Brasileiro vence prêmio internacional de fotografia com retrato de médica na linha de frente da covid-19

Brasileiro vence prêmio internacional de fotografia com retrato de médica após plantão contra a covid-19

O rosto marcado e cansado da Dra. Juliana Ribeiro foi retratado por Ary Bassous no final de mais plantão exaustivo na ala de emergência contra covid-19 do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão.

A imagem impactante venceu o grande prêmio (120 mil dólares) do HIPA – Hamdan bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum International Photography Award, competição anual organizada pelo Príncipe Herdeiro Sheikh Hamdan de Dubai, que, em sua 10ª edição, teve, como tema, a Humanidade.

Medicina e fotografia

Ary é médico cirurgião. Trabalha em dois hospitais no Rio de Janeiro: Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF/UFRJ) e Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (HUAP/UFF).

Apaixonado por fotografia, durante um tempo conseguiu manter as duas profissões. “Desde que usei uma câmera pela primeira vez e revelei o primeiro filme, fui cativado pela fotografia, ela me prendeu para o resto da vida”. Mas chegou o momento em que teve que optar e escolheu a medicina.

A fotografia ficou reservada às viagens de férias, mas, à medida que foi adquirindo mais experiência e encontrou o tema que toca a sua alma – a natureza e os animais -, Ary transformou a fotografia em profissão também, passando a integrar o time de colaboradores de uma agência de imagens.

“A fórmula que encontrei para manter a fotografia em paralelo foi aproveitando minhas viagens, fotografando paisagens, mas quando descobri a fotografia de vida selvagem, quando me encantei em fotografar animais, encontrei meu nicho e comecei a publicar minhas fotos”.

“Onça-pintada e sua cria no Parque Estadual Encontro das Águas. Poucas semanas antes, essa área havia sido violentamente queimada. Essa mãe conseguiu sobreviver e manter seu filhote bem”, conta Ary Bassous em seu Instagram

A imagem da onça-pintada com seu filhote foi registrada em maio, em uma de suas andanças pelo Pantanal, para onde Ary sempre volta e tem muitos amigos. Veja um pouco da beleza desse trabalho em seu perfil no Instagram, no qual também publicou a foto abaixo, com a anta Preciosa.

Esta selfie foi feita por Ary em 2017, no Parque Nacional das Emas, quando a anta Preciosa
foi resgatada: “sobreviveu a um fim trágico” contou ele em setembro de 2020,
“e está se readaptando à natureza

Em 2014, Ary ganhou ainda mais notoriedade na fotografia com a imagem fantástica de um cupinzeiro no Parque Nacional das Emas (abaixo). Ela lhe rendeu, em 2014, um dos prêmios de fotografia mais cobiçados por profissionais: o Wildlife Photographer of the Year, promovido pela BBC e pelo Museu de História Natural de Londres.

Para chegar a este resultado magnífico, no Parque Nacional das Emas, em Goiás, Ary Bassous dedicou tempo e paciência, qualidades imprescindíveis para quem fotografa a natureza

“Em noites paradas e úmidas, os velhos cupinzeiros na savana do Parque Nacional das Emas, no centro do Brasil, brilham com luzes verdes sinistras. Estas são as iscas bioluminescentes das larvas do besouro que vive nas camadas externas dos montes. Quando as condições são adequadas, eles saem de seus túneis. Iluminando seus “faróis”, eles esperam por presas – geralmente cupins voadores que surgem nas noites úmidas para acasalar e procurar novos lugares para colonizar”, descreveu a organização do prêmio, em seu site. O texto ainda conta detalhes de como a foto foi feita.

Momento histórico

Logo que a pandemia começou, no Brasil, as cirurgias foram reduzidas e somente as de urgência podiam ser realizadas. Ary passou a ter, então, um tempo livre nos hospitais, que ele logo redirecionou para a criação.

“Me dei conta de que estávamos vivendo um momento histórico. Tive uma compulsão, digamos assim, de registrar esse momento. Decidi ir além do trabalho como médico e fotografar”.

Começou, então, a registrar o dia-a-dia corrido e exaustivo de profissionais que trabalhavam na linha de frente para o combate da covid-19. Também no Hospital de Campanha Lagoa-Barra montado pela Rede d’Or para pacientes do SUS, no Leblon.

E, assim, foi a primeira vez que a medicina e a fotografia convergiram em sua trajetória.

Profissionais de saúde transportam paciente em estado grave, possivelmente com covid-19,
no Hospital Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (HUAP/UFF)

“O que sempre me encantou na fotografia, que eu acho mais relevante digamos assim, é o fotojornalismo com uma pegada artística“, conta Ary em entrevista concedida ao projeto Humanos na UFF (que você pode assistir na íntegra, no final deste post).

“E, nos ensaios nos hospitais, consegui fazer registros com essa pegada”. O trabalho mostra a realidade dentro de um hospital, durante uma pandemia, mas com cuidado estético apurado.

Em junho de 2020, o site da National Geographic Brasil publicou uma reportagem comovente sobre este ensaio de Ary nos hospitais. A fotógrafa e jornalista Gabi Di Bella conta, de maneira muito sensível, sobre a rotina dos profissionais de saúde e pacientes fotografados por ele. Uma linda crônica da pandemia. Vale muito a leitura!

A foto e o prêmio

Muito feliz e animado com a distinção, Ary destaca o reconhecimento. “Receber o grande prêmio do Hipa é muito importante para a carreira de qualquer fotógrafo. Um reconhecimento internacional de uma instituição de grande prestigio na fotografia. Abre novas portas, sem dúvida!”.

Em seguida, comenta o valor em dinheiro: 120 mil dólares ou cerca de 610 mil reais. “É inacreditável! Nunca imaginei que um dia poderia receber tanto dinheiro por uma fotografia”.

Sobre a imagem e sua “modelo”, Ary conta que, num certo dia, encontrou a Dra. Juliana quando ela iniciava um plantão de 7 horas e, reparou que seu rosto estava muito marcado, e apresentava bolhas e lesão também. “Tá bravo, hein? Vamos fotografar hoje?”, disse. Ela topou e combinaram de se encontrarem quando ela fosse almoçar, momento em que tiraria a máscara e seria possível fazer o registro.

“Juliana é uma médica nota 10!” elogia. “Primeiro lugar no vestibular, tecnicamente fora de série e profundamente humana. Uma profissional que trabalha duro. Queria muito fotografá-la e ela queria ser fotografada também. Mas, quando olhei o relógio e vi que já eram 14h30, imaginei que talvez não desse certo naquele dia. Mas o telefone tocou: era ela. Encontrei-a no vestiário, onde os profissionais se trocam e descansam. Ela estava meio dura. Pedi que relaxasse, então, ela fechou os olhos, meio como quem desliga de tudo. E foi a foto que resultou desse momento que escolhi para inscrever no prêmio”.

Acertou na escolha. A imagem mexeu com o júri do Hipa, que declarou: “As marcas em seu rosto compartilham as dolorosas histórias humanas que têm consumido o mundo inteiro. A foto carregada de emoção capta a dor do nosso mundo, hoje”.

Retratos e livro

Devido à covid-19, apenas cirurgias urgentes estavam sendo realizadas, como esta, em paciente com câncer,
que se recuperou bem, teve alta, mas voltou a ser internada,
e morreu com quadro de covid-19

A decisão de produzir imagens em preto/branco veio depois de uma conversa com o amigo e fotógrafo Rogério Reis. “A foto PB tem mais impacto e impede que a cor de algumas peças interfira no cenário. Há roupas e equipamentos muito coloridos no hospital, que poderiam interferir demais no resultado”.

O fato de conhecer muito bem o ambiente dos hospitais e ter acesso facilitado às pessoas que circulavam por ele, foi uma vantagem, sem dúvida. Mas, mesmo assim, Ary se sentiu um pouco inseguro no início da empreitada porque não queria ser invasivo.

“Imaginava que as pessoas poderiam pensar que eu estava me intrometendo, atrapalhando, e até que elas poderiam se sentir exploradas, mas rapidamente me surpreendi com a receptividade dos colegas e da maioria dos pacientes”. Apenas dois pacientes se recusaram a participar.

“A recepção foi muito grande. Senti que todos valorizavam esse trabalho, gostavam de ser fotografados e de ter aquele momento documentado”.

Ary gostou tanto do resultado que continua produzindo imagens nos dois hospitais onde trabalha, mas com um outro olhar e num cenário menos tenso do que no início da pandemia. “Fotografo bem menos porque a programação das cirurgias voltou ao normal, e tenho focado em retratos para uma série que pode virar uma reportagem em breve”, conta.

Desta vez, os retratados não são apenas profissionais de saúde, mas todos que integram a rotina diária de um hospital. Certamente, é mais um trabalho primoroso.

Por fim, o fotógrafo ainda contou que as imagens que produziu no hospital de campanha, na Barra da Tijuca (que funcionou de julho até o final do ano passado), ainda podem ser reunidas em um livro. “Ali, a mensagem foi além da covid. Mostrou que é possível atender a população do SUS com excelência. Foi um exemplo também porque formou muitos profissionais para lidar com a doença”.

A seguir, veja algumas imagens produzidas por Ary Bassous durante a fase mais aguda da pandemia da covid-19. E, no final delas, assista à entrevista para o projeto Humanos da UFF, na qual o fotógrafo conta mais detalhes desse trabalho.

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para evitar acidentes potencialmente letais
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em alguns casos, podendo evitar a intubação / CTI do HUAP/UFF
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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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