Beka Saw Munduruku, é uma jovem líder indígena de 21 anos da remota aldeia Sawre Muybu, localizada no Pará, na Amazônia, que faz parte da comunidade de 13 mil pessoas que vivem em três estados do norte do país.
“Somos conhecidos como Formigas Vermelhas pela nossa resistência determinada e proteção do nosso território”, contou ela ao jornal britânico The Guardian.
Destemida em sua luta pela proteção e pelo respeito aos povos indígenas e seus territórios, já foi chamada de Greta Thunberg da Amazônia. Mas a comparação com a ativista sueca é desnecessária para revelar sua força.
Beka desponta como porta-voz dos Munduruku, ao lado de outra liderança feminina de seu povo: Alessandra Korap Munduruku que, no ano passado, recebeu o prêmio ambiental Goldman (como contamos aqui) devido a seus esforços para impedir que mineradora britânica invadisse as terras de seu povo.
Beka e Alessandra fazem parte de importante geração de mulheres líderes amazônicas e estão desenhando um novo cenário de luta pela vida e pelas florestas.
Uma das maiores batalhas de Beka tem sido travada com a família Cargill-MacMillan, a quarta mais rica dos EUA com um patrimônio líquido estimado em US$ 47 bilhões, que reúne 12 bilionários (mais do que qualquer outra família no mundo) e é proprietária do império agrícola Cargill – a maior empresa do agronegócio do mundo (cereais e carne) e a maior empresa privada da América.
Com um currículo dessa magnitude, não é de estranhar que, além de destruir florestas e terras indígenas, a família viole direitos humanos.
Em 2014, a empresa reconheceu sua responsabilidade ambiental e prometeu acabar com a parte que lhe cabia na devastação das florestas pelo setor agrícola. Prometeu tornar-se “livre do desmatamento” na Amazônia e no Cerrado até 2025 e erradicar o desmatamento da cadeia de fornecedores até 2030. Para tanto, declarou que havia implementado sofisticada operação de monitoramento em portos, armazéns e outros pontos de sua cadeia de suprimentos.
Mas tem agido de forma contrária às promessas que fez, ampliando as atividades predatórias do grupo, que representam grande ameaça aos povos indígenas e ao clima global.
Só promessas
Por diversas vezes, Beka tentou marcar encontro presencial com os donos da Cargill-MacMillan, mas nunca recebeu resposta. Com o apoio da Stand Earth (organização ambiental sem fins lucrativos com mais de um milhão de membros em todo o mundo) viajou mais de 6.400 quilômetros até Wayzata, em Mineápolis, nos Estados Unidos, para encarar a família por detrás da Cargill, confrontando-a sobre sua “ladainha de promessas quebradas”.
Sua intenção também era entregar aos proprietários da Cargill ou representantes uma carta aberta (leia a íntegra no final deste post) que redigiu e assina em nome dos Munduruku.
“Seus executivos nos dizem que a Cargill é uma boa empresa, que se comprometeram a acabar com a destruição da natureza. Mas esta não é a nossa experiência. Em todas as regiões onde a Cargill opera, está destruindo o meio ambiente e expulsando ou ameaçando as comunidades que ali vivem”, escreveu.
“Apesar dos seus muitos compromissos para acabar com o desmatamento, a destruição aumentou. Vivemos aqui no coração da Amazônia há mais de 4 mil anos. Mas agora nosso mundo está por um fio”.
E acrescentou: “Vocês devem cessar a destruição de nossas florestas. Vocês devem parar de expandir em nosso território. Vocês devem parar de vender mercadorias de terras roubadas dos povos indígenas. Vocês devem impedir o assassinato dos defensores destas terras”.
Para chamar a atenção da família e da opinião pública, a carta foi publicada em 12 de outubro nas edições impressas do New York Timese a Minneapolis Star Tribune, em anúncio de página inteira.
“A empresa nunca mudou. Acredito que é importante que os jovens levem uma mensagem para a família Cargill. Queremos que o nosso povo seja ouvido e consultado”, destacou ela ao The Guardian, antes de visitar a família.
“Queremos que eles olhem para nós, nos respeitem e ouçam nosso chamado. Não basta só enviar cartas, é preciso aparecer e estar presente para ser ouvido. Isso é pessoal”.
No mesmo dia, Beka se dirigiu aos escritórios da gigante do agronegócio em Wayzata, para entregar a carta pessoalmente, mas foi barrada por seguranças já no estacionamento.
Campanha ‘Cargill: a Burning Legacy’
A visita da jovem líder indígena aos EUA faz parte da campanha ‘Cargill: A Burning Legacy’(Um Legado Ardente, em tradução livre), promovida pela Stand.Earth com o intuito de pressionar o clã Cargill-MacMillan a assumir a responsabilidade pelos danos provocados por sua empresa.
“A família Cargill-Macmillan demonstrou que não está preocupada com os impactos das ações da empresa sobre as pessoas por ela vitimadas. E eles rejeitam todas as tentativas de chamar sua atenção para isso”, declarou Mathew Jacobson, diretor de campanha da Stand.Earth.
“Sabíamos que a empresa não se importava, mas esperávamos mais dos proprietários. Já é hora de a família intervir. Esperamos que ela escolha ser lembrada como alguém que tornou o mundo um lugar melhor, e não pior”, completou ele.
Ferrogrão: “um pacote de morte e destruição”
Como se não bastassem todas as ameaças protagonizadas pela Cargill, ainda há uma outra grande ameaça ao povo Munduruku, apoiada pela empresa, que passa por um impasse: uma ferrovia de 620 milhas conhecida como Ferrogrão.
Ela foi idealizada para transportar soja cultivada no Cerrado, ou seja, em um ecossistema crítico de savana ao sul da Amazônia, onde comunidades já enfrentam conflitos devido à apropriação de terras por parte de fazendeiros, além da contaminação de cursos de água e de peixes por agrotóxicos.
Ao ligar o município de Sinop, no Mato Grosso, ao Porto de Miritituba, no Pará, para o escoamento de grãos, a ferrovia impactaria territórios indígenas, colocando em risco três povos isolados.
Além de impulsionar o desmatamento e violar direitos humanos, a Ferrogrão também seria responsável pela emissão de dezenas de milhões de toneladas de carbono na atmosfera.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a Ferrogrão, mas, em setembro, suspendeu por seis meses o processo que questiona a constitucionalidade da construção da ferrovia, “a fim de que se concluam os estudos e as atualizações sugeridos”.
Em outra ocasião, a Cargill se pronunciou sobre a questão, dizendo que o Brasil precisa continuar investindo em infraestrutura de commodities e que qualquer pessoa que se oponha à Ferrogrão é “irresponsável”.
Em sua carta, Beka expõe as consequências devastadoras da ferrovia para os proprietários da empresa:
“No ano passado, as florestas e savanas do Cerrado foram destruídas a uma taxa de 3.200 hectares por dia, uma área do tamanho da sua cidade natal, Minneapolis, a cada cinco dias. Esta ferrovia destruirá 2 mil km2 de florestas amazônicas em que vivemos, abrirá nossas terras para mais grileiros, garimpeiros e madeireiros ilegais que já invadem e queimam nossas terras e assassinam nosso povo”.
Diante de tanto poder da Cargill, parece ingenuidade lutar contra ela, mas, desde pequena, Beka aprendeu a lutar junto com o pai, que era cacique. Aos 12 anos, o acompanhou em campanha para impedir a construção de uma barragem hidroelétrica que ameaçava inundar sua aldeia e outras terras indígenas.
“As pessoas aqui [nos EUA], que querem proteger a Amazônia, precisam olhar além da floresta e ver seus povos. O desmatamento está ligado ao sangue dos povos indígenas que é derramado na defesa das terras que o preocupam. As pessoas aqui comem confortavelmente, enquanto não podemos comer os nossos alimentos tradicionais por causa destes produtos. Considero isso um grande desrespeito ao nosso povo”, declarou ao The Guardian.
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Com informações do The Guardian, da Stand.Earth, da Amazon Watch
Foto: Stand.Earth/divulgação






