupção e de incoerências legais em assuntos relativos à conservação da biodiversidade, prioritariamente no Sul do Brasil, dentre os quais se destacam, a Floresta com Araucária

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