Campanha de financiamento coletivo é lançada para ajudar grupos de costura solidária em São Paulo

Diante da demora do governo federal em operacionalizar a renda mínima para brasileiros e brasileiras nos próximos meses – o ministro da economia declarou que o recurso deve começar a ser desembolsado em meados de abril e, pelo escalonamento proposto, os informais estão no fim dessa fila -, movimentos, associações e entidades começam a buscar modos de sustentar grupos produtivos da economia solidária e negócios de impacto social.

É o caso da campanha lançada pela Rede Design Possível para a criação de um fundo de emergência para apoiar uma rede de empreendedoras sociais a passarem pelo período de isolamento provocado pela pandemia do coronavírus, garantindo saúde, alimento e segurança para suas famílias. Essas empreendedoras integram grupos produtivos sobre os quais já escrevi, aqui, no Conexão Planeta.

Esses grupos estão envolvidos em projetos e ações promovidas pela Rede Design Possível, associação sem fins lucrativos que, desde 2005, atua no fomento da transformação social positiva e no cuidado com o meio ambiente envolvendo coletivos, grupos, empreendimentos, cooperativas, pessoas, empresas sociais, pequenas marcas de moda e startups.

Para saber mais sobre a rede, recomendo a leitura de post que publiquei em agosto de 2016.

A campanha de financiamento coletivo Costurando Solidariedade está aberta por 15 dias a partir de hoje, 1/4, e, como o nome indica, busca auxiliar grupos produtivos de costura, em São Paulo. Eles fornecem serviços a pequenas marcas e empresas preocupadas em incentivar o consumo ético e que, nesse momento, se vêm obrigadas a paralisar suas atividades, eliminando, assim, sua única fonte de renda.

Embora o centro de trabalho da Rede Design Possível seja fomento, capacitação e incubação de negócios de impacto social, o grupo resolveu liderar essa campanha de arrecadação por entender que seu papel, neste momento, é o de também ajudar a garantir o essencial para os grupos parceiros. Em conversa com os colaboradores de negócios sociais apoiados pela Rede, surgiram indicações de pessoas com necessidades emergenciais que precisariam ser supridas com urgência.

Esses negócios são pequenos, atuam de forma solidária e autogestionária, sem fluxo de caixa suficiente para a incerteza do momento que vivemos. A renda vem, basicamente, de serviços de costura.

“Em contato com os grupos, com as atividades presenciais paralisadas, percebemos que algumas pessoas já estavam precisando de suporte financeiro para comprar comida, remédio, gás, enfim… Nesses grupos de costura, geralmente as mulheres são as principais provedoras de recursos dentro do núcleo familiar. Algumas dessas mulheres nem têm grupo familiar, como é o caso, principalmente, de transexuais, travestis e egressas do cárcere. Todas essas mulheres – que produziam em seus ateliês e geravam renda -, com os pedidos reduzidos ou, mesmo, interrompidos, ficaram completamente sem recursos”, destaca Júlia Asche, integrante da Rede Design Possível.

“Se a gente acredita em uma forma diferente de rodar a economia, e se falamos tanto em priorizar o ser humano, mesmo não sendo uma frente que a Rede Design Possível toca em seu dia a dia, como algo mais assistencial, resolvemos ser catalisadores desse processo. Vamos fazer a arrecadação e distribuir entre todos os grupos”, finaliza.

A meta da campanha é arrecadar R$ 15 mil, destinados a 35 famílias pertencentes aos grupos apoiados pela Rede Design Possível:

Coletivo Trans Sol: formado por costureiros, estilistas, bonequeiros artesãos que visa ensinar moda, bonecaria, costura e artesanato em geral para mulheres transexuais e travestis a fim de oferecer fonte de renda, abrir espaços de visibilidade social e promover o empreendedorismo e o pensamento plural e coletivo por meio da participação em feiras, palestras, oficinas e ações culturais.

Pano pra Manga: grupo de costureiras localizado no Jardim Cumbica, em Guarulhos, autogerido pela Rosa, Joana, Graça, Wilma, Cida e Jaqueline. Desde 2008 desenvolve coleções para pequenas marcas de moda e linhas de uniformes para empresas. Também trabalham com logística reversa e upcycling

Santa Costura Assessoria: Nathalia Tustumi é a responsável por esse empreendimento especializado em modelagem e pilotagem, cujo objetivo é auxiliar marcas de moda no desenvolvimento de suas coleções e também na conexão com outros grupos de costura de economia solidária.

►Conkistart: grupo formado pelas empreendedoras Lourdes, Nilsa, Izabel, Sônia, Maria, que trabalha desde 2007 da sua produção de brindes corporativos sustentáveis. Está localizado no Jardim da Conquista, zona leste de São Paulo.

Cooperativa Retrosvest: o grupo surgiu em 2015 na zona leste de São Paulo, passou por uma aceleração na Incubadora Pública de Empreendimentos Econômicos Solidários de SP e hoje está sediado no Itaim Paulista. As cooperadas Rejane, Inês, Cleusa, Givanil, Gildete, Tania e Joseny trabalham com confecção para marcas de moda independentes e projetos sob demanda.

Cooperativa Libertas: cooperativa de costura voltada para a conquista da autonomia financeira de mulheres egressas do sistema prisional, hoje com aproximadamente 10 participantes, localizada na Bela Vista, região central de São Paulo. 

Ateliê Ala Loucos pela X: desde o ano de 2001 o grupo confecciona adereços para escolas de samba e proporcionam o convívio entre pessoas em situação de vulnerabilidade devido a classe social, origem ou condição de saúde mental – pessoas geralmente excluídas dos processos sociais, culturais e de trabalho. O grupo fica na zona norte de São Paulo e conta com mais de 10 integrantes. 

Griffe Criolê: empreendimento de economia solidária no segmento de moda situado no Ponto de Cultura Caminhos, em Hortolândia, interior do estado de São Paulo. Conta com 10 integrantes, na sua maioria jovens e mulheres. Busca, com sua criação, fazer uma leitura do conceito afro, traduzindo para a linguagem brasileira. As referências tradicionais dos terreiros, da comunidade negra e popular faz da moda Criolê uma moda casual e diferenciada.

Fotos: Rede Design Possível

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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