“Brasil cumprirá suas promessas?”, questiona John Kerry, após discurso de Bolsonaro na Cúpula do Clima

"Brasil cumprirá suas promessas?", questiona John Kerry, após discurso de Bolsonaro na Cúpula do Clima

Depois dos discursos iniciais e apresentações de líderes mundiais que participaram do primeiro dia da Cúpula do Clima, conferência virtual organizada pelo governo dos Estados Unidos, o Enviado Especial para o Clima, John Kerry, e a Secretária Nacional para o Clima, Gina McCarthy, participaram de uma coletiva de imprensa na Casa Branca para analisar o que foi dito e prometido até agora.

Kerry começou sua avaliação falando de países como Japão, Canadá, Coreia, Índia, Argentina e também, Reino Unido e União Europeia. Ele comentou, de forma positiva, as metas de redução para emissão de gases de efeito estufa apresentadas por esses governos.

“Acho que é um progresso, mas ainda temos um trabalho pesado e ninguém deve duvidar dos desafios do caminho que temos pela frente”, ressaltou.

Questionado por um repórter sobre as falas dos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e do Brasil, Jair Bolsonaro, e se ele pretendia viajar para esses dois países, Kerry respondeu.

“Em algum momento, provavelmente, a viagem acontecerá. Temos conversado com ambos – com suas equipes – sobre este assunto. Não estamos em um lugar onde sentimos que estamos preparados para fazer a jornada porque há uma sensação de que pode haver algo concreto que podemos definir, mas acho que pode haver chances de isso acontecer”, disse.

E logo após, o Enviado Especial para o Clima do governo americano falou mais especificamente sobre o Brasil.

“Alguns dos comentários que o presidente Bolsonaro fez hoje me surpreenderam. A questão é: eles farão isso? E a pergunta é: quais são as próximas ações e a execução?”, questionou.

O discurso do presidente brasileiro na Cúpula do Clima era aguardado com muita ansiedade, tanto no Brasil, como no exterior. Diferentemente de outras ocasiões em que o país era tido como um líder nessa área e sempre muito bem-vindo, desta vez ele chegou como um “pária” no setor ambiental. Bolsonaro foi o 17o líder a falar e o presidente Joe Biden não acompanhou o seu pronunciamento, pois tinha se retirado da sala de transmissão do evento pouco antes.

Bolsonaro afirmou que o Brasil acabará com o desmatamento ilegal até 2030 e atingirá a neutralidade de carbono até 2050, uma década mais cedo do que o prometido anteriormente. Entretanto, parece que a fala foi para agradar apenas o público internacional, porque internamente o que continua acontecendo é um completo desmonte da estrutura dos órgãos de proteção ambiental e índices crescentes de destruição da Amazônia.

As promessas de Bolsonaro que contradizem a realidade do país foram vistas com ceticismo por muitos.

“O Brasil sai da cúpula dos líderes como entrou: desacreditado. Bolsonaro passou metade de sua fala pedindo ao mundo dinheiro por conquistas ambientais anteriores, que seu governo tenta destruir desde o dia da posse”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

“O desmantelamento dos órgãos de fiscalização ambiental — que tinham se desenvolvido durante o processo de redemocratização —, aliado ao desrespeito às leis ambientais representam uma brecha democrática hoje no Brasil. O país reduziu o desmatamento em 80% de 2004 a 2012, devido a políticas de liderança governamental, fortalecimento do Ibama e ICMBio, respeito às leis ambientais e implementação de ações ousadas. Os problemas atuais do Brasil podem ser resolvidos, mas não sob o governo de Bolsonaro”, enfatizou James Green, co-coordenador nacional do US Network for Democracy no Brasil.

Representantes de lideranças indígenas também se pronunciaram sobre a participação do Brasil no encontro.

“Sabemos que essa retórica é uma mentira. O projeto de morte e destruição de Bolsonaro continua o mesmo: retirada de nossos direitos, legalização de crimes socioambientais e a descontinuidade das políticas de proteção à floresta amazônica. Até agora não houve sequer um diálogo desse governo com os povos indígenas para enfrentamento às invasões de nossas terras”, denunciou Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Para ela, é fundamental que exista um canal direto com o governo norte-americano para assuntos ligados à Amazônia brasileira. “Precisamos garantir a preservação da vida e da biodiversidade do planeta em contraponto ao fortalecimento de políticas anti-indígenas”, ressaltou.

*Com informações da Assessoria de Imprensa da Casa Branca

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Foto: Marcos Correa/PR/Fotos Públicas

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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