Caso de jovem mordida por filhote de urso reforça alerta sobre perigo de interação entre seres humanos e animais selvagens

Caso de jovem mordida por filhote de urso reforça alerta sobre perigo de interação entre seres humanos e animais selvagens

Mais uma vez, escrevemos aqui no Conexão Planeta sobre uma notícia que traz um repetido e frequente alerta de especialistas: animais selvagens não são pets! Não devem ser domesticados e a interação de seres humanos com eles deve ser evitada pois é perigoso. Exemplo disso é o vídeo que andou circulando recentemente pelas redes sociais de uma jovem que é mordida no queixo por um filhote de urso pardo (Ursus arctos).

O incidente aconteceu num parque da cidade Grózni, na capital da Chechênia, república anexada à Rússia. A mulher chamada Madina aparece sentada num banco fazendo carinho no pequeno urso e está sendo filmada por alguém que a conhece. O filhote começa a cheirar seu rosto e de repente abocanha seu queixo e não o larga. Ela fica desesperada, grita, tentando se desvencilhar do animal.

Segundo relatos publicados pela imprensa internacional, Madina passeava pelo local e havia sido estimulada pela “cuidadora” do urso a se aproximar e a fazer imagens com ele em troca de um pagamento.

Depois que o urso largou o rosto da mulher, ela precisou ser levada para o hospital onde recebeu cuidados para tratar a lesão e injeções para tétano e raiva. Além dela, um policial que atendeu o caso também foi mordido na mão pelo animal.

“Mesmo antes da mordida, a cena já ilustrava um grande problema dessa aproximação indevida com a vida silvestre: o risco de transmissão de doenças“, diz João Almeida, João Almeida, diretor interino da Proteção Animal Mundial, organização não-governamental que trabalha em prol do bem-estar animal. “Mais de 60% de todas as doenças infecciosas novas identificadas nas últimas décadas tem origem animal e, destas, a grande maioria tem como fonte a vida silvestre. Importante entender que isso não significa que devemos exterminar animais selvagens, mas justamente preservar os habitats, conservar o equilíbrio ecológico e mantermos uma distância dos animais silvestres. Observar e admirar, mas não tocar, beijar ou abraçar para fazer fotos e vídeos. Isso é vital para evitarmos uma nova pandemia”.

O filhote de urso foi levado o zoológico da cidade. A suposta “cuidadora” está sendo investigada. Não se sabe exatamente de onde veio o animal, provavelmente do tráfico ilegal.

“Os ursos pardos são mamíferos carnívoros com grande dispersão geográfica por toda a Europa, que é um continente muito urbanizado. Por conta disso os encontros ocasionais com a espécie não são raros. Mas certamente não são animais domesticados. Animais podem executar comportamentos imprevisíveis e agressivos. Ainda mais os selvagens, que não são acostumados com humanos e nossa presença acaba representando um evento estressante. Por isso, animais silvestres não devem ser mantidos como pets e nem serem usados como objeto de entretenimento!”, ressalta Júlia Trevisan, bióloga do time de Vida Silvestre da Proteção Animal Mundial.

A organização elaborou uma série de questões relacionadas ao caso, que compartilhamos abaixo:

1.   Origem e relação com o crime. Ao ver um animal silvestre sendo exposto fora de um ambiente de proteção, duvide da origem: ele deve ter sido retirado à força da natureza e/ou ter relação com atividade comercial irresponsável e/ou com o tráfico criminoso

2.   Silvestre não é entretenimento. Silvestres devem ser apreciados em seus habitats naturais: a exploração para a realização de fotos, vídeos ou selfies é sempre uma forma cruel de obter vantagem financeira, e não iniciativa de bem-estar ou conservação. Isso vale, inclusive, para os espetáculos com baleias e golfinhos

3.   Risco zoonótico. O risco de transmissão de doenças está sempre presente nas interações próximas com a vida silvestre. Vale sempre lembrar do caso da pandemia de covid-19: as evidências científicas mais firmes sugerem que a origem da pandemia ocorreu nos mercados de vida silvestre de Wuhan, na China, onde animais silvestres também são mantidos em condições severas de estresse e muito próximos às pessoas

4.   Silvestre não é pet. Animais selvagens não passaram pelo processo evolutivo de domesticação e, por isso, não são acostumados com a presença humana nem com ambientes urbanos. Mantê-los em cativeiro como pet é cruel por causar estresse e não atender as necessidades básicas do animal

5.   Dor e crueldade. Para evitar problemas é frequente que “cuidadores” droguem animais ou promovam mutilações dolorosas e incapacitantes, como a remoção de garras e presas

6.   Normalizando o erro. Divulgar fotos e vídeos de interações com animais silvestres é tão errado quanto registrá-las: isso perpetua a exploração e contribui para a normalização do problema

7.   Maus-tratos permanentes. Mesmo depois de uma interação aparentemente tranquila com um animal silvestre, as pessoas devem considerar que o sofrimento continua: os espécimes são mantidos sem qualquer preocupação de bem-estar, sem poderem exercer seus comportamentos naturais, muitas vezes ficam amontoados, acorrentados, enjaulados em recintos apertados, sem luz, ventilação, com pouca alimentação ou com alimentos de qualidade inadequada

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Foto: reprodução vídeo

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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