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Bezerros das búfalas de Brotas nascem livres de abusos e ganham microchips, em vez de ‘brincos’ de identificação

Quando um animal nasce em uma fazenda de produção de carne, leite e derivados é marcado por dois brincos de plástico nas orelhas. Já reparou? Neles são indicadas informações que interessam ao negócio: se é macho (M) ou fêmea (F), o número de registro e a data de nascimento

“Essa data é a única informação sobre as búfalas que nos interessa manter!”, exclama Alex Parente, presidente da ONG ARA, se referindo às mais de mil búfalas da Fazenda Água Sumida, em Brotas, que ele ajudou a resgatar. 

“Esses brincos são colocados nas orelhas do animal com um furo que é feito de qualquer jeito, sem nenhuma higiene e, às vezes, até afetam o nervo e deixam as orelhas ‘quebradas’. São a prova de que esses animais são produtos, nada mais”, explica.

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Foto: reprodução de vídeo no Instagram

Foi Alex quem descobriu, há cerca de quatro meses, as búfalas em estado de inanição, sem água e sem comida – algumas delas, grávidas -, e denunciou à polícia de Brotas. Um tempo depois, conquistou a tutela dos animais, é o responsável legal por elas

Naquela época, à medida que ele e os voluntários exploravam o espaço da fazenda, encontravam mais búfalas, algumas mortas. Um dia, se depararam com uma das cenas que estão entre as mais emocionantes dessa história: mais de 700 brincos usados por os animais que passaram pela fazenda e já estavam mortos. A foto abaixo registra essa descoberta.

Brincos encontrados na fazenda, quando as búfalas foram descobertas / Foto: reprodução do Instagram

Todos os brincos foram entregues ao delegado da cidade para serem incluídos no processo contra o fazendeiro Luiz Augusto Pinheiro de Sousa, que está preso (contamos aqui).

“Os brincos incomodam os animais, claro, e não víamos a hora de tirá-los. Mas não podíamos fazer isso antes de resolver as prioridades e ainda precisávamos encontrar a melhor alternativa para resguardar a data de nascimento de cada animal, indicada por esses pedaços de plástico”, conta Alex. 

Nasceu, chipou!

A cada dia, veterinários, cuidadores e voluntários foram se afeiçoavam mais aos animais começaram a batizá-los, o que tornou ainda mais fácil a identificação no local e mais carinhosa para o público, nas redes sociais.

Quem acompanha o perfil no Instagram conhece muitos deles, e certamente se lembra também daqueles que não resistiram às sequelas dos maus-tratos e morreram, como a idosa Carequinha (como contamos aqui), que se tornou símbolo deste caso, ou o pequeno Tupi, que foi resgatado sozinho no pasto nas primeiras semanas dos voluntários na fazenda.

Ele estava muito debilitado e logo foi adotado pela búfala Iracema, uma das mais velhas da fazenda, ganhando um irmãozinho, o Guarani”. Uma noite, fraturou uma das patas, foi operado, mas não resistiu. Foi uma tristeza só. Alex e o veterinário-chefe Maurice deram a notícia consternados na noite de 22 de fevereiro, véspera do lançamento do filme Órfãos do Leite, produzido pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), que tinha Tupi como símbolo (contamos aqui sobre o filme).

No início deste ano, começaram a nascer os primeiros bezerros livres – “são cerca de 50”, arrisca Alex -, filhotes das búfalas inseminadas a mando do fazendeiro, mesmo em estado de inanição. Uma crueldade que tornou incerto o destino de seus bebês. 

Petit (a primeira a nascer livre) e Serena também se foram, depois de uns dias internadas no hospital de campanha instalado na fazenda.

Alex explica que, normalmente, os filhotes nascem com cerca de 40 quilos, mas a maioria dos filhotes gerados por essas mães tão maltratadas, tem nascidos com 15 quilos e é difícil sobreviverem.

Outros, como Obelix (abaixo) têm a sorte de nascerem mais saudáveis, mas como sua mamãe não tem como alimentá-lo, essa tarefa cabe aos cuidadores, como se pode ver em post publicado no domingo passado no Instagram

Obelix veio ao mundo com aproximadamente 40 quilos, mas sua mamãe não tem leite devido aos abusos que sofreu, mas os cuidadores garantem que ele seja bem nutrido / Foto: reprodução de vídeo no Instagram.

Que maravilha! Os novos filhotes nascem abençoados pela liberdade e sem brincos e ainda estão sendo contemplados com o sistema escolhido pela equipe ARA como o mais eficiente e seguro para identificar todas as búfalas e os bezerros de Brotas: a microchipagem.

“O microchip tem o tamanho de um grão de arroz e seu implante, sob a pele do animal, é indolor. Não gera incômodo e não causa reação”, destaca Alex. “Além do nome e da data de nascimento, armazena os dados da mãe, de vacinação, vermifugação e intervenções, e é facilmente atualizado”.

“Então, assim que nasce, o filhote passa pela ‘cura do umbigo’ com a equipe de veterinários e já é chipado”, conta Alex, animado. “O microchip também ajuda a evitar o furto dos animais”.  

Como apadrinhar uma búfala ou bezerro

Segundo Alex, o custo mensal da operação das Búfalas de Brotas é de cerca de R$ 150 mil. Sua gestão exige expertise e jogo de cintura porque “as doações diárias, que agradecemos muito, não cobrem tudo: alimentação, medicamentos, funcionários dedicados – não temos só voluntários”. 

A salvação é “uma reserva que vem do começo da operação das búfalas, que ainda estamos administrando”. 

O rebanho não vai crescer além dos bezerros já previstos porque os machos serão todos castrados e não há intenção de reprodução, mas Alex lembra que “os bezerros que estão nascendo hoje vão viver 20, 30 anos! E precisamos de recursos para a vida toda deles”.

Otimista, ele espera que a Justiça condene o fazendeiro a ressarcir todos os custos de manutenção, incluindo as melhorias que têm sido realizadas na estrutura da fazenda como a construção de piquetes, cercas, entre outros. Mas enquanto isso não acontece, Alex conta que a equipe da ARA está buscando outros meios para garantir a continuidade desse trabalho.

Entre eles, está o registro do nome Búfalas de Brotas, que acaba de ser feito e vai possibilitar sua utilização na produção de camisetas, souvenirs, chaveiros, bonés, entre outros produtos – “até leite… vegetal, claro!” -, para gerar receita.

”Só falta fazer a alteração do estatuto da ONG para que possamos emitir nota fiscal”. 

A implantação dos chips demorou um pouquinho, não só porque era preciso garantir recursos, como também finalizar a campanha de apadrinhamento que a ONG está lançando e vai garantir uma renda mensal, que se somará às demais fontes. 

Funciona assim: qualquer pessoa pode se tornar madrinha ou padrinho de uma búfala ou bezerro – ela escolhe o animal já que todos estão sendo batizados – ao contribuir com 50 reais mensalmente, durante um ano. 

Esse valor não paga um saco de 40 quilos de ração, que custa 81 reais, mas já ajuda um bocado. “Se os mil búfalas e bezerros foram apadrinhados, já pensou? São 50 mil reais!”, destaca Alex, que ainda acrescenta:

Para marcar a adesão, o padrinho ou madrinha recebe os brincos retirados de seu afilhado – exceto dos filhotes nascidos este ano, que não têm brincos -, acompanhados por um cartão (imagem ao lado).

“Quem não pode dispor desse valor todo mês, pode se juntar a três amigos, por exemplo, e participar da campanha”. Caso seja impossível aderir, ainda tem uma outra forma de contribuir: compartilhando a iniciativa nas redes sociais. “Dessa forma, se a pessoa não pode apadrinhar, pode ajudar a encontrar um padrinho ou madrinha”, explica o presidente da ONG ARA. “Quem quer, faz”. 
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Foto: a filhote Bela, em foto reproduzida do perfil Búfalas de Brotas no Instagram

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