Bancada do Cocar: indígenas se preparam para ‘aldear a política’ e ocupar espaços de poder nas eleições

Em 2018, Joenia Wapichana foi eleita deputada federal, a primeira indígena a ocupar um assento na Câmara dos Deputados. E tem realizado um trabalho exaustivo, de muita luta contra retrocessos visto que, nesse ano, para fazer jus a Bolsonaro, muitos brasileiros elegeram a bancada parlamentar mais conservadora da história (democrática) do Brasil. 

Foi em 2018 também que Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, se lançou como candidata à vice-presidência na chapa de Guilherme Boulos pelo PSoL Não tinha a menor chance de chegar lá, mas seu objetivo era ganhar visibilidade. E conseguiu. Há cerca de duas semanas, anunciou sua pré-candidatura a uma vaga de deputada federal. 

Com este governo, os indígenas tiveram que gritar mais alto, se fazer mais presentes, frequentar e ocupar Brasília como nunca, reivindicar audiências e reuniões com ministros e parlamentares para pedir o óbvio: justiça e respeito. Se fortaleceram.

Foi assim que boa parte dos brasileiros urbanos notaram que indígenas navegam na internet, participam de redes sociais, têm celular e aprenderam a fazer suas reivindicações também pelas telas. 

E foi a partir dessa trajetória que os povos originários compreenderam que precisam se organizar para estar presentes na vida política do país, representados nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional, ampliando sua capacidade de luta e de mobilização e barrar projetos que só visam a ocupação e destruição de seus territórios.

Candidaturas, alianças e título de eleitor

No Acampamento Terra Livre – encontro organizado pela APIB há 18 anos -, deixaram muito claras suas intenções. Além da demarcação de todos os territórios indígenas, eles querem ‘aldear a política’

Para tanto, lançaram a Bancada do Cocar, em plenária exclusivamente feminina, e receberam, em diferentes momentos, o candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e a ex-senadora e ex-ministra do meio ambiente, Marina Silva.

Na abertura do primeiro encontro, Sonia Guajajara declarou: 

“Essa força das mulheres indígenas vem de várias partes do Brasil. Nós estamos aqui, hoje, enfrentando mais um desafio. Agora estamos dando um passo à frente: queremos ocupar a política institucional. Estamos aqui pra dizer que nós nunca mais vamos aceitar um Brasil sem nós”.

E acrescentou: “E a gente não vai enfrentar mais este desafio porque é fácil. A gente aceitou enfrentar mais este desafio porque nós cansamos de ver nossas crianças sendo sugadas pelas dragas do garimpo ilegal. Nós cansamos de ver nossas crianças sendo contaminadas pelo mercúrio das mineradoras. Pela lama que não vale a vida de ninguém. Nós aceitamos esse desafio porque nós não queremos mais ver as nossas florestas sangrarem”.

“Esta bancada que se apresenta aqui, hoje, é Bancada do Cocar, para substituir a bancada ruralista, a bancada da bala. Nós queremos que o Congresso Nacional tenha a cara do Brasil e para ter a cara do Brasil tem que ter mais mulheres indígenas”.

O compromisso do acampamento com a política também se traduziu por uma tenda montada para orientar os indígenas em relação ao cadastro do título eleitoral. Quem ainda não tinha o seu, saiu dali com mais um documento importante. Vale destacar que este encontro reuniu 7 mil indígenas de 200 povos de todas as regiões do país. 

Viabilidade X quantidade 

Ao contrário do que aconteceu em 2018, quando cerca de 130 indígenas disputaram as eleições por conta própria, este ano apenas 30 indígenas devem se candidatar a vagas na Câmara dos Deputados – entre eles, Sonia Guajajara – e assembleias estaduais. 

A estratégia este ano, é identificar menos candidatos, que sejam mais competitivos, que serão preparados por meio de cursos de formação politica e poderão contar com o auxilio de equipes jurídicas e de comunicação.

Além disso, os candidatos escolhidos serão apoiados por campanhas de divulgação mantidas com recursos que ainda serão captados. E deverão superar rixas antigas, iniciadas por ancestrais e mantidas até hoje em algumas tribos. Só unidos será possível avançar. 

Neste quesito, a deputada federal Joenia Wapichana, de Roraima, é um bom exemplo. Para se candidatar em 2018, ela contou com o apoio de comunidades distintas – algumas rivais. Um fato inédito naquele estado, que tem mais de oito povos – Macuxi, Sapara, Taurepang, Xirixana, Yanomami, Ye’kuana, Wai Wai e Wapichana – , cada um com sua cultura e sua língua. 

Eles se uniram e se apoiaram para eleger Joenia. E conseguiram. Prova de que é o melhor caminho a seguir. E, este ano, ela tentará a reeleição. Em entrevista ao Globo, a deputada levantou uma questão importante: 

“Os indígenas precisam ser apresentados à sociedade como candidatos que também representam os não-indígenas. É preciso transcender a pauta para direitos humanos, combate à corrupção, mudanças climáticas etc”.

E Sonia complementa, taxativa: “Só o voto indígena não elege ninguém”. Para se eleger, por exemplo, ela precisa de 40 mil votos! Por isso, enfatiza que “a luta por demarcação de terras representa a luta pela preservação das florestas e do equilíbrio climático”, que está na pauta de diversos parlamentos pelo mundo.

Os nomes dos candidatos serão escolhidos por associações indígenas, em especial a APIB e o Parlaíndio, este liderado pelos caciques Raoni (Kayapó) e Almir Suruí (Paiter Suruí). E isso acontecerá, a priori, a partir de um site que reunirá cadastros de indígenas interessados em disputar as eleições este ano.

Já há alguns pré-candidatos declarados, aliados a diferentes partidos, como PT, PSoL e Rede, que apoiam a causa indígena, e Republicanos, conservador e ligado à Igreja Universal.

Por fim, em reunião com Edson Fachin, presidente do TSE – Tribunal Superior Eleitoral, Joenia buscou apoio para garantir que todas as comunidades indígenas afastadas recebam urnas e informações para participar do pleito deste ano. 

Ela contou ao Globo que, no ano passado, um grupo do TSE garantiu medidas e assegurou os votos da população negra. “E eu perguntei para o ministro: ‘por que não teve um para os indígenas também?’”. Fachin se comprometeu a cria-lo.

Juruna não é mais inspiração

O cacique xavante Mário Juruna foi eleito em 1983 com 31 mil votos pelo PDT do Rio de Janeiro, com o apoio de figuras emblemáticas do partido, como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola e terminou seu mandato em 1987. Nesse período, viveu embates acalorados e ataques da mídia e outros políticos, que tentavam desmoralizá-lo. E abriu caminhos.

tornou-se o primeiro deputado indígena do Brasil. Isso — Visibilidade importa, mas eu não quero só chegar de cocar para mostrar que os partidos são diversos. Quero um apoio que se concretize no objetivo, que é estar lá e fazer leis — disse a codeputada Chirley Pankará (PSOL-SP), que tentará uma vaga na Alesp.

Famoso na Câmara, o primeiro deputado indígena do Brasil, o cacique Mário Juruna, se celebrizou pelo discurso antipolítica e quase foi cassado por chamar os ministros de “ladrões e sem-vergonha”.

A impressão que os pré-candidatos indígenas querem passar agora é justamente a contrária: não serem mais vistos como “personagens folclóricos”, mas como a nova cara do Congresso brasileiro.

Foto: Mídia Ninja

Fontes: APIB, Observatório da Mineração, Mídia Niinja, O Globo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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