Campanha #MeuAmigoSecreto denuncia machismo e discriminação contra mulheres


campanha #meuamigosecreto

Confesso que demorei um pouco a entender a campanha. Quando vi alguns posts no Facebook com a hashtag #MeuAmigoSecreto e um relato em seguida, fiquei curiosa sobre o conteúdo. Mas bastou que o movimento se tornasse viral nas redes sociais para que ficasse bem claro: era uma nova campanha para estimular mulheres a contar histórias e experiências sobre o machismo e a discriminação em suas vidas.

Os relatos são os mais variados. Curtos ou longos, denunciam o comportamento machista de companheiros, maridos, amigos, colegas ou chefes de trabalho. É realmente inacreditável pensar que em pleno ano de 2015, as mulheres ainda precisam ouvir e conviver com este tipo de situação.

Ao longo da última semana, as redes sociais – principalmente Facebook e Twitter – estão repletas de frases como as abaixo:

#MeuAmigoSecreto é um ótimo pai, mas só aos finais de semana 1x por mês
#Meuamigosecreto diz que trai porque a carne é fraca, coisa de homem. Mas não aceita ser traído em hipótese alguma
#MeuAmigoSecreto não apara a barba, mas faz piada com mulher que não depila
#MeuAmigoSecreto justifica agressão e abuso dizendo que a mulher tinha problemas psicológicos
#MeuAmigoSecreto humilha a esposa por ela estar gorda e diz que, se ela não emagrecer, vai sair com outras mulheres
#MeuAmigoSecreto é empreendedor global, morou em vários países, mas acha que pode chamar a colega latino-americana de gostosa (como se fosse elogio) e se convidar para dormir no quarto dela com a desculpa de que ela é latino-americana e dever gostar disso mesmo

A campanha #MeuAmigoSecreto, que ainda não se sabe ao certo como surgiu, ganha espaço na internet pouco menos de um mês após outra “hashtag denúncia” ter aparecido nas redes: a #meuprimeiroassédio, criada pelo movimento feminista Think Olga, que tem como missão denunciar o machismo e empoderar as mulheres através da transformação.

Infelizmente, muitas mulheres ainda se sentem envergonhadas ou constrangidas em denunciar abertamente o assédio que sofrem em casa ou no ambiente de trabalho. Ou pior, acham que não há nada de errado nisso. Campanhas como estas estimulam que o assunto venha à tona.

Mulheres não podem ficar mais caladas. Todas nós temos algo a contar. Eu inclusive. Há dez anos, quando mudei para São Paulo, fui trabalhar em uma empresa de comunicação. Já era casada na época. Na entrevista para a vaga, fui perguntada se tinha planos de engravidar. Deveria ter desistido do emprego naquele momento, mas queria muito trabalhar. Consegui a vaga. Nas semanas seguintes, era requisitada com frequência no escritório do dono da empresa para ajudar na produção de um vídeo, já que tinha uma larga experiência em televisão.

Depois de um certo tempo, comecei a ouvir comentários jocosos dirigidos a mim de que “o chefe está apaixonado”. Em uma certa tarde, fui chamada à sua sala novamente e ele pediu que eu me aproximasse mais de sua mesa para ver o projeto melhor. Quando cheguei perto, #MeuAmigoSecreto disse que eu não precisava ter medo, ele não mordia. Pelo menos não ali.

Piada? Não. Assédio.

Depois de três meses, engravidei do meu primeiro filho. Como não tinha carteira assinada, propus à empresa que eu continuasse trabalhando até o final da minha gravidez e após este período, sairia, sem que fossem obrigados a me pagar qualquer tipo de benefício. Achei que estava sendo bacana, ética. Dois dias depois fui demitida.

Homens x Mulheres: a desigualdade ainda predomina

Não bastasse o constrangimento sofrido, mulheres ainda enfrentam outra batalha: a desigualdade salarial no mercado de trabalho. Levantamento divulgado há duas semanas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) revelou que elas ganham salários 74,4% menores do que eles no Brasil.

Mesmo em países mais ricos, como a Inglaterra, ainda há discriminação. As mulheres recebem 14% do que os homens. Segundo cálculos feitos naquele país, é como se a partir do dia 9/11 até o final de ano, elas trabalhassem de graça.

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Imagem: divulgacão #seuamigosecreto

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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