Carla Glufke da Nóbrega: “Não adianta ter sonhos como organização social, se não existir financiamento”

Talvez uma das lições que este período de pandemia deixe nos brasileiros é a necessidade da solidariedade e de doação. A importância desse gesto foi percebida muito cedo pela captadora de recursos Carla Glufke da Nóbrega que, há mais de 25 anos, trabalha para obter recursos para organizações ambientais e sociais no Brasil e no exterior.

Ela começou a atuar nessa área na primeira metade dos anos 1990, na SOS Mata Atlântica, uma das ONGs ambientalistas pioneiras no Brasil a trabalhar com doação de empresas e colaboradores filiados. Passou por organizações como Greenpeace, Gol de Letra, Vocação e Museu da Pessoa, até ser convidada para cuidar da captação de recursos da Habitat, organização que constrói e reforma moradias para populações carentes na América Latina e Caribe, e para a qual também ajudou a montar escritório em São Paulo.

Defensora de que o captador de recursos deve estar ligado à organização e fazer parte do projeto, em 1999, Carla foi uma das fundadoras da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), na qual atua, até hoje, para garantir incentivos que ajudem entidades sociais e ambientais a se viabilizarem.

Nesta entrevista para o blog Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta, ela conta que também busca mostrar a empresas e cidadãos brasileiros a importância das doações para diversas causas. “A cultura da doação não é forte no país. Uma pesquisa recente mostrou que apenas 18% dos brasileiros doam dinheiro. Mas sem recursos, nenhuma organização pode atuar”, destaca.

O que te levou a trabalhar com captação de recursos para organizações?

Foi meio por acaso. Me casei muito nova, aos 20 anos, quando ainda não estava formada e me transferi de Brasília, onde morávamos, para o Rio de Janeiro porque meu marido foi fazer mestrado lá. Quando tinha 24 anos, no último semestre da faculdade de Administração, nasceu meu primeiro filho, Tomás. E novamente nos mudamos, agora para São Paulo, onde meu marido conseguiu trabalho. Fiquei bem perdida e isolada nesta nova cidade, onde não conhecia ninguém. Quando Tomás fez um ano, o coloquei numa escolinha e pensei em fazer trabalho voluntário, para sair de casa, porque a maternidade também significa muita solidão.

Gostava muito de meio ambiente – cheguei a cursar alguns semestres de Geografia – e vi que a SOS Mata Atlântica ficava bem perto da minha casa. Fui até lá me oferecer. Quem me atendeu foi a Ilíria, que era responsável pela captação de recursos. Eu nem sabia o que era aquilo – acho que na época, 1994, ninguém sabia muito bem -, mas ela me disse que a organização tinha acabado de montar um sistema de gerenciamento de doadores e precisava de alguém para inserir seus nomes e endereços no sistema. Assim, eu ficava digitando. Naquele tempo, o backup era feito naqueles disquetes grandes e eu os levava todo dia para casa com medo de acontecer algo, como pegar fogo na casa, e perdermos os dados. Dei sorte de cair em uma organização que já tinha um departamento voltado para isso, o que era bastante inovador.

Com o tempo, Ilíria passou a me chamar para ir às reuniões de captação com ela. Depois de quatro meses como voluntária, ela me disse que ia embora, se mudaria para os Estados Unidos, e disse que eu tinha condições de ficar no lugar dela. De repente, me vi coordenadora da área de captação de recursos.

O que te encantou nessa área, considerada árida por quem trabalha com ativismo?

Logo percebi o quanto a captação de recursos é chave porque, em qualquer lugar, é preciso ter recursos para se viabilizar. Não adianta ter os maiores sonhos como organização social, se não tiver também um financiamento dos sonhos. Estamos falando de 1994, quando o terceiro setor era uma coisa supernova no país. Resolvi me aprofundar e entrei em uma especialização, na Fundação Getúlio Vargas (FGV), de administração para organizações sem fins lucrativos. Lá, conheci a Célia Cruz, que dava o módulo de captação e era captadora da FGV, e me apresentou outros captadores. Esse grupo acabava de voltar dos Estados Unidos e estava impressionado com o que viu por lá.

Enquanto, no Brasil, boa parte dos poucos que atuavam na área trabalham quase integralmente por comissão, nos Estados Unidos não se apoiava essa prática por questões éticas. Acreditavam que, quando você pede dinheiro para um projeto, não pode ser remunerado. O princípio é que o doador tem o direito de saber onde está indo o recurso dele. Se os demais profissionais ligados ao projeto são remunerados com salário, porque o captador é comissionado? Ele deve ser tratado da mesma maneira, pois pensa estrategicamente na sustentabilidade da organização em longo prazo, não é um vendedor que pega um portfólio e sai vendendo.

Esse conceito foi trazido para o Brasil?

Depois que conheci esse grupo, começamos a discutir a criação de uma organização de captadores no Brasil, o que aconteceu em 1999. Fui uma das fundadoras e a primeira vice-presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), que traz esse conceito em seu Código de Ética. Atualmente, a ABCR tem feito um trabalho muito forte de advocacy em Brasília, junto a órgãos como o Banco Central, para que reconheçam que uma doação financeira não é igual a uma compra. Foram estabelecidas regras que dificultam bastante a vida das organizações. Hoje, se emitimos um boleto, por exemplo, temos que pagar uma taxa alta, mesmo que a pessoa que receba não o pague. No caso das organizações, o boleto costuma ser uma mala direta, um convite para que doem.

Também lutamos para termos mais incentivos fiscais, porque meio ambiente, por exemplo, não tem nenhum incentivo. Para mim, essa luta é uma bandeira. Quando entrei na captação, abracei a causa, a atuação na associação é um trabalho voluntário que faço há 20 anos.

Como captadora de recursos, você atuou em várias organizações, com diversas causas…

Quando saí da SOS Mata Atlântica, fui para o Greenpeace, onde trabalhava quando criamos a ABCR. Paralelamente, montei uma empresa de consultoria para ajudar a desenvolver essa área em outras organizações, o que fazia à noite e nos finais de semana. Quando saí do Greenpeace, pensei em trabalhar apenas como consultora, mas recebi um convite para assumir a captação da Gol de Letra, e fui trabalhar com o Raí. Nessa época, estava interessada em atuar mais na área social, onde o resultado era mais concreto. A Gol de Letra é uma escola de atividades em horário alternativo para as crianças. Lembro de uma doação que ganhamos da Danone e eu passava pelo recreio e via todo mundo tomando iogurte. Era muito bacana.

Mas foi bem na época em que me separei e a entidade ficava na Zona Norte, muito longe de casa. Por isso, fui para a Vocação (antiga Ação Comunitária do Brasil), uma ONG com vários prêmios como uma das melhores do Brasil, que trabalha há mais de 60 anos na Zona Sul de São Paulo desenvolvendo lideranças comunitárias. Enquanto estava lá, eram 39 centros comunitários. Tanto na Gol de Letra quanto na Vocação, minha prioridade era conseguir contribuições de empresas.

Até que conheci a Karen Worcman, fundadora do Museu da Pessoa, e me encantei com o projeto. A ideia do museu é que, ouvindo histórias de vida, você diminui a intolerância. O slogan é “uma história de vida pode mudar o seu jeito de ver o mundo”. Tudo começou há quase 30 anos quando Karen fez entrevistas para o mestrado com judeus que fugiram da Europa por conta da guerra. O que ela pensou era que eles deixaram tudo para trás, a única coisa que tinham eram as memórias, e resolveu registrá-las. Fui trabalhar com ela e fizemos vários projetos de memórias, inclusive de empresas, mas contadas pelas pessoas que viveram a história. O Museu é uma paixão. Hoje sou conselheira.

Como você chegou na Habitat?

Depois de atuar nas áreas ambiental e social e em projetos de memória, entendi que um captador de recursos pode trabalhar em qualquer área. Basta acreditar na causa que está defendendo, porque você pode navegar em várias frentes. Nas idas e vindas da ABCR, fui dar uma palestra no México e conheci uma pessoa da Habitat no Caribe.

Um dia, ela me ligou e disse que havia uma vaga para o escritório da América Latina e Caribe, baseada em San José, na Costa Rica, e me convidou para concorrer. Não sei se um homem faria isso, mas como era divorciada, com dois filhos, consultei meu ex-marido e meus pais, pois achei que uma mudança internacional só seria viável se tivesse apoio. Com apoio de todos, enviei meu currículo. O processo seletivo durou dez meses e, em janeiro de 2007, me mudei para a Costa Rica com meus filhos, André, 10 anos, e Tomás, 14 anos.

O que é a Habitat e como foi seu trabalho na Costa Rica?

É uma organização presente em 70 países, cujo lema é que “todos tenham um lugar digno para viver”. Atua com o tema da moradia, ou seja, constrói, reforma, faz adequações e apoia famílias para legalizar seus terrenos mundo afora. Mas os projetos são diferentes, respeitando as peculiaridades de cada país. Por exemplo, os haitianos não gostam do banheiro dentro de casa, consideram uma coisa impura, assim, no Haiti, os banheiros ficam fora. Na América Central, em países como Guatemala e Honduras, eles usam fogão à lenha, a maior parte sem chaminé. Para solucionar essa questão de saúde, temos um projeto grande de construção de fogões com chaminés.

Meu trabalho era fazer a captação de recursos com empresas para apoiar 14 países da região. Era responsável pelo desenvolvimento de equipes locais e fazia a ponte entre empresas dos Estados Unidos para a América Latina. Passava 30% do tempo viajando. Tive a sorte de contar com uma empregada nicaraguense que era como uma santa na minha vida. Viajava com o coração na mão por conta dos meninos, mas foi uma grande experiência também para eles.

Você trouxe a Habitat Internacional para São Paulo. Como foi isso?

Depois de três anos, um dos meus filhos quis voltar para o Brasil e disse que iria morar com o pai. Ele tinha 13 anos, eu não queria a separação. Então, pedi demissão. Pediram para eu ficar mais quatro meses e, nesse período, meu chefe conseguiu autorização para que eu continuasse a trabalhar daqui do Brasil e fiquei em home office outros três anos, viajando no mínimo 15 dias a cada dois meses. Mas foi uma experiência muito incrível, visitei 17 países pela Habitat.

Até que resolveram abrir um escritório em São Paulo, com enfoque em captação de recursos, e me pediram para tocar o projeto. Foi a única vez que saí da área de captação para ir atrás de advogado, contador, contratar um head hunter para encontrar o CEO, que está conosco até hoje.  O primeiro endereço da Habitat em São Paulo foi a minha casa. Começamos o escritório em 2103 e sou a captadora até hoje.

Qual é o foco da organização no país?

No Brasil desde 1992, construímos cisternas no Nordeste, na região do semiárido, e fazemos reformas de casas em favelas de São Paulo, Recife e Salvador. No ano passado, iniciamos projetos também em Curitiba e Rio de Janeiro. Em 2020, pretendemos começar um projeto em Belo Horizonte. Tínhamos também convênio com o governo federal para o Minha Casa, Minha Vida, com o qual fizemos muitos projetos. Mas esse programa praticamente acabou quando a Dilma saiu. Entregamos os últimos 620 apartamentos no ano passado, em Fortaleza, mas fizemos muitos na Bahia, Goiás, Tocantins. Essa linha era totalmente subsidiada para a camada mais pobre da população, com renda familiar de até R$ 1.800 mensais.

Contratavam organizações porque eram famílias que vinham de áreas removidas, de palafitas, e precisavam de projetos sociais para se adaptar a morar em condomínios. Eram pessoas que nunca tinham pago conta de água e de luz, não tinham regras de convivência entre vizinhos. Contratávamos empreiteiras para a construção, mas organizávamos a parte do trabalho social com as famílias. Enquanto as casas ou apartamentos eram construídos, passavam por processos de educação financeira, entre outros. Agora esse projeto, que era desenvolvido pelo escritório nacional em Recife, não existe mais.

A terra, no Brasil, é muito cara e é impossível construir para esse público sem a contribuição do governo. Por isso, nos centros urbanos, optamos por trabalhar com reformas em áreas consolidadas, normalmente favelas nas quais sabemos que as famílias não serão removidas. Não fazemos a obra de infraestrutura, mas muitas vezes as casas não têm acesso à rede de esgoto apenas por falta de conexão. Trabalhamos com casas permanentes. Só fazemos casas temporárias em zonas onde houve desastres.

Como é fazer captação de recursos no Brasil?

A cultura de doação não é forte no país. Hoje há algumas organizações, como o IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, que desenvolvem campanhas para aumentar essa prática. Como tive a experiência de captar nos Estados Unidos, vejo que é muito diferente. Lá, eles adoram dizer que estão doando. Por aqui, foi feita uma pesquisa e as pessoas disseram que não gostam de dizer que doaram. O lema é “estou doando de coração, não para ficar contando”.

Mas, quanto mais se propagam as doações, mais pessoas se sentem compelidas a ajudar também. Uma pesquisa da Ambev com o Ibope mostrou que apenas 18% dos brasileiros doam dinheiro. Dizem que preferem fazer voluntariado. Mas as organizações precisam também de recursos para pagar salários e desenvolver projetos.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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