Bolsonaro mente na Assembleia da ONU: “qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?”

Como acontece desde 1947, hoje, o Brasil abriu a 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York. Pena que Bolsonaro desperdiçou mais uma oportunidade para mentir, do começo ao fim.

iniciou seu discurso prometendo que ia mostrar ao mundo um Brasil que a Imprensa não divulga. Cumpriu a promessa. Surpresa? Nenhuma. Chocante? Muito. Parecia que estava no “cercadinho do Palácio da Alvorada”.

Usou a tribuna da ONU como palanque eleitoral e falou sobre um “mundo imaginário”, visando sua audiência nas redes sociais. Disse que, “há 2 anos e 8 meses”, não há corrupção, que o país estava “à beira do socialismo” (!!) e tem recuperado sua economia, além de reconquistar a credibilidade mundial.

A CPI da Pandemia, as investigações sobre seus filhos e a fuga de tantas empresas e dos investimentos estrangeiros do país que o digam!

Amazônia, indígenas e clima

O presidente ainda disse que seu governo respeita a mais completa legislação ambiental do mundo e protege seus biomas, em especial a Amazônia.

Em seu governo, o desmatamento cresceu por dois anos consecutivos e, neste terceiro, deve manter o patamar de 10 mil km2, ampliando as emissões de gases de efeito estufa do país, destaca o Observatorio do Clima (OC). “Só em agosto, registraram-se 8.588 focos no estado do Amazonas, superando o recorde do mesmo mês em 2020, que, por sua vez, tinha superado o de 2019”. 

Todos os biomas estão queimando e sofrem com a destruição dos órgãos de fiscalização – falou em fortalecimento, veja só!! -, herança de Salles mantida pelo novo ministro do meio ambiente, que integra a comitiva que foi passear com Bolsonaro a NY.

O OC lembra que “os incêndios florestais bateram recordes e a grilagem de terras explodiu com o estímulo presidencial a atividades ilegais e uma série de medidas do governo contra a fiscalização ambiental. Na Amazônia, o garimpo e a invasão de terras indígenas explodem em municípios ‘fechados com Bolsonaro'”.

E o presidente perguntou: “Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?“. E completou: “Os senhores estão convidados a visitar a nossa Amazônia!“. Antes que acabe, né?

Como não poderia deixar de ser, Bolsonaro dedicou parte de seu discurso aos povos indígenas, mas foi para dizer que eles ocupam 14% do Brasil e mentir: disse que eles querem aderir a atividades desenvolvimentistas! Sim, há indígenas que seguem essa cartilha e o apoiam – existe gente mau caráter em qualquer lugar! -, mas são pouquíssimos.

Bolsonaro “esqueceu” de falar dos ataques que esses povos têm sofrido em suas aldeias e por parte do Congresso Nacional – dominado pelos ruralistas – com projetos de lei que favorecem a exploração econômica. O PL 490, aprovado na Câmara, é um exemplo: defende a maldita tese do marco temporal e só aguarda votação do Senado. Mas o mundo tem acompanhado. Não adianta esconder.

Antecipamos, de 2060 para 2050, o objetivo de alcançar a neutralidade climática“, disse. O país – leia-se sociedade, ativistas, ONGs -, pode ser, já seu governo… O secretário executivo do OC, Marcio Astrini, explica:

“O governo Bolsonaro não tem nenhum compromisso com o clima. Sob sua gestão, todos os indicadores nesta agenda só pioraram. Se o comportamento dos demais líderes globais fosse o mesmo do presidente brasileiro, a meta de estabilizar o aquecimento global em 1,5ºC seria inalcançável”.

Kit precoce, vacinação e auxílio emergencial de 800 dólares!!

Pasme!!! Bolsonaro teve a ousadia de defender o kit precoce contra a covid-19 – que não tem eficácia alguma! – e a autonomia do médico, ressaltando o apoio do Conselho Federal de Medicina, declaradamente bolsonarista, nessa questão. E acrescentou: “Não entendemos porque muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos”.

Também disse verdades, tenho que reconhecer: declarou que seu governo é contrário ao passaporte sanitário, portanto, não incentiva a vacinação. E retiro o que disse sobre ousadia: é obsessão.

Vale destacar, aqui, que o presidente brasileiro não se vacinou, se vangloria disso e tem se aproveitado das leis restritivas de NY – todos os estabelecimentos exigem comprovação de vacina – para fazer politicagem em suas redes sociais, como foi o caso da pizza que comeu com os integrantes da comitiva, na calçada.

Alguém acredita que ele não sabia que ia ser barrado? Populista e, mais uma vez, mentiroso! Aproveitou-se para criar uma notícia que alimentou suas redes sociais.

Ontem, depois de ter feito críticas a Bolsonaro – “se você não quer se vacinar, nem precisa vir”, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, aderiu à ironia: em seu Twitter, compartilhou o post do ‘The Daily Beast’ (que deu as boas-vindas ao presidente, entre aspas) e indicou o link para o posto de vacinação montado exclusivamente para atender os participantes da Assembleia que ainda não teriam se vacinado.

Em seu discurso, pela enésima vez, Bolsonaro acusou prefeitos e governadores pelo fracasso da economia na pandemia devido à promoção do isolamento e de lockdown. Que ranço! Não assume que a gestão de seu ministro da economia, Paulo Guedes, é desastrosa e levou os brasileiros ao desemprego, à fome.

E ainda declarou que seu governo pagou auxílio emergencial de US$ 800 dólares para 68 milhões de pessoas em 2020.!! Imagina! Sempre foi contra qualquer apoio à população menos favorecida durante a pandemia. E tem vetado – de forma acintosa – toda e qualquer ajuda aos agricultores familiares. Na semana passada, ele vetou integralmente novo projeto que garantiria auxilio emergencial a essa categoria.

O mundo inteiro está sofrendo com a pandemia, mas o Brasil é um dos poucos que apresenta cenário tão desolador.

Esta foi a terceira vez que Bolsonaro discursa como presidente do Brasil. E, a cada ano, é ainda mais desesperador nos vermos tão mal representados. E olha que nem vou comentar o que ele disse sobre o dia 7 de setembro, os afegãos e assinatura de pacto contra o racismo. Reproduzo a integra do discurso abaixo pra quem quiser aprofundar a leitura.

A impressão que dá – na verdade, é nítido – é que ele não se importa com os brasileiros e nem como o mundo julga seus atos. Ele está apenas interessado em fazer campanha eleitoral para os poucos mais de 25% da população que ainda o apoiam e o seguem, messianicamente, nas redes sociais.

Tenho esperança – do verbo esperançar, não de esperar – que esta foi a última vez que os brasileiros tiveram que passar por este constrangimento diante do mundo.

O discurso fake, na íntegra

Senhor Presidente da Assembleia-Geral, Abdullah Sharrid,
Senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, 
Senhores Chefes de Estado e de Governo e demais chefes de delegação,
Senhoras e senhores,

É uma honra abrir novamente a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões. 

O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019. 

Estamos há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção.

O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e seus militares, valoriza a família e deve lealdade a seu povo. Isso é muito, é uma sólida base, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo.

Nossas estatais davam prejuízos de bilhões de dólares, hoje são lucrativas. Nosso banco de desenvolvimento era usado para financiar obras em países comunistas, sem garantias. Quem honra esses compromissos é o próprio povo brasileiro. 

Tudo isso mudou. Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada.

O Brasil possui o maior programa de parceria de investimentos com a iniciativa privada de sua história. Programa que já é uma realidade e está em franca execução. Até aqui, foram contratados US$ 100 bilhões de novos investimentos e arrecadados US$ 23 bilhões em outorgas.

Na área de infraestrutura, leiloamos, para a iniciativa privada, 34 aeroportos e 29 terminais portuários. Já são mais de US$ 6 bilhões em contratos privados para novas ferrovias. Introduzimos o sistema de autorizações ferroviárias, o que aproxima nosso modelo ao americano. Em poucos dias, recebemos 14 requerimentos de autorizações para novas ferrovias com quase US$ 15 bilhões de investimentos privados.

Em nosso governo promovemos o ressurgimento do modal ferroviário. Como reflexo, menor consumo de combustíveis fósseis e redução do custo Brasil, em especial no barateamento da produção de alimentos. 

Grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico. O maior leilão da história no setor foi realizado em abril, com concessão ao setor privado dos serviços de distribuição de água e esgoto no Rio de Janeiro. Temos tudo o que investidor procura: um grande mercado consumidor, excelentes ativos, tradição de respeito a contratos e confiança no nosso governo. 

Também anuncio que, nos próximos dias, realizaremos o leilão para implementação da tecnologia 5G no Brasil.

Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional.

Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa. Nosso Código Florestal deve servir de exemplo para outros países. O Brasil é um país com dimensões continentais, com grandes desafios ambientais

São 8,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 66% são de vegetação nativa, a mesma desde o seu descobrimento, em 1500.

Somente no bioma amazônico, 84% da floresta está intacta, abrigando a maior biodiversidade do planeta. Lembro que a região amazônica equivale à área de toda a Europa Ocidental.

Antecipamos, de 2060 para 2050, o objetivo de alcançar a neutralidade climática. Os recursos humanos e financeiros, destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais, foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal. E os resultados desta importante ação já começaram a aparecer! 

Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior. Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa? Os senhores estão convidados a visitar a nossa Amazônia!

O Brasil já é um exemplo na geração de energia com 83% advinda de fontes renováveis.

Por ocasião da COP-26, buscaremos consenso sobre as regras do mercado de crédito de carbono global. Esperamos que os países industrializados cumpram efetivamente seus compromissos com o financiamento de clima em volumes relevantes.

O futuro do emprego verde está no Brasil: energia renovável, agricultura sustentável, indústria de baixa emissão, saneamento básico, tratamento de resíduos e turismo.

Ratificamos a Convenção Interamericana contra o Racismo e Formas Correlatas de Intolerância. Temos a família tradicional como fundamento da civilização. E a liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e de expressão.

14% do território nacional, ou seja, mais de 110 milhões de hectares, uma área equivalente a Alemanha e França juntas, é destinada às reservas indígenas. Nessas regiões, 600 mil índios vivem em liberdade e cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades

O Brasil sempre participou em Missões de Paz da ONU. De Suez até o Congo, passando pelo Haiti e Líbano.

Nosso país sempre acolheu refugiados. Em nossa fronteira com a vizinha Venezuela, a Operação Acolhida, do Governo Federal, já recebeu 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana. 

O futuro do Afeganistão também nos causa profunda apreensão. Concederemos visto humanitário para cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos.

Nesses 20 anos dos atentados contra os Estados Unidos da América, em 11 de setembro de 2001, reitero nosso repúdio ao terrorismo em todas suas formas. 

Em 2022, voltaremos a ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Agradeço aos 181 países, em um universo de 190, que confiaram no Brasil. Reflexo de uma política externa séria e responsável promovida pelo nosso Ministério de Relações Exteriores. Apoiamos uma Reforma do Conselho de Segurança ONU, onde buscamos um assento permanente.

A pandemia pegou a todos de surpresa em 2020. Lamentamos todas as mortes ocorridas no Brasil e no mundo. 

Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, em especial, nos gêneros alimentícios no mundo todo. 

No Brasil, para atender aqueles mais humildes, obrigados a ficar em casa por decisão de governadores e prefeitos e que perderam sua renda, concedemos um auxílio emergencial de US$ 800 para 68 milhões de pessoas em 2020.

Lembro que terminamos 2020, ano da pandemia, com mais empregos formais do que em dezembro de 2019, graças às ações do nosso governo com programas de manutenção de emprego e renda que nos custaram cerca de US$ 40 bilhões. 

Somente nos primeiros 7 meses desse ano, criamos aproximadamente 1 milhão e 800 mil novos empregos. Lembro ainda que o nosso crescimento para 2021 está estimado em 5%.

Até o momento, o Governo Federal distribuiu mais de 260 milhões de doses de vacinas e mais de 140 milhões de brasileiros já receberam, pelo menos, a primeira dose, o que representa quase 90% da população adulta. 80% da população indígena também já foi totalmente vacinada. Até novembro, todos que escolheram ser vacinados no Brasil, serão atendidos.

Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina

Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso off-label.

Não entendemos porque muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos. 

No último 7 de setembro, data de nossa Independência, milhões de brasileiros, de forma pacífica e patriótica, foram às ruas, na maior manifestação de nossa história, mostrar que não abrem mão da democracia, das liberdades individuais e de apoio ao nosso governo.

Como demonstrado, o Brasil vive novos tempos. Na economia, temos um dos melhores desempenhos entre os emergentes. Meu governo recuperou a credibilidade externa e, hoje, se apresenta como um dos melhores destinos para investimentos.

É aqui, nesta Assembleia Geral, que, vislumbramos um mundo de mais liberdade, democracia, prosperidade e paz. Deus abençoe a todos.

Abaixo, o discurso em vídeo, pra quem tiver mis estômago:

Foto: Reprodução

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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