Aves estão ficando menores e com asas mais longas para se adaptar à mudança climática

Aves estão ficando menores e com asas mais longas para se adaptar à mudança climática

Os animais já mostram os primeiros sinais de que as alterações climáticas do planeta estão os obrigando a mudar, fisicamente, para poder sobreviver a temperaturas mais quentes e um clima instável. Um monitoramento realizado por pesquisadores americanos, ao longo dos últimos 40 anos, revelou que aves migratórias da América do Norte estão encolhendo por causa do aquecimento global.

A descoberta foi descrita recentemente, em artigo científico, divulgado na publicação Ecology Letters (leia aqui, em inglês).

Todos os dias, na primavera e no outono, desde 1978, cientistas do Field Museum de Chicago, nos Estados Unidos, acordavam por volta das 3h30 da manhã para coletar pássaros caídos, que colidiram contra as janelas de edifícios.

Com os animais em mão, Dave Willard mediu cada um deles. Ao fazer a análise desses dados das últimas quatro décadas, ele chegou à conclusão de que as aves migratórias foram ficando menores – uma mudança provavelmente relacionada à crise climática.

“Quando começamos a coletar os dados analisados neste estudo, estávamos abordando algumas perguntas simples sobre a variação ano a ano e de estação a estação das aves. A frase ‘mudança climática’, como um fenômeno moderno, mal estava no horizonte. Os resultados deste estudo destacam como os conjuntos de dados de longo prazo são essenciais para identificar e analisar tendências causadas por alterações em nosso ambiente ”, diz Willard.

Junto a voluntários da organização Chicago Bird Collision Monitors, o pesquisador recolheu mais de 1 mil pássaros que colidiram contra as fachadas de prédios do centro da cidade. E foi por acaso que Willard começou a notar diferenças mínimas no tamanho das aves. “Era uma questão de milímetros, décimos de milímetros – não era algo que você tivesse certeza que estava acontecendo até a análise completa tivesse sido feita”, explica.

Aves estão ficando menores e com asas mais longas para se adaptar à mudança climática

David Willard, ao lado dos milhares de pássaros coletados

A equipe analisou as medidas de 70 mil espécimes de aves, de 52 espécies. Entre 1978 e 2016, a investigação revelou que houve redução de suas massas corporais e do tamanho geral de seus corpos, além da diminuição do comprimento dos ossos da perna, de em média, 2,4%. Por outro lado, a envergadura das asas aumentou 1,3%.

“Tínhamos boas razões para suspeitar que o aumento da temperatura levasse a reduções no tamanho do corpo, com base em estudos anteriores. O que nos chocou foi a continuidade da mudança. Fiquei muito surpreso que todas essas espécies estejam respondendo de maneira semelhante ”, afirmou, Brian Weeks, professor assistente da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan e principal autor do estudo publicado na Ecology Letter.

Aves estão ficando menores e com asas mais longas para se adaptar à mudança climática

Envergadura das asas dos pássadros aumentou, em média, 1,3%

Os cientistas destacam que aves migratórias, que percorrem longas distâncias, são um dos feitos mais impressionantes do reino animal. A demanda energética extrema de voar milhares de quilômetros moldou a morfologia das mesmas – sua forma e estrutura – para um voo eficiente.

Agora, elas passam por uma evolução natural para poder enfrentar as mudanças provocadas pelo ser humano no clima do planeta.

*Com informações e tradução de textos do Field Museum de Chicago e da Universidade de Michigan

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Fotos: Tom Lee/Creative Commons/Flickr (abertura) e divulgação Field Museum/Karen Beans e Kate Golembiewski

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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