Living Images Project: campanha pela proteção de espécies ameaçadas recria animais extintos, nunca fotografados

O bicho que aparece na foto acima é o leão-americano, também chamado pelos cientistas de megaleão (Panthera leo atrox ou Panthera atrox), que viveu na América do Norte, na região que abrange Califórnia, Wyoming, Arizona e Texas, e está extinto há cerca de dez mil anos.

A espécie foi descrita como o maior felino da Terra desbancando o tigre dente de sabre , devido à análise dos fósseis retirados de poços de betume de La Brea, na Califórnia. Os machos podiam ter até 4,1 metros de comprimento e pesar cerca de 457 quilos.

Cientistas chegaram a dizer que o leão-americano era parente do leão moderno, depois da onça pintada (ele tem pintas delicadas ao longo do corpo) e também do tigre. Mas análises morfológicas e genéticas indicam que ele teria maior afinidade com onças e tigres do que com leões (ele não tem juba) e leopardos.

Ele foi reconstituído por ilustrações e por um esqueleto montado num museu da Califórnia. Até agora.

Na campanha Living Images Project (Projeto Imagens Vivas, em tradução livre) lançada pelo banco de imagens Getty com o intuito de alertar para a proteção de animais ameaçados de extinção, o leão-americano ganhou uma interpretação fotográfica hiperrealista, em seu habitat natural, sem nunca ter posado para um fotógrafo.

É a imagem acima, que só foi possível graças ao envolvimento de profissionais especializados – entre eles o paleontólogo Lucas Inglez – e de 68 imagens de animais em extinção.

Para conduzir a campanha, a Getty convidou a premiada fotógrafa norte-americana de natureza e conservação, Ami Vitale.

Em um filme – que reproduzimos no final deste post -, a fotógrafa faz uma expedição à Califórnia, onde “captura” a foto do leão-americano em meio a imagens das terras onde viveu o felino, antes de ser extinto. 

Campanha pela proteção de espécies ameaçadas recria animais extintos nunca fotografados

A escolha de Ami para o projeto não foi aleatória: foi ela quem fez a última fotografia do último rinoceronte-branco do Norte macho (agora existem apenas duas fêmeas), extinto em 2018 (abaixo).

Uma memória distante

No belo filme, que você pode assistir no final deste post, Ami explica sua missão:

Existe uma regra de ouro na fotografia de vida selvagem: você precisa ter paciência para conseguir a foto perfeita. Você precisa se integrar com a natureza, acompanhar o ritmo, a calma e o silêncio. Esperar, esperar e esperar. Até o ponto em que você quase consegue sentir as árvores respirando, enquanto a natureza toma conta de cada um dos seus sentidos.

Então, acontece um momento mágico, em que você transcende a linguagem e você percebe que estamos conectados com cada ser vivo deste planeta. Parece telepatia, mas é pura empatia. É quando você compreende o que significa ser selvagem.

Mas, por outro lado, imagine quantas fotos e quantas criaturas incríveis nós perdemos, justamente porque ficamos parados por tempo demais. Incontáveis animais foram extintos antes que pudessem ser fotografados. Desapareceram da face da Terra tão rápido quanto o flash de uma câmera.

É por isso que estou aqui, nestas terras douradas da Califórnia, onde o leão-americano um dia caminhou. Para dar a esta criatura a homenagem que ela merece”.

Campanha pela proteção de espécies ameaçadas recria animais extintos nunca fotografados

Com este projeto sensível, o objetivo da Getty é tocar o espectador e fazer um alerta para o risco de desaparecimento que diversos animais correm, hoje. De acordo com a IUCNorganização que mantém atualizada a lista vermelha de espécies em risco de extinção -, apenas na América do Sul já foram extintas 25 espécies e 2.188 espécies estão indicadas na famigerada lista.

“Se não protegermos as espécies vulneráveis agora, elas também podem virar mais uma memória distante”, diz o slogan da campanha.

Além do lindo e gigante felino, Living Images Project reconstituiu outros grandes animais: a Tartaruga Gigante de Rodrigues e o Grande Auk ou Arau-gigante, uma ave que não voava, mas nadava muito.

A tartaruga e o Arau

Para recriar a Tartaruga Gigante de RodriguesCylindraspis vosmaeri -, que viveu no início do século XVIII na Ilha Rodrigues, que integra as Ilhas Mauritius, a leste da costa de Madagascar, no Oceano Índico, foram necessárias 80 fotos de animais em extinção.

Devido ao isolamento geográfico, o arquipélago sempre foi e é o lar de espécies exóticas, muitas extintas. Como não tinha que enfrentar muitos predadores, esta tartaruga teve seu casco modificado, tornando-se menos espesso e mais leve, o que favoreceu o aumento de seu tamanho. E também sua vulnerabilidade.

Campanha pela proteção de espécies ameaçadas recria animais extintos nunca fotografados

Acredita-se que a Cylindraspis vosmaeri pesava até 100 quilos e foi extinta por volta de 1800, durante a expansão colonial europeia, devido à caça e a introdução de animais como ratos, gatos e porcos e à redução de seu habitat.

O pescoço muito longo lembra outra espécie extinta: o Solitário George, último indivíduo da especie Chelonoidis abingdonii, que faleceu em 2012, na Ilha Pinta, na região norte do arquipélago das Ilhas Galápagos, no Equador.

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O Grande Auk ou arau-gigantePinguinus impennis – era uma ave, mas não voava. Vivia a maior parte do tempo na água – era uma grande nadadora – em ilhas do Atlântico Norte, numa região compreendida entre o Canadá e a Noruega, e que incluía a Islândia, as ilhas Britânicas, França e o norte da Espanha. 

Podia pesar 5 quilos e, na terra, em posição ereta, chegava a 70 cm de altura. Lembra um pinguim, mas, na verdade, os pinguins receberam esse nome justamente por serem muito parecidos com o grande Arau.

Para sobreviver, instalava seus ninhos em encostas rochosas, evitando predadores e a competição por alimento. Mas, mesmo se isolando assim, não sobreviveu à caça pelos seres humanos. Isso, aliado às mudanças no clima da região, culminaram com seu desaparecimento.

A data de sua extinção é 1844, quando foram capturados dois indivíduos mortos, na Ilha Eldey, na costa sul da Islândia. Hoje, só restam peles e esqueletos ou restos preservados (abaixo).

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Interatividade

O site interativo do Living Images Project oferece uma experiência única. É possível visualizar os três animais extintos em 360º, compreender o que aconteceu com cada um deles ao longo da história e ainda explorar as centenas de imagens do banco da Getty, utilizadas como referência para fazer a reconstituição.

Para ter uma “viagem” ainda mais prazerosa, é essencial aumentar o volume ou usar fones de ouvido.

Agora assista ao filme sensível feito com Ami Natale para apresentar a campanha:

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Fotos: Divulgação/Getty

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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