
“Este é um marco trágico na história natural do continente europeu e do país”, anunciou a Rewilding Portugal, organização de conservação ambiental, ao revelar que a borboleta-branca-da-Madeira (Pieris wollastoni), foi extinta, oficialmente.
O fato é um sinal de alerta para pesquisadores devido à fragilidade dos ambientes naturais no país, que pode levar ao “colapso da biodiversidade”. “É um aviso!”, sentenciou a organização ao fazer um apelo à sociedade para que um compromisso nacional pela restauração da natureza seja assumido.
A extinção da borboleta endêmica da Floresta de Laurissilva, na Ilha da Madeira – que, desde 1999, é Patrimônio Mundial da Unesco – foi confirmada no mês passado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que incluiu a espécie na Lista Vermelha Europeia das Borboletas.
Vale destacar que a espécie foi descrita em 1886 pelo entomologista inglês Arthur Gardiner Butler, que a classificou inicialmente como subespécie da borboleta-branca-da-couve(Pieris brassicae). Por isso, recebeu o nome de Ganoris wollastoni ou Pieris brassicae wollastoni. Mais tarde, ela foi elevada à categoria de espécie própria: Pieris wollastoni.
A Ilha da Madeira tem seis espécies e subespécies endémicas de borboletas, além de outras introduzidas.
A primeira borboleta extinta do planeta
Registros de seu avistamento aconteceram, pela última vez, em maio de 1977 e uma equipe de micologistas (cientistas que estudam fungos) portugueses já a tinha descrito como extinta em 2008.

Por volta de 2023, entomólogos da Butterfly Conservation Europe realizaram novas buscas intensivas em toda a ilha da Madeira, por vários meses, sem sucesso.
“Seu desaparecimento é um sinal claro de que é urgente agir no restauro da biosfera”, destaca Pedro Prata, líder da equipe da Rewilding Portugal. “Restaurar a natureza exige coragem política, escala e urgência e o momento é agora”, diz expert, lembrando que este não é um caso isolado.
Nos últimos dez anos, o número de espécies de borboletas em risco de extinção no continente passou de 37% para 65%, ou seja, aumentou cerca de 73%.
E as causas que levaram a essa tragédia são antrópicas, , ou seja, provocadas por humanos. Além do impacto das mudanças climáticas – que já afetam a maior parte das espécies ameaçadas no mundo –, a borboleta foi especialmente afetada:
– pela perda de habitats;
– pela intensificação agrícola;
– pela utilização de pesticidas, em especial nas plantações de couve (seu alimento favorito);
– pela introdução de espécies invasoras, como a borboleta Pieris rapae, que introduziu um vírus para o qual a borboleta-branca-da-Madeira não tinha imunidade); e
– pela drenagem de zonas úmidas.
Ecossistemas frágeis, maior risco
A Grande Branca da Madeira – como a borboleta extinta também é conhecida -, é a primeira espécie de borboleta europeia a ser classificada como globalmente extinta. E, em Portugal, onde existem habitats únicos e diversas espécies endêmicas, o risco de casos como este acontecerem é bastante elevado.
A região da Ilha da Madeira, assim como os Açores, abriga ecossistemas frágeis e isolados e estão entre os locais mais vulneráveis. “Então, caso nada seja feito, as extinções se tornarão cada vez mais frequentes”, alerta a Rewilding.
Para driblar este cenário, é urgente criar políticas públicas mais robustas, comfinanciamentos dedicados e mecanismos de monitoramento para assegurar “o equilíbrio ecológico e a biodiversidade no país”.
De acordo com a Rewilding Portugal, entre as medidas concretas que devem ser tomadas estão o restauro de rios, solos, zonas úmidas e florestas nativas (reflorestamento, regeneração) assim como a criação de paisagens resilientes a incêndios e a integração das comunidades locais.
Mais uma borboleta em perigo
A Lista Vermelha da IUCN também indica que uma outra borboleta da Ilha da Madeira está em vias de extinção: a Cleópatra da Madeira (Gonepteryx maderensis), descrita em 1862.

“A falta de proteção da árvore sanguinho-da-madeira, a baixa precipitação ou, ao contrário, as enxurradas, que acabam por arrastar a vegetação e destruir os cursos d’água são algumas das causas para o desaparecimento da Cleópatra”, destacou o biólogo Sérgio Teixeira – que está à frente do programa europeu de monitoramento das borboletas da Madeira -, à RTP.
As alterações climáticas estão no topo das causas do risco de desaparecimento, Incêndios, perda de habitat, redução de umidade ou, mesmo, o aumento da circulação de automóveis também contribuem para a ameaça de espécies locais, como a Cleópatra. “O número de indivíduos mortos por veículos em movimento é cada vez maior”, alerta.
Durante trabalho de campo recente, a contagem de borboletas desta espécie indicou que havia “apenas 117 exemplares”, dos quais “só duas eram fêmeas”.
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Foto (abertura): Rewilding Portugal / divulgação





Que tristeza, ao saber dessa notícia! Sempre procurei salvar as lagartas, desde criança. Costumava colocá-las em vidros largos, cobria as bocas com papéis com furos, presos com elásticos, as alimentava e acompanhava a evolução do processo da transformação em lindas borboletas! Era maravilhoso abrir os vidros e vê-las alçar voo! Até hoje, com quase 70 anos, muitas lagartas habitam o meu jardim e o meu quintal, e é um prazer ver as borboletas ao redor! O ser humano está destruindo a Mãe-Terra, e já estamos pagando um preço muito alto por todo esse desrespeito e crueldade para com a Natureza. Qualquer dia, a espécie humana também estará extinta. Estamos semeando a destruição, vamos colher.