Brasileiro que detectou a ômicron na África do Sul está na lista da Nature daqueles que fizeram a diferença na ciência em 2021

Brasileiro que detectou a ômicron na África do Sul está na lista da Nature daqueles que fizeram a diferença na ciência em 2021

Com uma longa carreira no exterior, o cientista brasileiro Tulio de Oliveira esteve envolvido em uma das descobertas mais importantes e recentes sobre o SARS-CoV-2, o vírus causador da covid-19. O pesquisador detectou na África do Sul, onde trabalha, a ômicron. E coube a ele a difícil missão de informar ao mundo sobre o desenvolvimento da nova variante, que a tudo indica, é mais transmissível que as demais já conhecidas. Oliveira e sua equipe também foram responsáveis pela descoberta de outra variante, a beta.

Por seu papel importantíssimo de pesquisa e investigação, o cientista aparece agora em 2021 na Nature’s 10, lista da renomada publicação internacional que escolhe anualmente dez pessoas que marcaram a ciência nos últimos doze meses.

Ao apresentar a ômicron, Oliveira sabia que, provavelmente, novas sanções seriam impostas aos países africanos, com ainda maiores impactos sobre essas nações, já tão afetadas pela covid. “A maneira de deter uma pandemia é com uma ação rápida. Esperar para ver não tem sido uma boa opção”, disse ele à reportagem da Nature.

Nascido em Brasília, mas formado em Biotecnologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o cientista já trabalhou em várias universidades internacionais, como Oxford, na Inglaterra, e Edinburgh, na Escócia, ambas na Europa, e ainda na Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos. Nos últimos 20 anos se tornou um especialista em surtos virais, incluindo HIV, hepatite B e C, chikungunya, dengue, zika e febre amarela. É autor de mais de 150 artigos científicos, muitos deles publicados nas principais revistas internacionais, como a Science, Lancet e a própria Nature.

Em 1997, Oliveira se mudou para a África do Sul junto com a esposa. Atualmente é diretor da Krisp (KwaZulu-Natal Research and Innovation Sequencing Platform), na Universidade de KwaZulu-Natal, um dos mais importantes centros de pesquisa sobre a covid. “O KRISP, criado em 2017 com Oliveira no comando, rastreou patógenos por trás de doenças, incluindo dengue e zika, e outros flagelos mais comuns, como AIDS e tuberculose. Mas nunca antes tantas amostras diferentes do mesmo vírus foram sequenciadas em um período de tempo tão curto – tanto na África quanto em todo o mundo”, cita a Nature.

Ainda segundo a publicação, o trabalho do pesquisador também influenciou a formulação de políticas públicas. “A forma de trabalho da KRISP combina tecnologia molecular de ponta com vínculos estreitos com médicos e enfermeiras na linha de frente, em tempo real. Por exemplo, o mapeamento de um surto hospitalar precoce de covid-19 resultou em diretrizes para layouts de enfermarias para prevenir a propagação do vírus em hospitais”.

Em sua conta no Twitter, o cientista comentou a inclusão de seu nome na Nature’s 10. “Muito grato e surpreso… Claro que este é um esforço de equipe com centenas de cientistas africanos e brasileiros”. E ele completou. “Obrigado, um dos meus segredos é que trabalho com epidemias com a FioCruz e o Ministério da Saúde do Brasil então estávamos bem treinados pra responder à covid. A diferença da África do Sul para o Brasil é que ainda investimos em ciência aqui”, escreveu, numa clara crítica aos cortes que o atual governo de Jair Bolsonaro tem feito à pesquisa em nosso país.

Além de sua posição na KRISP, Oliveira está à frente do Centre for Epidemic Research, Response and Innovation (CERI), um centro de pesquisas focado no controle de epidemias na África e em países do Hemisfério Sul, e que contará com o maior laboratório de sequenciamento genético do continente africano.

O texto sobre o brasileiro ressalta que ele ter sido o responsável por anunciar duas variantes de preocupação fez com que ganhasse a reputação de “dar más notícias” e que algumas pessoas até vêem a comunidade de vigilância genômica como o inimigo. “Não somos os inimigos, somos o oposto”, ele garante.

Veja quem são os outros cientistas que aparecem na Nature’s 10 aqui.

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Foto: Rogan Ward for Nature

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.