Bolsonaro volta a defender a exploração de terras indígenas com a desculpa de suprir possível falta de fertilizantes causada pela guerra na Ucrânia

Bolsonaro volta a defender a exploração de terras indígenas para suprir possível falta de fertilizantes causada pela guerra na Ucrânia

No mês passado, a Câmara dos Deputados aprovou o PL do Veneno, que altera o registro de  agrotóxicos no país e que ainda depende da aprovação do Senado e da sanção presidencial para valer. E há, pelo menos, mais 8 projetos de lei na fila, que integram o chamado Pacote da Destruição. Um deles pode ser favorecido pela guerra entre Rússia e Ucrânia.

Com a desculpa de que pode faltar fertilizante no Brasil – já que o maior fornecedor de potássio é a Rússia -, ontem, 2/3, Bolsonaro voltou a defender o Projeto de Lei 191, enviado pelo governo ao Congresso em 2020, e que está na mira dos ambientalistas. 

Esse PL libera a exploração em terras indígenasmineração, extração de gás e petróleo e construção de hidrelétricas.

Ele apelou: “Com a guerra da Rússia e Ucrânia, hoje corremos o risco da falta do potássio ou aumento do seu preço. Nossa segurança alimentar e agronegócio exigem de nós, Executivo e Legislativo, medidas que nos permitam a não dependência externa de algo que temos em abundância”.

E escreveu em seu Twitter: “Em 2016, como deputado, discursei sobre nossa dependência do potássio da Rússia. Citei três problemas: ambiental, indígena e a quem pertencia o direito exploratório na foz do Rio Madeira… existem jazidas também em outras regiões do país”. E completou: “Uma vez aprovado, resolve-se um desses problemas”.

Bolsonaro nunca escondeu sua posição em relação aos territórios indígenas e, durante sua campanha à presidência, chegou a afirmar – para uma plateia de empresários – que seu governo não demarcaria “um centímetro de terra”.

Tem cumprido a promessa e ido além, desestruturando os órgãos de fiscalização ambiental e a Funai, que, em vez de proteger os indígenas, os ataca para favorecer interesses ruralistas e de mineradores (no final deste post listei reportagens que apresentam algumas esse cenário de ameaças).

Altos investimentos podem inviabilizar extração

Bolsonaro está preocupado com a falta de potássio, mas também de nitrogenados e fosfatados – todos produzidos pela Rússia. Em 2020, do total importado pelo Brasil desse país 62% foi de adubos e fertilizantes químicos.

Está explicado porque o presidente diz que manterá ‘posição de neutralidade’ a respeito da guerra com a Ucrânia. Ao mesmo tempo, condenou as sanções da Europa e dos EUA à Rússia, afirmando que o Brasil não seguirá a mesma conduta.

Além dos danos ambientais de grande impacto que essas atividades causariam na Amazônia, especialistas no setor dizem que a extração de potássio no bioma é muito difícil, o que exigiria altos investimentos – durante anos – tanto na extração como na logística. 

Isso tornaria o potássio amazônico inviável: mais caro do que o produzido pela Alemanha, por Israel e Canadá.

Caetano convida para ‘Ato em Defesa da Terra’, em Brasília

Bolsonaro volta a defender a exploração de terras indígenas para suprir possível falta de fertilizantes causada pela guerra na Ucrânia

Na semana que vem, 9 de março, Caetano Veloso, diversos artistas e personalidades, organizações e movimentos sociais farão uma grande mobilizaçãoAto em Defesa da Terra -, em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, como contamos aqui.

O objetivo é protestar contra o Pacote de Destruição, que reúne projetos de lei que podem ser votados na Câmara dos Deputados a qualquer momento (no link acima estão todos listados e explicados).

Em seguida, o músico e alguns manifestantes participarão de reunião com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Ele é nossa última chance para barrar a aprovação desses projetos.

Se não puder participar, compartilhe o card abaixo com os amigos que moram ou estão na cidade para que ‘engrossem o coro’ contra os interesses escusos do governo e de seus apoiadores.

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Foto (destaque): Marcos Amend

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.