Caminhos da vida e encontros com a natureza

menina tira pétala de flor branca

Sempre que posso, retomo com mais profundidade lembranças dos momentos da minha vida que permitiram moldar os caminhos e motivos pelos quais escolhi desenvolver projetos que promovem o encontro das crianças e dos adultos com a natureza por meio da arte. E também criar, em 2006, o Instituto Árvores Vivas que também dá nome a este blog.

Com a realização de cada ação e atividade, verifiquei que aplicar estes projetos com todos os tipos de público – mas em especial as crianças -, provoca impactos importantíssimos em uma sociedade que não deve/pode esquecer de suas raízes. Somos um país rico em biodiversidade e este valor que resguarda nossa identidade cultural nunca deveria ser esquecido por nós. Da mesma maneira, cada povoado pelo mundo tem as condições naturais onde vive sua essência.

A vida urbana, principalmente, criou estruturas que restringem essa identificação. Na maior parte do tempo, o humano encontra-se fechado entre quatro paredes, ou movimentando-se dentro de bolhas feitas de metal com janelas de vidro, sentados à frente de telas brilhantes, escutando somente o que sai dos fones de ouvido. Aos poucos, o referencial é de que somos mais parecidos com computadores, celulares, carros e concreto do que com árvores e plantas. Estas que ainda podem viver na frente de nossas casas ou os alimentos que estão dentro da geladeira.

Como chegamos neste ponto? Sabe-se tudo ou quase tudo sobre marcas, modelos de produtos industrializados, personagens de novelas, filmes ou jogos virtuais. Mas não se faz a menor ideia da dimensão da diversidade de aves, não se conhece seus cantos, muito menos os desenhos das folhas das plantas, os insetos, hábitos e comportamentos de animais, ciclos e estações expressos na sazonalidade dos alimentos ou na floração das espécies, a tonalidade verde das folhas que muda conforme a época do ano ou ainda as incríveis interações entre plantas e animais.

Lembro de momentos da minha infância que pude desfrutar no sítio dos meus avós: a enorme alegria e a simplicidade em colher e procurar morangos maduros escondidos sob as folhas no canteiro, ou acompanhar e participar da retirada de mandiocas enormes de dentro da terra. Pude embalar cuidadosamente com papel de seda, e sob a orientação do meu avô, pequenos e jovens pêssegos e caquis que começavam a se desenvolver na ponta dos galhos. Separando assim: alguns para nosso consumo e outros para as aves. Também ajudava minha avó a regar os vasos e a cuidar dos canteiros do jardim.

Foi nesse sítio que comecei as minhas primeiras coleções da natureza. Tipos diversos de folhas, variedade de formas e cores de pedras, estágios de desenvolvimento das moscas, besouros e outros insetos que encontrava pelo chão. Borboletas, libélulas e mamangavas eu apreciava rodeando plantas e flores da piscina. Eu organizava essas coleções com alfinetes no isopor como uma típica exposição entomológica ou de algum museu natural. Para ilustrar processos e ciclos, fazia os desenhos e pendurava na parede. Quando tudo estava pronto, ao final do dia eu convidava toda família para visitar a grande exposição.

Ao mesmo tempo, com meus avós paternos, tive a oportunidade de conhecer mais sobre o litoral e dias junto do mar, nas matas de encosta, subindo nas pedras ao final de cada linha de praia, coletando conchinhas, construindo castelos e buracos na areia. Sentindo a textura de algas e vendo os pequenos peixinhos. Flutuando nas ondas e, ao mesmo tempo, perceber a diferença das cores e a força das águas. Inúmeras vezes, eu ficava observando atenta e curiosa as preguiças que moravam nas embaúbas das alamedas de acesso à praia. Podia passar horas e horas ali.

Enquanto isso, na capital, entre o ritmo de escolas e cursos, sempre sobrava um tempinho para ver muitas exposições. Além disso, sempre adorei ler sobre arte e visitar todo tipo de exposição. Adorava as que também ofereciam oficinas criativas e a montagem de instalações interativas.

Dividia meu tempo também nas brincadeiras com amigos na rua, em parques ou nos jardins e quintais de casas e prédios. Esconde-esconde, pintura de chão e paredes, carrinho de rolimã, queimada, jogos de tabuleiro. Tudo feito e vivido com outras crianças, juntas e misturadas. A rua era tranquila e, mesmo no centro de uma das maiores cidades do mundo, havia espaço para a brincadeira de bola e a conversa entre vizinhos de todas as idades que moravam no bairro.

Esses são os elementos diversos e múltiplos da infância que tive a preciosidade de viver. Momentos que pude experimentar e sentir e me ajudaram a desenvolver um grande repertório de sensações e referências para todos os meus sentidos. Tudo isso aconteceu de maneira marcante e intensa até meus 12 anos de idade.

Quando me lembro dessa efervescência de experiências, sei e confirmo que foi nestes momentos da minha vida que se criaram as bases e a essência, de onde emerge a fonte contínua de inspiração e motivação para realizar hoje o meu maior propósito. Estar em conexão consciente e direta com essa memória e identidade é uma oportunidade preciosa, que procuro transmitir na realização e na organização de cada atividade, projeto e ação que proponho com o Instituto. Recriar essas experiências ou, ao menos, criar espaço e oportunidade para que elas aconteçam para as crianças é a mais empolgante missão.

A diversidade de repertório e de vivências promoveu a abertura de diversos caminhos. Entre eles, o caminho das artes e da natureza continua sendo apreciado especialmente. Essas duas áreas promovem lindos encontros, como quando o casulo de uma lagarta convida uma folha para enrolar-se e protegê-lo. Ou ainda quando dois rios se encontram. Existem também as novas raízes da epífita que se desenvolvem e enrolam na casca da árvore. As fortes unhas e braços da preguiça que envolvem e apertam o galho. O entrelaçar da fibra ou da palha, organizados pelo bico, para formar o aconchegante ninho. A dança da flor e de seu polinizador.

Afinal, o que seria da arte sem a inspiração da natureza?

Foto: ©Digitalphotonut|Dreamstime Stock Photos

Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

3 comentários em “Caminhos da vida e encontros com a natureza

  • 16 de junho de 2016 em 1:40 AM
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    Somos um pais rico em biodiversidade o problema e a má administração desse recurso sem contar a corrupção corporativa e politica e lembrando que o Brasileiro ta e preocupado em jogar futebol.

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    • 7 de julho de 2016 em 2:49 PM
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      Olá Carlos, agradeço sua visita ao Blog e por compartilhar sua percepção sobre a relação que muitos ainda tem de não valorizar a natureza. Aos poucos, muitos que já possuem esse olhar, valor e conexão vão espalhando as sementes de respeito e admiração por esse patrimônio tão valioso que temos como Brasileiros e como cidadãos do Mundo! Uma ótima semana

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  • 15 de junho de 2017 em 7:25 PM
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    Prezado senhores gosto de apostar em tudo que é sustentável . E que venha trazer melhoramento ao nosso planeta. sem contar que hoje reciclagem é a bola da vez. . Um conhecedor de que nosso planeta pede socorro , venho buscando soluções para também estar colaborando para dias melhores para o mesmo. morador de uma região a onde se joga muitos colchões ,e sofá na natureza, venho junto ao que já fazem este trabalho. buscar conhecimento como começar já um trabalho nesse sentido. sem recurso financeiro gostaria de receber algumas dicas como fazer e receber proposta de venda do produto até a reciclagem final alguma cartilha com informações mais precisas . meu telefone para contatos 27 31512812 ou 27 998280426 certo de que os senhores me trarão uma solução mais urgente. cordiais saudações José Maria Delfíno.

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