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Braskem, responsável pelo afundamento de bairros em Maceió, cancela participação na COP28, em Dubai

O que empresas como a Braskem e a Vale – com graves passivos socioambientais – estão fazendo na COP28, a Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU, que acontece em Dubai, nos Emirados Árabes?

Autoras dos maiores desastres socioambientais da história do Brasil – no caso da Braskem, talvez do mundo –, é um escárnio terem sido incluídas pelo Itamaraty na lista de participantes do estande brasileiro, ou seja, na Comitiva Brasileira. 

A presença da Braskem, com a intenção de apresentar sua “agenda verde” aos visitantes da cúpula do clima é revoltante. Afinal, ela é responsável pelo afundamento de, pelo menos, cinco bairros de Maceió, desastre que começou a se manifestar em 2018 devido à exploração de sal-gema em mais de 40 anos e que, finalmente, ganhou espaço na grande imprensa há cerca de duas semanas (contamos aqui).

Naquele ano, moradores do bairro de Pinheiro foram retirados de suas casas e hospedados em hotéis, o que culminou com a decisão, em 2019, de desativar as minas, gradualmente. 

Na semana passada, a Defesa Civil também evacuou casas e estabelecimentos comerciais em Mutange devido ao risco de colapso de uma das 35 minas (a 18) operadas pela Braskem, que pode abrir uma cratera do tamanho do Maracanã, afetando outras. E ainda há três outros bairros em perigo:

Em seis dias, o afundamento do solo em Mutange chegou a 1,75 metros. E, apesar do ritmo ter diminuído (chegou a 2,6 centímetros/hora) e não terem sido registrados abalos sísmicos no final de semana, imagens de drone revelam avanço na Lagoa Mundaú, próxima à mina.

As vítimas estão ‘acampadas’ em quadras de escolas públicas. E tanto a prefeitura como a Braskem não estão dispostas a pagar aluguel social ou indenização em curto período. 

Certamente como resultado da repercussão desse caso, a Braskem cancelou sua participação em dois eventos no pavilhão do Brasil, programados para 8 e 11/12: um sobre “o papel da indústria na economia circular de carbono neutro” e outro a respeito dos “impactos da mudança do clima e a necessidade de adaptação da indústria”. 

A atitude mais decente, agora, seria voltar para o Brasil, mas ainda não há indícios disso.

Protesto contra a Vale na COP28

A Vale é autora dos desastres que ceifaram vidas humanas e não humanas em Mariana/Bento Rodrigues (neste caso, por meio de joint-venture – Samarco com a inglesa BP Billington) – e Brumadinho (272 pessoas mortas e 3 desaparecidos) e causaram grave impacto ambiental e social com o rompimento de barragens, que despejaram milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração sobre as cidades e seus rios: o Doce e o Paraopeba.

lama tóxica que matou o Rio Doce chegou ao Oceano Atlântico, impactando outras localidades e seus moradores. Quase oito anos depois (5/11/2015), Rio Doce ainda sofre com impactos do rompimento da barragem em Mariana.

No caso de Brumadinho, no início deste ano, a Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 16 funcionários, e tanto a Vale como a Tūv Sud (empresa alemã de consultoria, que atestou a segurança da barragem) foram denunciadas por homicídio qualificado, crimes contra a fauna e a flora e crime de poluição. 

Quatro anos depois (25/1/2019), as famílias das vítimas ainda aguardam por justiça (saiba mais, aqui).

Foto: Movimento dos Atingidos por Barragens/Divulgação

Enquanto isso, a Vale (assim como a Samarco) continua em plena atividade. Tanto que ousa participar de uma conferência internacional de clima para falar de ações sustentáveis

Essa ousadia é resultado da certeza da impunidade e do poder do dinheiro. Mas ontem, 4/12, durante evento sobre Política Nacional de Transição Energética no Brasil,  no pavilhão brasileiro, do qual participava Ludmila Nascimentodiretora de Energia e Descarbonização da empresa, lideranças indígena e do movimento negro protestaram e cobraram reparação de direitos (assista a trecho dessa intervenção no vídeo reproduzido no final deste post).

Ao lado de Ludmila, estava Thiago Barral, secretário de transição energética do Ministério de Minas e Energia, que ouviu, em silêncio, críticas aos projetos do ministério como a exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, além de projetos de mineração

“Vocês falam de transição energética, vocês falam de preservação do planeta, mas são vocês que colocam vidas em extinção, são vocês que ameaçam nossos territórios”, bradou Thiago Guarani, da Terra Indígena Jaraguá Pygua, em São Paulo.

“Há mais de oito anos estamos falando que nossas crianças morrem por comerem comida contaminada, porque nosso solo tá contaminado”, acrescentou Luciane Souza, do movimento Vozes Negras pelo Clima.

Os ativistas destacaram a falta de escuta das populações diretamente afetadas pelos empreendimentos da Vale. Luciane questionou a justiça e a transição energética proposta pelo governo. “A que preço vai sair essa transição energética? Queremos, sim, participar do debate!”.

E Thiago ainda falou da morte do Rio Doce: “Lembrem do que fizeram com o rio Doce, colocando vidas à beira da extinção. Vocês não representam nossos territórios!”.

Até agora não há notícia de que a Vale também tenha cancelado sua participação em eventos no pavilhão brasileiro, como a Braskem. Mas seria de bom tom.

A seguir, assista à intervenção de Thiago Guarani e Luciane Souza:

 

 
 
 
 
 
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Foto (destaque): Universidade Federal de Alagoas/divulgação

Leia também:
Maceió em alerta máximo devido ao risco de afundamento do solo provocado por exploração de mina de sal-gema pela Braskem
(dezembro 2023)

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