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Brigadista escolheu profissão após perder filho de cinco meses por problemas pulmonares devido à fumaça das queimadas

Brigadista escolheu profissão após perder filho de cinco meses por problemas pulmonares devido à fumaça das queimadas

Por Luiz Claudio Ferreira*

Atiçado pelo vento, o fogo atacava por todos os lados na Serra da Bodoquena, próximo de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Lá no meio, a brigadista Débora Ávila reviu a vida inteira. As chamas que queimavam o Pantanal fizeram com que ela reencontrasse o medo. Mas não era somente esse sentimento que ela carregava em sua mais difícil missão profissional, em junho do ano passado. 

Neste ano, Débora continua na região pantaneira para enfrentar o fogo da maior seca das últimas quatro décadas. Cada vez que vai trabalhar, está movida pela coragem e por ideais. Ela escolheu a profissão depois que o filho de apenas 5 meses de vida morreu por complicações nos pulmões. 

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O menino nasceu com síndrome de Edward, alteração genética que pode causar problemas no funcionamento de diferentes órgãos. Ela ouviu dos médicos que a fumaça das queimadas abreviou a vida do bebê.  

“A queima do Pantanal impediu que ele ficasse mais tempo comigo. Hoje, trabalho por outras pessoas”, declarou a brigadista, de 42 anos, à Agência Brasil depois de mais uma missão.

Depois que o filho morreu, em 2020, Débora foi diagnosticada com depressão. Três anos depois, em meio ao luto, resolveu se informar como é o trabalho de brigadista. “Eu amo ser brigadista. É um trabalho em que me encontrei e sou feliz”.

Para chegar à profissão que ama, inscreveu-se na seleção do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis). Selecionada, passou nos testes físicos. Mostrou que poderia carregar o tubo de água nas costas e, também, o soprador para findar o fogo. Aprendeu até como operar uma motosserra, fundamental para avançar no terreno ameaçado pelas chamas.

Hoje, Débora é a única mulher em um grupo de 45 brigadistas. 

Débora durante combate ao fogo na Serra da Bodoquena, em Corumbá
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Vai lá, minha vida!”

A profissional de 1,60 m fez do combate ao fogo uma missão de vida. Quando veste a gandola (peça do vestuário militar) e coloca o capacete, sabe que tanto faz a hora. Pode ser durante o dia ou no avançar da madrugada. Dá um beijo no marido e avisa que está indo para o trabalho.

“No começo, ele achou estranho”. Mas depois passou a ouvir do companheiro, que trabalha como pedreiro: “Vai lá, minha vida!”. 

Para Débora, encarar adversidades não é exatamente uma novidade. A corumbaense trabalha desde a adolescência. Já vendeu salgados na rua com a avó. Trabalhou como empregada doméstica na “casa dos outros” e foi gari da prefeitura. Na quentura que vem do chão, tentou se equilibrar, na maior parte do tempo, com um salário mínimo. Foi também servente de obra, como o pai (que morreu de câncer), e “tinha” que cuidar da casa, como a mãe, mas sem tempo ruim. Aprendeu a colocar lajota e paralelepípedos nas ruas. 

Só depois, pelas fumaças da vida, resolveu combater o fogo. No caminho para o trabalho, costuma ficar sensibilizada com a entrega de oxigênio nas casas. “Imagino sempre que pode ter crianças ou idosos com problemas de respiração por causa dessas queimadas. Sei que há outras pessoas passando pelo mesmo que eu sofri”.  

Desde que descobriu o novo trabalho, passou a se interessar também pela volta aos estudos. Tinha parado na sétima série, e gostaria de saber e falar mais sobre meio ambiente. “Tive que parar os estudos para trabalhar. Agora, quero concluir o ensino fundamental. Quem sabe um dia fazer uma faculdade de gastronomia”.

Enquanto lembra de comida, recorda dos tempos em que vendia chipa (uma espécie de pão de queijo da região) com a avó para ajudar no sustento da família. Hoje, é apreciadora dos peixes do Rio Paraguai e gosta de criar receitas.

“A história de Débora motiva outras pessoas”

A gestora ambiental do Ibama, Thainan Bornato, que atua na coordenação da Prevfogo-MS, afirma que o trabalho dos brigadistas é fundamental em um momento como esse. A escassez de chuvas modificou as cheias e a seca no Pantanal.

“Há alguns anos, a gente tem tido também a antecipação desse momento de seca do Pantanal. Depois de novembro, não houve mais chuvas, e o Pantanal não encheu. A gente também registrou o pior junho da história em relação aos incêndios florestais”, lamenta.

Sem os brigadistas, ela explica, não haveria como extinguir focos de incêndio. “A gente contrata os brigadistas no período crítico, de junho a dezembro, e tem observado que há necessidade de extensão desse período de contratação. Já não podemos dizer que o período crítico é só [de] junho a dezembro”.

Segundo Thainan, por isso, houve necessidade de aumento do contingente em Mato Grosso do Sul. Desde o ano passado, foram contratados 145 brigadistas de junho a dezembro, com cinco brigadas indígenas e uma de pronto-emprego, que é a sediada em Corumbá, especializada em Pantanal. “A Débora é a única mulher brigadista, mas temos visto aumento do interesse das mulheres em participar”. Para isso, é necessário preparo para o teste de aptidão física e o de uso de ferramenta agrícola. “Em uma brigada, é muito importante ter vários tipos de habilidades. É a diversidade que faz a brigada ser o que é”, completa.

A chegada de Débora deixou a gestora muito emocionada. “A história dela motiva outras pessoas. Não é apenas alguém que carrega um instrumento para combater fogo, mas uma profissional que inspira. “Eu costumo falar para os brigadistas que estão aqui para fazer a educação ambiental, para fazer a prevenção, para conhecer o território. É um agente multiplicador de mudança, de conscientização”.

Pelo edital do Ibama, Débora tem contrato temporário de seis meses. Por mês, recebe R$ 1.980, além de auxílios.

Orgulho e futebol

Passou a fazer parte da vida da Débora esse trabalho em grupo e colaborativo, em que um colega depende do outro o tempo inteiro. Neste momento de estiagem, ela não pode ir muito longe. Gosta de jogar futebol com os novos amigos, o que a faz recordar que já sonhou em ser atleta, quando tinha 16 anos. O trabalho fez com que parasse. 

Em dias como estes, o futebol tem que ser mais rápido. De repente, surge o helicóptero para ir a uma área isolada tomada pelo fogo. É preciso entrar no helicóptero para chegar aos locais isolados e em áreas de mata virgem.  Ela não tem mais o medo de antes.

“Tenho orgulho de ser mulher e estar nessa luta por mim e por muita gente”.

* Este texto foi publicado originalmente no site da Agência Brasil em 7/7/2024
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Foto (destaque): Marcelo Camargo/Agência Brasil

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