Canoa, canoa desce… pro meio do rio, canoa desce


A canoa sempre foi um meio de transporte e de trabalho nos rios do Brasil. Em alguns lugares do Amazonas é chamada de montaria. E alguns personagens dão nomes a esta embarcação tamanha a afeição e o carinho que têm por ela.

Confeccionada a partir de um único tronco de madeira, pode ser feita de inúmeros tipos de arvores.

Também chamada de piroga, recentemente foi encontrada uma canoa no fundo do Rio Grande, no sul de Minas Gerais. Testes de carbono 14 realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo revelaram que ela foi escavada em um tronco de Araucaria angustifolia, o Pinheiro do Paraná, no ano de 1610. Anterior à chegada dos Bandeirantes.

Cantada por Milton Nascimento em 1978 – Canoa, Canoa -, ela nos leva a navegar as águas do Araguaia e a conhecer os peixes e as lendas daquele rio. No final deste post, incluí a bela letra dessa canção.

A canoa me ajudou a singrar as águas deste Brasil profundo a caminho de muitas aldeias ainda esquecidas e, por vezes, maltratadas.

Com a chegada da tecnologia – com ela, o que vale é a velocidade -, a canoa parece estar a caminho da extinção, tomando o rumo dos museus ou dos livros de História.

Mas, aqui, quero eternizá-la. E, por isso, vou mostrar um pouco do que já vi das canoas, dos rios brasileiros e de seus personagens.

Na foto que abre este post, a Aldeia Jolocomã dos índios Apalai e Waiana, às margens do Rio Paru D’Este.
Terras Indígenas do Tumucumaque, entre Amapá (AP) e Pará (PA), em 2015

Na aldeia Bona, no meio da floresta, o homem faz sua montaria. Nas águas do Paru D´Este,
a canoa é de extrema importância: é o veículo de comunicação entre as aldeias e também usado em diversas tarefas como carregar a carga que  vem das roças longínquas, pesca, caça e as visitas, todos andam de canoa.
Terras Indígenas do Tumucumaque, AP/PA, 2015

Às margens do rio Paru D´Este, na aldeia Xuxuimene,
o dia amanhece e a presença da canoa é visível na hora do banho.
Terras Indígenas do Tumucumaque, AP/PA, 2015

No rio Paru D`Este, nas Terras indígenas do Tumucumaque, as canoas são usadas diariamente.
Os barcos de alumínio ainda não chegaram por aqui.
Aldeia Jolocomã AP/PA 2015

Detalhe de canoa ainda no processo de feitura. Ela é colocada dentro da água para ir curtindo sua madeira, que fica mais fácil de ser trabalhar para criar suas formas, no Rio Paru D`Este
Terras Indígenas do Tumucumaque, AP/PA, 2015

Nas Terras Indígenas do Xingu (TIX), as canoas e o remo outrora eram usados cotidianamente,
mas já faz um tempo que vêm dando lugar às embarcações de alumínio e seus rápidos motores.
As canoas ainda são vistas nas lagoas, mas, a cada ano, são mais raras como esta imagem.
Lagoa do Ipavu, na Aldeia Kamayurá, 
Terras Indígenas do Xingu, 2011

Empurrando a canoa com uma enorme vara, o homem quase desaparece coberto pelas brumas do amanhecer. No meio da lagoa, ele vai buscar um segredo para que a comunidade tenha uma boa pescaria.
Sem a canoa silenciosa, o ritual seria impossível de realizar, pois os motores barulhentos iriam
espantar os peixes na Pyulaga (lagoa dos pescadores), sobre a qual já falei aqui no blog.
Terras Indígenas do Xingu, Aldeia Waujá, 2016

Os meninos Waurá saem para pescar na Pyulaga (lagoa dos pescadores).
Desde pequenos, já se habituam com as águas, pois é de lá que vem seu sustento e a canoa é seu veiculo.
Terras Indígenas do Xingu, Aldeia Waujá, 2016

Pescaria na Pyulaga (lagoa dos pescadores).
Terras Indígenas do Xingu, Aldeia Waujá, 2016

Canoas na Pyulaga (lagoa dos pescadores).
Terras Indígenas do Xingu, Aldeia Waujá, 2016

Meu amigo Takumã Kamayurá pesca na lagoa sagrada do Ipavu.
Terras Indígenas do Xingu, Aldeia Kamayurá, 2011

A noite cai e as canoas ficam à margem da Pyulaga (lagoa dos pescadores)
para que, ao amanhecer, seja mais rápida a partida para a pescaria.
Terra Indígena Xingu, Aldeia Waujá 2016

No ano de 1991, me embrenhei pelo Amazonas. Fui para a cidade de Tabatinga, no extremo oeste do Brasil setentrional, e lá retratei esta canoa que passava com um pescador. Foi um momento mágico,
pois era como se nada ao seu redor houvesse, apenas o Rio Solimões e suas águas barrentas.
Amazonas, 1991

A família de botos observa ao longe o canoão que, com seu motor de rabeta,
segue riscando as águas do Rio Negro.
Amazonas, 2011

Na comunidade de Campina, no Alto e Médio Rio Negro, se as canoas ficam paradas por alguns dias,
os homens tomam o cuidado de as afundar nas águas para que a madeira não rache sob o sol.

Amazonas, 2002


Agora, segue a letra da música de Milton Nascimento…

CANOA, CANOA
Milton Nascimento

Canoa, canoa desce
No meio do rio Araguaia desce
No meio da noite alta da floresta
Levando a solidão e a coragem
Dos homens que são
Ava avacanoê
Ava avacanoê

Avacanoeiro prefere as águas
Avacanoeiro prefere o rio
Avacanoeiro prefere os peixes
Avacanoeiro prefere remar
Ava prefere pescar
Ava prefere pescar

Dourado, arraia, grumatá
Piracará, pira-andirá
Jatuarana, taiabucu
Piracanjuba, peixe-mulher

Avacanoeiro quer viver
Avacanoeiro só quer pescar
Dourado, arraia e grumatá
Piracanjuba, peixe mulher.

Fotos: Renato Soares

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

5 comentários em “Canoa, canoa desce… pro meio do rio, canoa desce

  • 18 de janeiro de 2017 em 9:15 PM
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    Gostei do texto e das fotos. Parabéns.

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  • 15 de março de 2018 em 4:23 PM
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    REALMENTE VALEU A PENA PASSAR UM TEMPO PESQUISANDO E OLHANDO SUAS FOTOS. É PRECISO AMOR E DEPOIS A TÉCNICA PARA FAZER UM TRABALHO TÃO CATIVANTE.

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  • 16 de março de 2018 em 9:22 AM
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    Venho aqui agradecer a todos pelos comentários. Eu viajo muito e acabo não sendo atencioso como gostaria. Mas na medida do possível vou visitando e conversando com todos. Mas eu me sinto muito feliz de poder ver que muita pessoas gostam do que tenho feito. Isto me motiva para continuar adiante! Um abraço da Tribo!

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  • 30 de julho de 2018 em 3:24 AM
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    Caro Renato Soares: sua arte fotográfica alimenta meu imaginário. Faço literatura e escrevo sobre literatura. Especifcamente, faço da literatura indígena uma canoa, minha canoa. Pensando assim, permita-me compartilhar, em minha palestra na Abralic, algumas das suas fotos. Saudações indígenas, Graça Graúna

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