Bordadeiras do Jardim Conceição: cada artesanato traz uma história de vida

A delicadeza do bordado não revela nem de longe a complexa trama que tece a história das Bordadeiras do Jardim Conceição. As cerca de 40 mulheres moradoras do bairro de mesmo nome, localizado na cidade de Osasco, Guarulhos, em sua maioria não sabiam bordar, dedicando-se, antes da criação desta iniciativa, à casa e à família.

Hoje, todas são exímias bordadeiras, e o processo para chegar até esse ponto tem sido costurado com muito cuidado. Toalhas de mesa, almofadas, aventais, colchas, bolsas, sacolas, jogos americanos, panos de prato, guardanapos e necessaires compõem as peças sobre as quais a técnica do bordado faz surgir graciosas árvores, frutas, flores, além de bichos, alimentos e utensílios em seus preciosos trabalhos.

A sementinha para a formação do grupo foi plantada a partir de uma ocupação irregular da área por famílias sem moradia, iniciada em 1987, e pela transferência de moradores de favelas para o local, o bairro Jardim Conceição localiza-se na região sul de Osasco. O lugar ficou conhecido como “sem terra” por seu histórico. Grande parte dos habitantes vem de outras cidades e regiões do país. E é dentro desse quadro que surge o trabalho dessas mulheres.

A história da união das bordadeiras começa em 2008, quando um grupo de mulheres passou a frequentar cursos oferecidos pela Escola de Educação Básica Fundação Bradesco, que além de oferecer educação infantil até o ensino médio, promove cursos extracurriculares para adultos. Ali, elas receberam formação para sua emancipação profissional por meio de diversas técnicas de bordado e de um curso de gestão empreendedora. A maioria tinha filhos matriculados em cursos regulares na escola.

Em 2011, começaram a participar de oficinas coordenadas pelo designer Renato Imbroisi. Como resultado inicial desse processo, além da organização do trabalho e do entendimento de mercados, fluxos e produção, surgiu uma belíssima coleção de peças para cama e cozinha, chamada Os Jardins da Conceição.

Em geral, as peças são produzidas a partir de um molde exclusivo, mas a escolha do ponto utilizado fica a critério de cada bordadeira. Ao mesmo tempo em que respeita os temas da coleção, cada peça é única, garantindo o exercício da criatividade de cada uma das mulheres participantes.

O processo de produção tem várias etapas. Primeiro, as encomendas são recebidas por telefone ou e-mail. Depois, vem o corte e a costura – preparo dos tecidos em acordo com o produto encomendado e quantidade. Os desenhos criados para a coleção são, então, transferidos para o tecido numa mesa de luz. E, assim, árvores, frutos e flores, na etapa seguinte, serão preenchidos pelos pontos. Com os produtos riscados, as artesãs preenchem os desenhos com o bordado. Por fim, as peças são lavadas e secadas, passam por um último controle de qualidade, são embaladas e entregues. As artesãs participam de uma ou mais etapas.

O grupo está em fase de estruturação para se definir como associação ou cooperativa. Elas participam também da rede Costura Solidária SP, da qual já falei aqui, no blog. A produção regular e de qualidade traz a delicadeza do bordado aliado à identidade cultural e às inovações do design. As bordadeiras do Jardim Conceição têm, agora, uma nova fonte de renda e descobriram o prazer de criar produtos muito belos com as próprias mãos.

Elas também ministram oficinas de bordado, onde é possível aprender bem mais do que a técnica. A parte mais rica dessa atividade são as histórias que chegam aos ouvidos de quem participa, costuradas por essas mulheres junto com os pontos que dão vida aos tecidos.

“O artesanato conta muito a história de você mesma. Então não desista, porque cada artesanato que você faz traz uma história de vida”, afirma Sonia Leal, uma das bordadeiras.

Conheça um pouco mais desse universo no vídeo abaixo, feito pela Tecido Social:

Foto: Divulgação/Lucas Cuervo Moura

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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