‘Caixa Preta da Terra’ será instalada na Austrália em 2022 e contará a história da crise climática

Em uma planície de granito, cercada por montanhas retorcidas, localizada na Tanzânia, estado insular ao sul da Austrália, deve ser instalada uma caixa irregular e gigante, feita de aço, com dados sobre o clima no planeta registrados durante décadas. Batizada de Caixa Preta da Terra (Earth’s Black Box) por seus idealizadores, ela começará a ser construída em meados de 2022.

Devido a seu formato inusitado – que parece saltar aos olhos na paisagem e nos remete ao monólito do filme 2001: uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick -, parece uma instalação ou obra artística. E é um pouco, mesmo, já que reúne cientistas, arquitetos e artistas.

A ideia é de pesquisadores de dados da Universidade da Tasmânia que alertar os atuais habitantes da Terra – e também as gerações futuras – sobre o impacto das ações humanas no meio ambiente, que nos levaram à crise climática que vivemos.

Temos todos os motivos para sermos pessimistas – afinal, podemos alcançar até 2,7°C de aquecimento neste século!! –, e os dados armazenados poderão revelar que a humanidade falhou completamente.

A inspiração veio obviamente da caixa indestrutível dos aviões, que armazena todos os dados do võo, indicando os motivos da queda da aeronave. “Ela foi idealizada para sobreviver a todos nós”, conta Jonathan Kneebone, cofundador do coletivo artístico Glue Society, que também está envolvido no projeto. “Se o pior acontecer, essa coisa ainda estará lá”.

De acordo com Jim Curtis, diretor de criação da agência de publicidade onde o projeto foi concebido, não há objetivo comercial e o princípio que orienta o design é a funcionalidade. Mas, ao mesmo tempo que ele deseja que o projeto seja bem sucedido, ele espera que a caixa não precise ser aberta.

“Estou dentro do avião, não quero que ele sofra um desastre. Realmente espero que não seja tarde demais”, destaca Kneebone.

Projeto e funcionamento

A Tasmânia – entre Strahan e Queenstown – foi escolhida devido à sua relativa segurança geopolítica e ambiental e a caixa foi projetada para ser resistente a ameaças como ciclones, terremotos e até mesmo vândalos.

Ela será feita de aço com espessura de 7,5 centímetros. Terá 10 metros de largura, 4 de altura e 3 de profundidade e será preenchida com uma massa de drives de armazenamento e conexão com a internet. Tudo alimentado por painéis solares instalados em seu “telhado” e baterias que garantirão armazenamento de energia de reserva.

Quando o sol estiver brilhando, a caixa preta baixará dados científicos e coletará informações relacionadas às mudanças climáticas na Internet do passado, presente e futuro: medições de temperatura da terra e do mar, acidificação do oceano, CO2 atmosférico, extinção de espécies, mudanças no uso da terra, população humana, consumo de energia e gastos militares.

Ainda armazenará dados contextuais, como notícias publicadas em sites e mídias sociais, como também conferências da ONU sobre mudanças climáticas. Ela ainda não começou a ser construída, mas o armazenamento de dados foi iniciado na COP26, em novembro.

E Curtis lembra que o projeto “também existe para responsabilizar os líderes – para garantir que suas ações ou omissões sejam registradas”. E justifica: “Quando as pessoas sabem que estão sendo gravadas, isso influencia o que elas fazem e dizem”.

E atesta: “A ideia é que se a humanidade quase que dizimada como resultado da mudança climática, este dispositivo de gravação indestrutível estará lá para quem sobrar aprender com isso”.

Mas quem decifrará a Caixa Preta da Terra?

Foto: Earth Black Box/Diivulgação

Como entrar na caixa? E decifrá-la?

Essa é uma grande questão neste projeto. Afinal, é impossível prever quem vai encontrar o monólito na Tanzânia. “Mas pode-se presumir que a caixa não terá nenhuma utilidade a menos que seja descoberta por alguém ou algo com capacidade de compreender e interpretar o simbolismo básico”, destaca Kneebone.

Os pesquisadores que estão desenvolvendo o projeto presumem que quem é capaz de entrar na caixa também será capaz de interpretar símbolos básicos. Mas se as instruções para acessá-la são secretas, por motivos óbvios, quem e como poderá fazer isso?

Os cientistas de dados conjecturam: “Como a Pedra de Roseta, procuraríamos usar vários formatos de codificação”. E acrescentam: “Estamos explorando a possibilidade de incluir um leitor eletrônico dentro da caixa, que seria ativado após a exposição à luz solar, também reativando a caixa se ela entrar em estado dormente de longo prazo como resultado de uma catástrofe”.

Segundo a reportagem do Estadão, “os idealizadores do projeto dizem que outra opção seria codificar o conteúdo em vários formatos, como um código binário, que poderiam ser decifrados. Os criadores dizem que, se o planeta estiver se aproximando do cataclismo, as instruções para abrir a caixa serão gravadas em seu exterior. A mensagem não pode ser incluída antes, dizem eles, devido ao risco de vândalos tentarem abri-la”.

Michael Ritchie, diretor da produtora que gerencia o projeto, diz que ele estão trabalhando em modo beta e, por enquanto, “as pessoas estão atentas”. E acrescentou: “Queremos ter certeza de que não vamos arruinar este planeta”.

Antes de uma catástrofe

Enquanto isso, melhor falar de como será possível o acesso logo que a caixa estiver instalada e funcionando, ainda em 2022, certamente. A coleta de dados já foi iniciada em novembro e todo conteúdo capturado ficará acessível em uma plataforma digital, para qualquer pessoa.

“Existem outros recursos com os quais estamos trabalhando, como a transmissão de estatísticas resumidas em intervalos mais longos para o espaço, e ter [uma] pulsação ‘que comunica que a caixa está ligada e gravando ativamente para os visitantes no local'”, disseram os pesquisadores em nota.

Os idealizadores da Caixa Preta da Terra contaram também que têm tomado conhecimento da desaprovação de diversos cientistas a respeito do projeto (a reportagem internacional publicada pelo Estadão confirma disso). “É tentador descartá-lo como indulgência em meio ao alarmismo climático, mas, embora a maioria das pessoas não entre em um avião pensando que vai cair, isso não é motivo para abrir mão da caixa preta”.

Num modo otimista, podemos pensar também que a Caixa Preta da Terra vai registrar a trajetória errante da humanidade no combate às mudanças climáticas, que ela mesma provocou, mas também sua vitória diante do impossível: evitar que a temperatura suba acima de 1,5ºC. Quem sabe…

Com informações do ABC Net, Live Science, NY Times, Estadão, G1

Imagem: Earth Black Box/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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