Brasileiros desenvolvem alternativa ao gesso a partir do bagaço de cana-de-açúcar, milho e beterraba

Brasileiros desenvolvem alternativa ao gesso a partir do bagaço de cana-de-açúcar, milho e beterraba

Foi em 1852 que o cirurgião holandês Antonius Mathijsen introduziu a ‘atadura gessada’, ou seja, o método de imobilização ortopédica que utiliza o gesso e até hoje, mais de 150 anos depois, ainda é um dos mais utilizados no mundo.

O gesso é constituído por sulfato de cálcio, retirado da natureza. Transformado em pó, é colocado entre ataduras de malha.

Todavia, só quem já usou gesso sabe como ele é desconfortável. Pesado, dificulta a higiene e além de tudo, seu descarte não é sustentável, pois é um tipo de resíduo que precisa ser incinerado.

Pensando em oferecer uma nova alternativa para o setor de saúde ortopédica, dois empreendedores do Rio Grande do Norte, o fisioterapeuta Felipe Neves e o biomédico Hebert Costa, desenvolveram um plástico biodegradável, que leva em sua composição bagaço de cana-de-açúcar, milho e beterraba.

Com os filamentos desse material, o PLA (ácido poliláctico), é possível fabricar órteses personalizadas em impressora 3D. Depois de prontas, por ser “termomoldável”, o bioplástico pode ser ainda ajustado perfeitamente ao paciente: basta o contato com água a 50o graus e ele toma a forma desejada.

O filamento do plástico biodegradável

Segundo os criadores da inovação, a solução é melhor porque é arejada, mais higiênica, resistente, à prova d’água e não alergênica, o que garante conforto e liberdade aos pacientes que precisam de algum tipo de tratamento.

O Conexão Planeta conversou com Felipe Neves, um dos sócios da startup Fix it, que produz a novidade.

Por que milho, cana e beterraba?
São matérias-primas produzidas em grandes quantidades mundo afora para a fabricação de combustíveis e açúcar, por exemplo. Então, com seus resíduos, como o bagaço, as empresas se atentaram e começaram a se preocupar em utilizá-lo de uma forma eficiente. Assim ao extrair o bagaço da matéria-prima e fermentá-lo, produz-se o ácido lático e a partir dele, que vem o PLA, ácido polilático. 

De onde vem os bagaços para a produção dos produtos da Fix it?
Vem das principais frentes de canaviais aqui no Brasil. Vem dos estados de Pernambuco e São Paulo, que são os maiores produtores de cana-de-açúcar do país.

Existe algum outro ingrediente na composição?
Não, somente o ácido polilático. Inclusive, o corpo humano também produz ácido lático, ou seja, é um produto biológico.

Qual a vantagem ambiental da órtese biodegradável sobre o gesso tradicional?
Nossa órtese não gera nenhum tipo de lixo, que tenha que incinerar, por exemplo. Já o outro gesso precisa ser incinerado, gerando poluição, e se ele for enterrado pode atingir os lençóis freáticos e poluir água de rios.

De que maneira o processo de produção é mais sustentável?
Além da matéria-prima que usamos que é o PLA, também trabalhamos com produção personalizada das soluções, ou seja, não fabricamos órteses de forma genérica e em grandes quantidades. Produzimos as soluções, por meio da impressora 3D, para cada paciente. 

Depois de impressas, as órteses podem ser moldadas em água quente

As próteses são biodegradáveis. Mas como será feito o descarte desse material por hospitais e clínicas para que isso seja realmente uma vantagem? Não haverá o risco de as próteses plásticas irem parar no lixo da mesma maneira do que o gesso?
Estamos mapeando todas as composteiras dos estados onde já existem as soluções da Fix it, justamente para a gente fazer o descarte ambientalmente correto. Também estamos estudando a logística reversa para pegar essa matéria-prima, porque a gente consegue triturar e transformar em nova matéria-prima. Justamente para não ir para o lixo. Tem dois caminhos, virar adubo ou em nova matéria-prima. 

O custo da prótese da Fix it é mais alto do que um gesso tradicional?
O custo para estabelecimento é mais barato que o gesso. Se estivermos falando em vender para o consumidor final, ela acaba saindo mais cara que o gesso, porém por ser uma solução radiotransparente (que pode ir no raio-x), entre outros processo que o gesso passa, as soluções da Fix it acabam sendo muito mais baratas. 

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Fotos: divulgação Fix it

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Brasileiros desenvolvem alternativa ao gesso a partir do bagaço de cana-de-açúcar, milho e beterraba

  • 12 de fevereiro de 2020 em 8:39 PM
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    Que Maravilha, ideia criativa e sustentável. Tomara que o Brasil use essa ideia o mais rápido possível. Parabéns aos idealizadores.

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