Brasil é 9o país mais desigual do mundo, brancos ganham quase 70% mais do que pretos e pardos

Brasil é 9o país mais desigual do mundo, brancos ganham quase 70% mais do que pretos e pardos

Alguns poucos são muito, muito ricos. E muitos, são muito pobres. Esse é o cenário de desigualdade social e econômica do Brasil, que persiste há muitas décadas. É um ciclo vicioso e perverso, que mantem os mais ricos cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres. Uma pequena elite concentra em suas mãos grande parte dos recursos provenientes da produção no país, enquanto quase 52 milhões de pessoas vivem na pobreza, sobrevivendo com até R$ 436 por mês. Esse número representa cerca de 25% da nossa população, ou seja, um em cada quatro brasileiros.

Mas para outros 13,7 milhões, a situação é ainda pior. Eles vivem na chamada extrema pobreza. A renda média dessas família gira em torno de R$ 150 por mês.

Os dados acima fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2012 a 2019, divulgada ontem (12/11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Os números são do ano passado, então ainda não refletem os impactos que a pandemia do novo coronavírus causou na economia do país.

O levantamento aponta que, de acordo com o Banco Mundial, o Brasil é o país é o 9o mais desigual do mundo – tem a distribuição de renda mais desigual entre seus habitantes.

O estudo do IBGE indica que a região Sul tinha a menor desigualdade de rendimentos em 2019. Do outro lado, está o Nordeste. Três capitais nordestinas se destacaram como as mais desiguais: Recife, João Pessoa e Aracaju.

Já o Maranhão, assim como em levantamentos passados, continua com o menor rendimento per capita da média nacional, de R$ 1.406.

Negros e brancos: desigualdade salarial escancarada

Quando comparado a outras nações, o Brasil apresenta uma das maiores proporções de desocupação (falta de emprego) de longo prazo. Entre as grandes economias, a taxa de desemprego dos brasileiros aparece apenas atrás de Grécia, Espanha e Itália.

Todavia, um dos pontos que mais chama a atenção na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua é o que mostra que, para milhões de brasileiros, negros ou pardos, quando eles conseguem um emprego, são discriminados pela cor de sua pele.

A análise do IBGE revela que brancos ganham em média 69,3% mais do que pretos e pardos pela hora trabalhada. E isso vale para qualquer nível de instrução, sendo a diferença maior (44,6%) inclusive para trabalhadores com o superior completo.

Brasil é 9o país mais desigual do mundo, brancos ganham quase 70% mais do que pretos e pardos

Diferença de salários cresce na mesma proporção do nível educacional

A presença dos pretos ou pardos é maior nos setores da agropecuária (62,7%), na construção e nos serviços domésticos (66,6%).

Brasil é 9o país mais desigual do mundo, brancos ganham quase 70% mais do que pretos e pardos

Gráfico mostra o Brasil diante de outros países em relação a força de trabalho desocupada

Dados alarmantes na educação

O levantamento realizado pelos pesquisadores do IBGE também coloca luz sobre números bastante preocupantes na área de educação. Listamos abaixo os principais destaque:

– Entre os jovens de 15 a 29 anos de idade, 22,1% não estudavam em 2019 e essa porcentagem sobe para 32% quando se trata de mulheres pretas ou pardas na mesma faixa etária;

– Na faixa de 18 a 24 anos de idade, 35,7% dos jovens brancos frequentavam ou já haviam concluído o ensino superior no ano passado. Entre os jovens pretos ou pardos, esse porcentual era de apenas 18,9%;

– A frequência escolar bruta das crianças de 0 a 3 anos atingiu 35,6% e, na faixa entre 4 e 5 anos, chegou a 92,9%, porém ainda está abaixo das metas do Plano Nacional de Educação (50% para 0 a 3 anos e universalização para 4 e 5 anos até 2024);

– Em 2019, entre as pessoas de 25 anos ou mais de idade, 51,1% não tinham completado o ensino médio;

– Mulheres interromperam os estudos para afazeres domésticos e cuidado de pessoas 13 vezes mais do que homens;

– No Nordeste, ¼ dos jovens não estudavam nem estavam ocupados, em 2019.

Quando questionados porquê pararam de estudar, a grande maioria dos jovens brasileiros afirmou que “precisava trabalhar”.

Infelizmente, como especialistas apontam, exaustivamente ao longo das últimas décadas, acabar com as desigualdades social e econômica tem uma ligação direta com o investimento de governos na educação.

Sem conhecimento e desenvolvimento de novas habilidades, obtidos sobretudo na escola, os mais pobres não têm capacidade para conseguir empregos melhores. De geração em geração, com pouquíssimas exceções, filhos lutam contra os mesmos desafios enfrentados pelos seus pais e ficam estagnados na pobreza.

*Os dados completos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE você encontra aqui.

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Foto: UN Photo/Shelley Rotner/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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