Cacauway é o único chocolate fabricado por uma cooperativa no Pará, que ainda produz amêndoas de cacau de alta qualidade

Ouvir Hélia Félix contar sobre os movimentos, sabores e memórias da Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (Coopatrans) e provar o chocolate fabricado com as amêndoas de cacau cultivadas e processadas por cooperados é felicidade que não tem fim.

Eu a encontrei em fevereiro, pouco antes do Carnaval, em um workshop do Programa de Aceleração para negócios de impacto da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). Numa manhã ensolarada, às margens do Rio Tupana, em Borba, no estado do Amazonas.

Hélia, engenheira agrônoma responsável pela produção do cacau e no processo industrial, conta que a Coopatrans foi fundada em 2009, e que passou a operar uma fábrica de chocolates em 2010, como modo de agregar valor ao cacau e se tornar agroindustrial. Rompeu, assim, com o paradigma de ser apenas fornecedora de matéria prima. Entre as indústrias da região de Medicilândia, no Pará, a Cacauway – marca do chocolate produzido pela Coopatrans – é a única liderada por uma cooperativa.

“A cooperativa surge da iniciativa de alguns agricultores da região de Medicilândia, com o objetivo evitar que as amêndoas de cacau produzidas passassem pelas mãos de atravessadores e fossem gerar emprego em outro estado. Que é o que acontece muito. Queríamos processar as amêndoas no próprio local, gerar mais emprego e renda para as pessoas dali”, diz Hélia.

A mini-indústria iniciada pela Coopatrans para esmagar as amêndoas de cacau logo pareceu pequena. Com ousadia, como define a empreendedora, o grupo resolveu produzir chocolate. “Ninguém sabia como fazer chocolate. A gente sabia o que era produzir a amêndoa. E uma amêndoa que não era qualquer coisa. Então fomos aprender. De 2010 até 2014 foi o tempo que a gente levou pra aprender a produzir a amêndoa necessária para fazer o chocolate. Que não é qualquer amêndoa. Em 2014, criamos um protocolo, um padrão de qualidade das amêndoas para então fazer o chocolate”.

Uma década produzindo chocolate

Lá se vão dez anos desde a fabricação da primeira barra da Cacauway. Quando a cooperativa adquiriu as máquinas de produção de chocolate, veio junto, no pacote, uma capacitação Jaf Inox, que comercializa o maquinário, e que levou junto um profissional da Castelli, escola de chocolataria que forma o chocolatier, ou chocolateiro. Depois de aprenderem a fabricar o chocolate tradicional e experimentarem formulações, os cooperados deram mais um passo: conseguiram uma bolsa para que uma das cooperadas se formasse como chocolatier. Ela é a responsável pela parte de criação, elaborando novos produtos, misturas, trazendo ingredientes novos.

Hélia elabora receitas e formulações. E se lembra bem do primeiro chocolate que produziu: uma receita 52% cacau com manteiga de cupuaçu. “Fazer chocolate é fácil se você tem uma boa amêndoa de cacau. É só misturar os outros ingredientes, equilibrar a proporção de cada um e pronto. Hoje, esse chocolate é um dos preferidos do nosso público. No primeiro momento, dá uma insegurança no fazer. A gente pensa se vai dar certo, se as pessoas vão gostar, mas depois já começa a brincar, surgem outras receitas que vão dando certo”.

Nesse caminho de dez anos da Cacauway, Hélia destaca a importância e o apoio dos parceiros como fundamentais para garantir os avanços. Entre eles, aponta do Governo do Estado do Pará, que subsidiou a instalação da fábrica de chocolates, o Sebrae, o Instituto Socioambiental (ISA), e agora a PPA. “Quando o parceiro vem e dá essa mão, o pé, a cabeça, conseguimos ir mais longe. Isso fortalece a Cacauway, porque o dia a dia dentro do empreendimento não é fácil. Esses apoios nos fortalecem”.

Os desafios do cooperativismo

Hoje, a Coopatrans tem 29 sócios, mas começou com 40. Alguns não se adaptaram ao cooperativismo. A cooperativa abre inscrições regularmente em busca de novos sócios, que devem ser agricultores comprometidos com o trabalho em cooperativa.

“Temos um desafio ainda na base, que é fazer com que o agricultor entenda o papel dele na cooperativa. Temos agricultores que tiveram pouco estudo, e muitos deles às vezes não conseguem acompanhar o processo de avanço da Coopatrans. Os próprios cooperados precisam gerir a cooperativa, então isso acaba sobrecarregando algumas pessoas que têm uma capacidade um pouquinho maior”, diz Hélia.

Além da gestão, outros desafios externos se colocam para a cooperativa. Capital de giro é um dos gargalos apontados, como também a criação de uma marca de chocolate, a entrada no mercado em concorrência com marcas mais tradicionais e a aprovação do público. “Quando a Cacauway começou, só respondemos uma pergunta: se tínhamos amêndoa de cacau. Sim, tínhamos. Mas não pensamos nas vendas, embalagens, em agradar ao público. Que é um outro grande desafio. Porque as pessoas dificilmente experimentam o novo. Mas temos avançado. Mais gente já conhece o nosso chocolate e reconhece sua qualidade”, avalia Hélia.

Desafio é coisa que ela não teme. Trabalhando desde sempre na área agrícola, Hélia se formou em engenharia agronômica na Universidade Federal do Pará. Bem na época em que terminou o curso, a Coopatrans buscava um agrônomo. E lá foi ela.

“A gente tem muito essa certeza de que o cenário está mudando, que a concepção das pessoas está mudando em relação ao alimento, a conhecer o que é o chocolate. Elas estão mais informadas. Pensamos em um futuro em que a Cacauway seja uma grande fornecedora de chocolate, que Medicilândia seja uma grande fornecedora de matéria prima e que nosso cacau seja todo processado no município, transformado em chocolate, e não vendido como amêndoa”, visualiza.

Impactos positivos

A Cooperativa processa anualmente cerca de 50 toneladas de cacau. Além de gerar renda para os cooperados, tem parcerias com Reservas Extrativistas (Resex) na produção de uma mistura para bolo ou mingau à base de farinha de babaçu e cacau em pó, comercializada também pela Coopatrans.

A Coopatrans contribui para a melhoria da qualidade de vida das famílias fornecedoras/cooperadas e valoriza a matéria-prima da região, gerando renda e contribuindo para a preservação da floresta.

Agora, a informação que todo mundo quer: onde encontrar esse chocolate que, além de muito gostoso, traz toda essa história em cada barra, tablete, trufa, nibs de cacau, cacau em pó, entre outros produtos elaborados pela cooperativa?

A Cacauway tem lojas físicas no estado do Pará, em Santarém, Medicilândia, Altamira e Belém e o chocolate é vendido em vários outros estados, em empórios e lojas parceiras, como em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Para saber mais – inclusive sobre a participação em feiras e outros eventos -, acompanhe sua página no Facebook.

Fotos: Cacauway (cacau e chocolates) e Henrique Saunier (Hélia)

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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