Ceará lança ‘Inventário de Fauna’ pioneiro, que reúne cerca de 1,3 mil espécies de vertebrados

115 mamíferos continentais, 25 mamíferos marinhos, 133 répteis, 57 anfíbios, 443 aves, 102 peixes continentais e 400 peixes marinhos compõem a lista de 1.275 espécies de vertebrados do Ceará, divulgada na semana passada.

Este é o resultado do Inventário de Fauna do Ceará, o primeiro realizado no Nordeste e um dos primeiros no Brasil, disponível no site da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema).

O objetivo do projeto é fomentar a melhoria de pesquisas científicas, estudos e relatórios de impacto ambiental (para a construção de empreendimentos como hotéis e resorts, indústrias, além de usinas solares e eólicas e barragens), estudos de biotecnologia e de saúde pública (para evitar epidemias e pandemias) e elaboração de politicas públicas para a conservação da biodiversidade.

O inventário é também o ponto de partida para a elaboração de uma Lista Vermelha de Fauna Ameaçada de Extinção do Ceará, que já está em fase de elaboração.

Academia, pesquisa e gestão pública, unidas

O peixe-boi está entre os mamíferos marinhos da lista / Foto: Extrabrandt/Pixabay

A iniciativa inovadora foi liderada por pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) e sua realização foi possível graças à união da academia e dos pesquisadores científicos com gestores públicos promovida pelo Programa Cientista-Chefe do Meio Ambiente.

Lançado em setembro do ano passado pelo governo do estado do Ceará, o programa é coordenado pelo biólogo Marcelo Soares, do Instituto de Ciências do Mar Labomar, da UFC.

O inventário é seu primeiros projeto, que foi financiado pela Fundação Cearense de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (Fundap), no âmbito do Cientista-Chefe, em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará

O programa ainda mantém um centro de reabilitação de tartarugas marinhas, o Atlas Marinho.

A coordenação cientifica do Inventário de Fauna coube ao biólogo e divulgador científico, Hugo Fernandes Ferreira, da Uece, também responsável pelo grupo que elaborou a lista de mamíferos continentais.

“Além de um importante divulgador científico – tem mais de 140 mil seguidores no Instagram! – Hugo é um lutador incansável contra as fake news que denigrem a ciência e promovem o antiambientalismo“, destacou Soares durante o encontro online, realizado em 27 de fevereiro para o lançamento do inventário, do qual ambos participaram (e que você pode assistir na íntegra no final deste post).

Estiveram presentes também os secretários de meio ambiente, Artur Bruno, e de ciência e tecnologia, Inácio Arruda, os reitores das duas universidades envolvidas – José Glauco Lobo Filho (UFC) e Hildebrando Soares (Uece) -, e os pesquisadores que elaboraram as demais listas.

São eles: Diva Nojosa, da UFC (répteis), Daniel Cassiano Lima, da Uece (anfíbios), Jorge Botero, da UFC (peixes de água doce), Vicente Faria, da UFC: peixes marinhos), Weber Girão, da Aquasis (aves) e Vitor Luz, da Aquasis (mamíferos marinhos). 

Marco histórico

Veado mateiro ou Mazama americana / Foto: Hugo Fernandes/Acervo Pessoal

“Estou coordenando este projeto que, pela primeira vez na história, reúne todas as espécies de vertebrados documentadas no estado, é uma das primeiras iniciativas desse escopo no Brasil e pioneira no Nordeste”, salienta o pesquisador Hugo Fernandes.

“E tudo isso está ligado a um modelo internacional chamado Cientista-Chefe, que coloca um acadêmico em cada secretaria do Estado. É a primeira vez que esse programa é executado no Brasil”.

A ideia de fazer uma lista ameaçada de fauna do Ceará não é recente – data de 2016 -, um grupo foi criado em 2019, mas o trabalho só começou a avançar rápido com a implantação do programa Cientista-Chefe.

Fernandes explicou: “Este é um trabalho que envolve um processo bastante complexo, utilizando um protocolo determinado pela International Union for Conservation of Nature (IUCN), que é uma espécie de rito que a gente precisa cumprir para determinar as categorizações de cada espécie”.

Mas, para isso, era preciso, primeiro, saber quais são as espécies presentes no estado e fazer uma lista geral. A partir daí, foram feitas fichas estaduais de avaliação.

“Quando vimos que já tínhamos todas as espécies levantadas, nos perguntamos: ‘Por que a gente não assume fazer um inventário?’. Esses dados fazem parte do conhecimento básico que deve ser oferecido à sociedade”.

Fernandes destacou a imensa dificuldade que, em muitos casos, não só estudantes têm, mas também profissionais, de reunir todas as informações que estão dispersas, cada uma numa instituição. E algumas ainda não estão validadas, não foram investigadas e acuradas.

“Fizemos um trabalho de acurácia dessas identificações e um levantamento minucioso para depois, então, registrar todos os dados online. E, agora, o Inventário vai servir pra estudantes do Ensino Médio, pra estudantes de graduação, de pós-graduação, profissionais, consultores ambientais, para os agentes públicos da Semace, da Sema, da fiscalização, do licenciamento…”. 

Para o coordenador, trata-se de um marco histórico, realizado a partir de um trabalho de compilação que também dependeu muito do legado deixado por “gigantes do passado, que iniciaram esse processo”.

Ele se referia a nomes como Martim Soares Moreno (século XVI), George Marcgrave, no século XVII – “que, durante a ocupação holandesa, fez relatos extraordinários como a presença da onça pintada, de porcos do mato e outros animais do passado que foram extintos; alguns voltaram” -, Francisco Dias da Rocha, do final do século XIX, “que foi o primeiro compilador da fauna cearense e talvez tenha sido o nosso maior naturalista” – e Melquiades Pinto Paiva – “que tem uma coleção imensa sobre a fauna do estado, que a gente precisa valorizar”. 

Os pesquisadores se valeram muito do legado deixado por esses naturalistas que estudaram a fauna do Ceará em momentos diferentes, enriquecendo sua história.

Lista ativa e aberta à contribuições da sociedade

Perereca ou ThrachycephalusFoto Hugo Fernandes/Acerbo Pessoal

Uma das características do Inventário de Fauna do Ceará é seu caráter ativo e de melhoria contínua, como explica o site, revelando o dinamismo da ciência, ainda mais levando em conta a extensão territorial do estado.

Assim, à medida que novas espécies forem identificadas em novos trabalhos de campo, a lista será atualizada. Mais: o projeto e os pesquisadores estão abertos a receber sugestões de melhoria – como exclusão ou inclusão de espécies – ou contribuições sobre espécies que não estão no inventário.

Para isso, basta enviar e-mail para a Coordenadoria de Proteção Animal (coani@sema.ce.gov.br), fundamentando muito bem sua sugestão com referências bibliográficas, fotos ou evidências. Se tiver algo mais palpável, como uma carcaça, por exemplo, é importante declarar.

“Quem quiser também pode entrar em contato direto com o coordenador do grupo”, acrescentou Hugo Fernandes.

Como o site do projeto indica: “Encorajamos essa colaboração, que faz parte do processo democrático de construção do conhecimento científico“. E o coordenador acrescenta: “Nossa intenção é manter a lista atualizada sempre, lembrando que a taxonomia utilizada também está atualizada com os direcionamentos de cada sociedade científica brasileira”.

Critérios para a seleção de espécies

Hugo Fernandes ainda explicou que os critérios de inclusão de espécies nas listas não seguem um padrão devido a especificidades inerentes a cada espécie.

“Considerando os mamíferos, por exemplo, eles foram divididos em dois grupos (continentais e marinhos) e consideramos apenas espécies que têm espécimes depositados em coleções zoológicas nacionais e internacionais, além de descrição em publicações em revistas cientificas e, no caso dos marinhos, registros fidedignos de encalhe e avistamento de espécies”.

E completou: “Alguns especialistas em mastofauna (mamíferos aquáticos e terrestres) podem notar a falta de uma espécie ou outra. Podem ser espécies que a gente acredita que tem um indício muito forte de que exista, mas como precisamos de confirmação cientifica para incluir na lista, deixamos de fora”. 

Ao pesquisar o site, o usuário vai encontrar os grupos e suas listas e, ao clicar em cada uma, abrirá uma planilha onde verá ordem, sub-ordem, família, gênero, sub-gênero, epíteto, espécie do binômio e autor. No caso dos mamíferos, também o nome vernacular. E comentários.

“Algumas espécies exigem comentários sobre sua presença no estado porque existem espécies novas em descrição, também existem espécies cujas populações nativas foram extintas, como é o caso da capivara, que está voltando”, explica Fernandes. “Os comentários facilitam o entendimento de quem está pesquisando”.

Próximos passos

No final da apresentação, Hugo Fernandes adiantou que, a nova fase do projeto exigirá ainda mais trabalho: os dados que compoêm as listas publicadas serão esmiuçados para que eles identifiquem quais são as espécies que sofrem ameaças em nível estadual.

“Espero que, em 2022, o Livro Vermelho da Fauna Cearense seja finalmente publicado! Vamos trabalhar para isso e será um orgulho para o estado e para as instituições públicas de ensino e pesquisa, de excelência, como é o caso da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Federal do Ceará. Com a parceria do terceiro setor”.

Para complementar o Inventário de Fauna, o programa Cientista-Chefe ainda fará levantamento e a inclusão do grupo de invertebrados. E, num próximo passo, será realizado o Inventário da Flora Cearense

Para acompanhar as novidades do programa, siga seu Instagram.

Abaixo, o vídeo do lançamento online do Inventário de Fauna do Ceará:

Foto (destaque): Hugo Fernandes/Acervo Pessoal (porco-espinho-de-baturité ou coendou baturitensis)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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