Casulo pra Rua: projeto social premiado já contemplou 3.855 moradores de rua e precisa de doações pra continuar. Participe da nova campanha!

O casulo é um saco de dormir quentinho, macio e impermeável que protege o morador de rua não só do frio, mas da chuva, do vento, de ratos, insetos e de furtos. Mas o projeto precisa de doações constantes. Com a nova campanha, a cada real doado, um fundo doa mais dois reais!

O verão estava indo embora, as noites começavam a esfriar e fazia tempo que a estilista Bibi Fragelli não parava de pensar nas pessoas que encontrava todos os dias nas ruas de seu bairro, dormindo no chão gelado. Até que, em 16 de abril, ela comprou tecidos especiais, costurou dois sacos de dormir bem quentinhos, macios e impermeáveis, e os entregou a um casal que morava perto do seu prédio: Laisa e Jonathan.

Contei essa história no mesmo dia, aqui, no Conexão Planeta. Foi a primeira reportagem publicada sobre a ideia genial e amorosa da Bibi.

Mal sabia ela que, a partir daquele momento, se envolveria de corpo e alma no projeto mais importante de sua vida – logo batizado de Casulo pra Rua pelo amigo Renato Levi –, que está completando sete meses, e que impactaria tanta gente.

E, aqui, não falo apenas do impacto que já provocou, até hoje, na vida dos 3.855 moradores de rua de São Paulo contemplados com seus casulos, mas também de todos que encontraram no Casulo pra Rua uma forma de sobreviver, de ter uma remuneração digna e reconhecimento pelo trabalho que desenvolvem. 

Assim que se deu conta que não seria possível espalhar sua invenção sozinha (foi no primeiro dia!), Bibi decidiu que só poderia transformá-la num projeto bacana se beneficiasse não apenas as pessoas em situação de rua, como também costureiras e costureiros autônomos – mulheres, trans e imigrantes, reunidos em coletivos ou em oficinas sociais –, que também se encontravam em situação de vulnerabilidade, principalmente devido à pandemia

Casulo pra Rua só poderia existir se gerasse trabalho e remuneração justa, e reconhecesse o empenho e o talento dessas pessoas (veja quem costura os casulos neste vídeo que selecionei no Instagram do projeto). 

Vale destacar que, para costurar o saco de dormir quentinho imaginado e produzido pela Bibi, é preciso muito empenho e talento, por isso todos que produzem o Casulo Pra Rua são tão especiais: ele é uma obra-prima. É só ver as filipetas criadas por parceiros que ensinam a costurar o casulo e como usá-lo (foto abaixo).

Além de proteger os moradores de rua do frio, da chuva, do vento, do chão gelado, mas também dos ratos, dos insetos e do furto de seus pertences, ele ainda vira uma bolsa, veja que genial!

Bibi pensou em lhe dar essa funcionalidade também pra que seus donos possam driblar os ataques-surpresa da polícia que, em geral, leva embora tudo o que eles têm.

Colaboradores e parceiros

A amorosa equipe do Casulo pra Rua, da esquerda para a direita: Pati Curti (acima), Yvone Furtado, Renato Levi, Claire Castelano, Naná e Bibi Fragelli

Pra chegar até aqui, com 3.600 casulos distribuídos, muitos parceiros envolvidos (como o Padre Julio Lancelotti, o SP Invisível, o Coletivo Tem Sentimento, Mesa Solidária, Banho pra Geral e a Cruz Vermelha, entre outros, que ajudaram a fortalecer a rede de beneficiados) –, dois prêmios bacanas e a criação de um instituto, Bibi não poderia estar sozinha.  

A primeira a aderir à ideia foi a amiga Patrícia Curti (Pati Curti), que é parceira de todo dia, “de todas as lutas”. Ela se apaixonou pelos casulos no mesmo dia em que a amiga contou a proeza nas redes sociais. As duas são uma “dupla dinâmica”. Depois veio Yvone Furtado, que foi quem reuniu as primeiras costureiras dos casulos. Em seguida, Claire Castelano e Naná. Todas na foto acima, com Bibi e Renato, sobre o qual já comenteii.

Muita gente que tomou conhecimento do projeto por amigos ou redes sociais apoiou com doações em dinheiro, divulgação ou tempo, neste caso, ajudando a entregar os casulos nas ruas. A cantora Zélia Duncan se encantou e gravou um vídeo amoroso, que publicou no Instagram.

A ideia se espalhou por outras cidades como Curitiba e Belo Horizonte, que replicaram o projeto. E, até hoje, Pati e Bibi são procuradas por gente interessada em replicar o Casulo. 

Sem doações, sem casulos!

Hoje, o projeto recebe doações de cerca de 2.500 pessoas. Cada casulo custa R$ 158 reais e o auge das doações foi no inverno. O clima cutucava facilmente o coração das pessoas. Mas, quando o frio mais intenso começou a se dissipar, as doações despencaram. 

A grande questão é que não existem mais estações definidas – a crise climática está aí, no mundo todo! – e São Paulo (onde o Casulo nasceu!) é uma cidade úmida, com temperaturas que oscilam muito e podem cair drasticamente na madrugada.

Além disso, a necessidade de um saco de dormir independe do clima. Como já comentei acima, ele é essencial para proteger os moradores de rua também das chuvas (intensas no verão) e de bichos indesejáveis, que os machucam enquanto dormem. E de furtos.

Campanha de financiamento

Em suas redes sociais, Bibi e Pati não se cansam de contar sobre a importância dos casulos para os moradores de rua e a falta de doações. E conseguiram reverter as dificuldades que apresentavam.

Mas, agora, a equipe do Casulo foi pras redes sociais novamente pra pedir ajuda e fazer este alerta: acabou o dinheiro para comprar os materiais e para pagar as costureiras! “Avisamos as oficinas de costura que não teremos trabalho pra elas nos próximos tempos, uma tristeza!, conta Pati. 

O novo apelo mexeu com algumas pessoas, mas trouxe mais um parceiro bacana, perfeito neste momento de tanta dificuldade. Bibi explica: “Fomos selecionadas pelo fundo Todo Cuidado Conta! Eles dobram o valor arrecadado na campanha, mas, para isso, é preciso chegar a 10 mil durante a ação, ou todo o dinheiro volta para os doadores!”. 

Funciona assim: para cada real arrecadado, o fundo coloca mais 2 reais. “Se conseguirmos arrecadar 10 mil reais eles adicionam 20 mil reais e os 30 mil totais são suficientes para produzirmos mais 188 casulos. Se conseguirmos 25 mil, receberemos 75 mil reais e entregaremos 474 casulos”.  

A campanha de financiamento do Casulo pra Rua no site da Benfeitoria (especializada em crowdfunding) ganhou o nome sugestivo e muito simpático de Casulo o ano todo: é neste link que você pode fazer a doação para ajudar o projeto a produzir sacos de dormir macios e impermeáveis também na primavera e no verão. 

“Até no verão é melhor dormir num casulo do que no papelão ou direto no chão gelado!”, destaca Bibi.

Quer ajudar? Doe, compartilhe, divulgue, espalhe. Você não faz ideia da força e da empatia que une os casulers – nome carinhoso dado pela turma do Casulo pra Rua a todos que colaboram com o projeto. Fazer parte dessa corrente é uma benção e puro amor. 

Casulo premiado

Com apenas dois meses, em junho, o projeto ganhou o 13o. Prêmio Carrano de Luta Antimanicomial e de Direitos Humanos, criado em 2009, que homenageia Carrano, que foi confinado em manicômios e escreveu o livro Canto dos Malditos, que originou o filme Bicho de 7 Cabeças, de Lais Bodanzky.

E, mais recentemente, em outubro, o Casulo pra Rua foi agraciado com o reconhecimento do Museu da Casa Brasileira por seu design fantástico. Ficou em primeiro lugar na categoria Utensílios do 34º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira. Veja o que disse o júri: 

Na contramão dos produtos voltados aos públicos A e B que vimos muito nesta edição, ficamos felizes em encontrar um ótimo projeto voltado justamente para aqueles em situação de maior vulnerabilidade. 

Sua linha projetual bastante interessante, apesar da complexidade construtiva, contempla todas as premissas de usos conforme descrito no memorial. A atenção à realidade do momento, tanto ao perceber a triste realidade agravada pela pandemia quanto ao observar, e se contrapor usando o que o design faz de melhor, às políticas que vêm sendo adotadas em detrimento dessa população”.

Agora, assista ao vídeo gravado pela equipe do Casulo pra Rua, que explica detalhadamente como ele funciona, porque é tão importante ajudar e como participar da nova campanha:

Foto (destaque): Paulo Rapoport Popó

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta