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Biólogos alertam sobre impacto da presença de peixes transgênicos e exóticos em riachos brasileiros

Biólogos alertam sobre impacto do descarte de peixes transgênicos e exóticos em riachos brasileiros

O comércio de peixes ornamentais é um mercado que movimenta milhares de dólares no Brasil e no mundo, porém, essa atividade também é uma das principais fontes de introdução de espécies exóticas. Só no Brasil, mais de 70 espécies de peixes ornamentais não-nativos já foram identificadas no ambiente natural, incluindo recentemente o peixe conhecido como paulistinha ou peixe-zebra (Danio rerio), nativo do sul da Ásia. Além de ser um peixe bastante comum nos aquários domésticos, essa espécie é muito utilizada como modelo experimental em pesquisas na área da saúde e etologia (comportamento animal).

Por ser uma espécie bastante estudada, na década de 90 alguns pesquisadores asiáticos criaram uma versão geneticamente modificada deste peixe, adicionando a ele genes de proteínas fluorescentes de água-viva e anêmona. Foi aí que surgiu uma nova variedade de paulistinha, que pode ser verde, vermelho, laranja, azul ou roxo fluorescente, e a variedade americana comercializada como GloFish®.

Peixes transgênicos estão disponíveis no mercado brasileiro pelo menos desde 2012, porém em 2017 o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tornou a sua comercialização ilegal por tratar-se de uma espécie não-nativa e geneticamente modificada.

O que preocupa os pesquisadores é que desde 2015 essa espécie pode ser encontrada em riachos de Mata Atlântica localizados nas proximidades de pisciculturas ornamentais, fruto dos escapes que ocorrem nesses sistemas de cultivo. Isso é bastante sério pois, além de se tratar de uma espécie não-nativa, ela também é transgênica e pode causar algum tipo de impacto ecológico para as espécies nativas.

Em um estudo recente de pós-doutorado realizado pelo pesquisador André Magalhães, da Universidade Federal de São João del Rei em Minas Gerais e publicado na revista Studies on Neotropical Fauna and Environment, descobriu-se que os paulistinhas transgênicos encontrados em riachos no lado mineiro da bacia do rio Paraíba do Sul possuem uma dieta que consiste basicamente de insetos aquáticos nativos como larvas de libélulas, percevejos aquáticos, baratas d’água, zooplâncton e algas. Além disso, eles são capazes de se reproduzir o ano todo, atingindo a maturidade sexual mais cedo do que o normal. Isso mostra que a espécie parece se adaptar facilmente às condições naturais e tem uma estratégia oportunista.

De acordo com Magalhães, essa grande capacidade de adaptação, aliada ao fato de que nos riachos onde estão introduzidos praticamente não possuem nenhum predador nativo, faz com que este transgênico possa passar para as próximas fases da invasão biológica que são: estabelecimento, disseminação e impactos ecológicos.

Assim como qualquer outra espécie invasora, o paulistinha transgênico pode representar uma séria ameaça especialmente para os invertebrados aquáticos nativos de riachos de cabeceira da bacia do rio Paraíba do Sul, podendo levar à extinção de espécies através da predação. A perda de espécies devido à influência de peixes invasores pode ser devastadora em sistemas com poucas espécies como riachos, onde a ausência de uma única espécie nativa pode representar a eliminação de um importante componente da cadeia alimentar, comprometendo assim o funcionamento de todo o ecossistema.   

Mais do que adotar práticas de aquicultura sustentável para evitar que esses peixes cheguem à natureza, deve-se priorizar a educação ambiental com esclarecimentos sobre os temas “espécies não-nativas” e “animais transgênicos” para os trabalhadores da indústria do aquarismo no Brasil, além de priorizar o cultivo de espécies ornamentais nativas e banir completamente o uso de peixes geneticamente modificados, que no futuro podem seguramente trazer mais prejuízos do que benefícios.

*Texto elaborado em parceria com Larissa Faria, estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná, e André Lincoln Barroso Magalhães, pesquisador independente

Foto: Marcin/Creative Commons/Flickr

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Hélder De Moraes Ramos
Hélder De Moraes Ramos
4 meses atrás

O que não dá pra entender nas atitudes proibitivas do IBAMA é que são nos peixes ornamentais nativos que eles põem mais óbices para criadouros, chegando a tornar inviáveis a sua criação. Exemplo, nosso cavalo-marinho.

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