Áustria elege presidente ambientalista de esquerda e Filipinas, primeira deputada transgênero

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Enquanto no Brasil, em apenas duas semanas, retrocedemos barbaramente em direitos (para dizer o mínimo) com o governo de Michel Temer, em algumas partes do planeta há países que acenam com mudanças por mais justiça social e ambiental e nos fazem acreditar que é possível ter esperança, como a Áustria e as Filipinas, neste mês de maio.

No primeiro país, acaba de ser eleito o primeiro presidente ambientalista – o termo compreende muito mais do que questões ligadas ao meio ambiente, mas também sociais –, não só do país, mas de toda a Europa Ocidental: Alexandre Van der Bellen, um austero professor aposentado de economia, de 70 anos. Com mais um detalhe: ele é de esquerda e derrotou o candidato de extrema direita com folga.

Nas Filipinas, o povo elegeu a primeira deputada transgênero para o Congresso das Filipinas. Geraldine Roman, de 49 anos, também é formada em jornalismo e foi escolhida pelo povo e que representa a província agrícola de Bataan, a noroeste de Manila. Esse fato não é só importante porque coloca temas relacionados à homossexualidade, bi e transexualidade e afins na pauta política do país como também chama a atenção do mundo e ajuda a questionar retrocessos.

Pelos direitos dos refugiados

Alexander é visto pelos conservadores como “muito de esquerda” e pelo ambientalistas radicais como pouco militante. Impossível agradar a todos, mas o fato é que sua forma de atuar, muito particular, agradou os eleitores. E é uma ótima inspiração para estes tempos tão sombrios na política brasileira.

Conhecido pelos colegas de partido como Sasha – referência à sua origem russa -, de 1997 a 2008, Alexander transformou os Verdes na quarta maior força política do país. Mas, ao assumir a presidência da Áustria, desfiliou-se por acreditar que um bom governo deve estar acima da política partidária.

Defensor do casamento gay, ele defenda uma causa mais que nobre e que pode ter sido determinante nas eleições: faz questão de dizer que é imigrante (russo) e sempre defendeu, de forma veemente, os direitos dos refugiados. Sempre que tem oportunidade, lembra a todos de que ele também é “filho de refugiados”. Numa época como a atual, em que as migrações têm alterado o cotidiano dos europeus profundamente e provocado revoltas e muita confusão, este é um ponto que poderia colocar sua campanha a perder, mas talvez tenha sido justamente esta a razão para sua vitória.

Em seus discursos, fala sempre dos deveres sociais e da obrigação de integrar 90 mil refugiados recém-chegados ao país, posição que se opõe à retórica de seu adversário, Norbert Hofer, que chegou a afirmar para quem quisesse ouvir que “o Islã não tem lugar na Áustria”.

Contra a discriminação e a intolerância

A vitória de Geraldine nas urnas não é só de gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e transgêneros contra a intolerância, o ódio e a discriminação, mas de toda a humanidade. Por isso, ela está sendo saudada como uma fonte de esperança em um país predominantemente católico, onde a influência da Igreja é enorme, proibindo que se fale de divórcio, aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo. E o mais interessante: ela é católica e muito devota, como revela sua página no Facebook.

Ela não pretende confrontar a Igreja, mas apontar caminhos e defender direitos com muita justiça. A batalha vai ser dura já que outros políticos têm evitado esses temas com receio de perder o apoio da Igreja Católica e de outros grupos religiosos.

Geraldine não tem receio e está muito animada. Não é pra menos: ela agora representa o mais alto escalão político de tendência abertamente LGBT nas Filipinas. Sua vitória é triunfo do amor, da aceitação e do respeito.

E foi com base nesses sentimentos que percorreu sua trajetória até aqui: como homem, ela viveu com outra mulher por 20 anos. Trabalhou como editor sênior de uma agência de notícias espanhola até que ganhou uma bolsa para estudar na Espanha e conheceu seu parceiro, com quem vive há 18 anos. Passou por uma cirurgia de mudança de sexo e trocou o nome nos anos 90, lutando para que esse direito fosse reconhecido.

Em 2001, o país aprovou lei que permite que transexuais alterem seu nome e gênero. Agora, Geraldine promete campanha para pressionar por uma lei antidiscriminação que garanta igualdade de tratamento no local de trabalho, nas escolas, nos estabelecimentos comerciais e nas repartições do governo.

Claro que seu foco principal é gênero, mas a nova deputada disse que sua prioridade são os habitantes de Bataan, sua cidade, e garantir que alunos pobres recebam tenham direito a bolsas de estudo em todo o país. Para ela, igualdade abrange gênero, mas também condições socioeconômicas. E o que importa não é ser rico ou pobre, mas ser educado ou não, ter conhecimento ou não, por isso todos devem ter as mesmas oportunidades.

Tomara que, com ela, se iniciem novos tempos de muita compreensão e tolerância em seu país e que eles transbordem pelo mundo e inspirem outros governos para que comecemos a escrever uma nova história e um novo futuro para todos os seres humanos.

Alguma coisa está fora da ordem. Que bom!

Fotos: Reprodução/Facebook

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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