Ceila Santos: luta pelo parto humanizado e por maior participação das mulheres na política

O desejo frustrado de um parto normal no nascimento de sua primeira filha fez a jornalista Ceila Santos se tornar ativista. Essa transformação aconteceu por meio do movimento do parto humanizado. Ao encontrar o relato de centenas de mulheres que reconheceram a experiência da cesárea desnecessária na internet, Ceila passou a estudar o assunto.

“Descobri que a ciência tinha outros jeitos para eu parir e comecei a refletir sobre a liberdade de escolha que o movimento trazia como cerne do discurso ativista”, conta. A partir daí, se envolveu com organizações voltadas para a saúde da mulher e primeira infância e com a difusão de informações sobre o tema, tanto no blog Desabafo de Mãe, que manteve por nove anos, como em revistas que produziu a partir de financiamento coletivo.

Também enveredou por militâncias mais amplas, a partir do Fórum de Mulheres da Zona Oeste e do Conselho Participativo Municipal de São Paulo, do qual foi conselheira, e se convenceu da importância da participação social para uma cidadania plena.

Ao Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta, Ceila conta que, para estas eleições municipais, resolveu contar em vídeos o que aprendeu com as ativistas que conheceu nessa trajetória e que, agora, se aventuram como candidatas a vereadoras no município de São Paulo.

“Mesmo sabendo que meu umbigo social é composto por 900 pessoas e que devo atingir umas trinta, achei que era com isso que precisava começar. A participação feminina na política precisa aumentar”, declarou.

Como a maternidade levou você ao ativismo?

Meu ativismo nasceu de uma crise existencial. Poderia ter tido esse impulso no exercício da minha profissão, pois escolhi jornalismo porque queria mudar o mundo. Mas comigo não foi assim. Aconteceu no momento em me tornei blogueira e descobri que uma cesárea podia ser desnecessária.

Quando entendi que meu parto poderia ser diferente porque havia posturas diferentes entre os profissionais tradicionais e os ativistas, sofri, mas entendi que o parto da minha filha era o melhor que aquele médico podia fazer diante da história da medicina. Ficou um desejo não realizado.

Comecei a blogar aos 32 anos, quando minha filha Malu tinha dois anos. Eu era freelancer da editora a qual fui vinculada desde os 26 anos. Usava o blog Desabafo de Mãe para contar dos desafios de gerenciar o tempo do home-office com as demandas da primeira infância, mantendo esse espaço por nove anos.

Minha filha nasceu em 2004, o mesmo ano em que Ana Cris, uma enfermeira obstétrica da cidade de São Paulo – que se tornou a principal ativista do parto humanizado no Brasil – criou o blog Amigas do Parto com outras profissionais.

O que mais fiz durante a gestação foi me informar sobre partos. Lia tudo que a imprensa publicava para gestantes ou livros indicados pelas amigas jornalistas. Então, quando o movimento declarou que a cesárea desnecessária era falta de informação, fez muito sentido para minha lembrança porque, até então, nunca havia lido na imprensa sobre aquelas denúncias que as mulheres faziam em seus relatos.

O que encontrou nessa blogosfera materna?

Encontrei muitas vozes querendo entender a dor de não ter parido, descobrindo que seus partos poderiam ser diferentes, denunciando condutas médicas, e muitas mulheres identificando que passaram, de fato, por eventos que envolviam erros médicos graves por puro hábito profissional.

Passava muito tempo lendo relatos de partos e comecei a entrar em contato com essas mulheres. Mapeei 356 blogs de mães. Comecei a viver um processo investigativo impulsionado pela minha experiência jornalística sem perceber que eu não estava mais dentro do âmbito editorial, protegida pelo salário da editora ou pelas relações de trabalho. Estava fazendo aquilo como blogueira, sozinha, sem dinheiro pra pagar conta. Foi aí que eu encontrei o movimento Parto do Princípio, que luta pela promoção da autonomia das mulheres, principalmente a defesa e a promoção dos direitos sexuais e reprodutivos.

Ao interagir com aquelas ativistas que lutavam pela sua categoria profissional, aprendi a linguagem das evidências científicas, dos protocolos de saúde e comecei a pesquisar o SUS. Foi dolorido ouvir das profissionais de parto o termo “cesárea desnecessária” e não me sentir idiota por manter gratidão pelo médico que tinha feito cesárea em mim.

Já tinha sido picada pelo bichinho do ativismo do parto humanizado, mas sentia vergonha de gritar pela cesárea desnecessária e achei outros gritos como a infância sem racismo e a publicidade infantil, onde pude encontrar uma rede de ativistas mais vinculada à espiritualidade. Nesse caminho, encontrei a Associação Nacional de Educação Pré-Natal (ANEP Brasil) e a antroposofia, que foi uma das correntes que serviu para eu compreender a vida a partir de outras concepções, além da científica.

A partir de quando seu ativismo foi além do blog?

Nas listas de e-mails do Parto do Princípio havia informações sobre audiências e conferências públicas. Um dia apareceu a Conferência da Mulher . Participar daquele evento foi extremamente marcante. Me senti viva, plena e entusiasmada. Estar lá representando a Parto do Princípio, ao lado de um monte de doulas e enfermeiras, me deixou revoltada, porque sentia que estávamos muito despreparadas para aquele discurso político.

Começou a cair a ficha do que era um movimento social e entendi a expressão que as fundadoras acrescentaram ao Parto do Princípio: rede de mulheres usuárias do sistema de saúde brasileiro.

Eu não era doula, terapeuta, fisioterapeuta, acadêmica, enfermeira, ginecologista nem obstetriz. Amava fazer aquilo, mas não era paga pra ser jornalista com o meu blog. Era usuária privilegiada de plano de saúde. Aquilo foi uma facada no coração: compreender que todo aquele chamado que me fazia mover montanhas era para eu reconhecer o lugar privilegiado que tinha como usuária da saúde.

Quando me vi envolvida pela causa das doulas que lutavam na Justiça por sua categoria profissional e pelo parto humanizado, percebi que não tinha profissão dentro do movimento e queria encontrar algo para me manter dedicada à luta.

Nesse período, também tentava lidar com um aborto espontâneo que sofri. Ao mesmo tempo, a ANEP abriu a primeira formação para mulheres anunciando a Educação Pré-Natal como uma nova profissão. Fui aprender sobre epigenética, psicodrama, psiquismo fetal, renascimento, vivendo aquela dor da contradição de ser privilegiada sem trabalho somada à perda de um embrião muito desejado.

O que motivou você a produzir uma publicação sobre maternidade?

Quando terminou a formação da ANEP, tinha que entregar um trabalho de conclusão e todas as profissionais precisavam difundir as informações, que eram muito subjetivas e filosóficas, então, houve esse pedido da parte delas. Minha segunda filha, Clarissa, tinha nascido e meu sonho era amamentá-la. Vivia com pouco dinheiro como freelancer e vi uma oportunidade de juntar os interesses. Esse foi motivo do projeto Clarear.

A ideia era fazer uma sacolinha entre as mulheres da ANEP, mas não rolou e, então, coloquei no crowdfunding: aí deu certo. Quando comecei, em 2013, não pensava em publicar uma revista. A ideia inicial era enviar o material por e-mail – uma newsletter -, mas resolvemos imprimir, porque havia um olhar para o cuidado dos efeitos da tecnologia com o bebê.

Também tinha vivido mais um lado do que o termo “cesárea desnecessária” provocava em algumas mulheres, que era acreditar que o motivo de não ter parido era o fato de não ter encontrado a equipe certa.

Contratei uma médica que fazia parto humanizado, mas tive problemas na hora do parto e, supreendentemente, quem sugeriu o uso de fórceps, em vez da cesárea, foi a médica tradicional do hospital. E entendi que a luta não é demonizar a indústria da medicina, mas integrar a ciência com o sagrado, com lugar para o médico pós-graduado, para a doula, a obstetriz, enfermeira obstétrica, parteira tradicional, urbana e a indígena, que faz pajelança.

Todos precisam coexistir no sistema de saúde, mas hoje isso é utopia.

Foram distribuídos 1.500 exemplares da revista, em 70 lugares, pelas doulas e obstetrizes. Os exemplares eram vendidos para poder pagar a diagramadora e a ilustradora. Foi uma lição muito importante para eu descobrir que tinha me tornado responsável por aquela produção e não dava conta de sustentá-la.

Por conta disso, procurei o Programa Germinar, que me indicaram como um lugar de formação de lideranças e empreendedores sociais. Imaginava que criaria uma editora a partir disso, mas não foi o que aconteceu.

E quais foram os caminhos de militância a partir daí?

Ao pesquisar para o segundo número da revista, convidei 28 mulheres para escrever artigos. Foi por causa da pergunta “onde vou parir, por que devo refletir sobre isso?”, que entrei no curso da Prefeitura de São Paulo sobre Política para Mulheres, que formou os fóruns das mulheres nas regiões da cidade.

O Fórum de Mulheres da Zona Oeste, do qual participava, foi muito ativo e um dos poucos que se desenvolveu como a Prefeitura desejava. A partir do Fórum, me candidatei ao Conselho Participativo Municipal e fui eleita pelo Distrito do Morumbi.

Tanto no Fórum de Mulheres quanto no Conselho Participativo, conheci mulheres militantes de todas as áreas e entendi como funcionava o preparo das ativistas para as audiências públicas e conferências.

Fiquei apaixonada pela ideia da participação social, comecei a me interessar pelo meu bairro, descobri até que moravam indígenas na vizinhança. O que vivi no Conselho Participativo me fez olhar com muito amor para São Paulo, mas que não dava pra praticar aquilo sem estar envolvida com trabalho porque era muita dedicação.

Qual foi o aprendizado na vivência como conselheira participativa?

Em nenhum lugar da minha vida aprendi tanto como lidar com meus preconceitos do que na política, porque lá você tem que ouvir o outro. O Conselho tinha um mandato de dois anos e peguei a migração do governo do Haddad para o Dória, quando mudou tudo.

Percebemos que a forma participativa era uma política pública do PT, e não da Prefeitura. Aprendi que quero trabalhar na política, embora não tenha vontade de ser vereadora, por exemplo. Gostaria que houvesse mais pessoas conscientes da potência da cidadania para que criassem espaços de participação nos seus bairros vinculados aos espaços de poder, porque a política de participação não acontece por um programa de partido, mas pela consciência de um povo.

Depois de compreender a crise existencial que vivi com ativismo pela forma como estamos organizados, todos movidos pelo interesse econômico, entendi que a Pedagogia Social poderia ser meu campo de atuação.

Hoje, faço parte da Associação de Pedagogia Social, ampliada pela antroposofia, e pesquiso uma metodologia para formação de juízo, que acredito que pode ser o caminho da minha autonomia profissional, já que hoje sou uma mulher dependente economicamente de familiares.

Por que resolveu militar por votos em mulheres nas eleições?

Foi um impulso. Estava começando a campanha eleitoral em plena pandemia e me deu desespero. O que vai acontecer? Preciso fazer algo, será cada indivíduo nas redes e vai ter que funcionar. Mesmo sabendo que meu umbigo social é composto por 900 pessoas e que devo atingir umas trinta, achei que era com isso que precisava começar.

Decidi contar minha história a partir da consciência de gênero adquirida no Fórum de Mulheres da Zona Oeste, onde desenvolvi o sonho de ter mais mulher na política.

Fizemos um evento nas eleições municipais de 2016. Resolvemos fazer um encontro com candidatas e houve muita discussão sobre se deveríamos selecionar as candidatas. Para mim, isso não fazia sentido em um cenário onde eram menos de cinco mulheres entre os 55 vereadores de São Paulo. Acreditava que tínhamos que conhecer as mulheres que estavam se arriscando a se candidatar.

Meu trabalho foi mandar convite para todos os partidos, passei uns quatro dias enviando e-mails à unha. Reuni 23 candidatas, mas como haviam me prevenido, a maior parte que apareceu era de direita sem muita identificação com o público presente.

Desta vez, resolvi fazer sozinha, contando nas redes sobre as ativistas que conheci e que são candidatas. Criei uma série no meu Instagram – Vote em uma Mulher em SP -, onde conto como as conheci e falo sobre elas. São dez candidatas que conheci durante essa jornada e posso indicar. Pretendo chegar a 23 com a indicação de outras ativistas. Precisamos muito aumentar a participação feminina em espaços como a Câmara Municipal.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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