Austrália restaura nome aborígene original de uma de suas ilhas, que volta a se chamar K’Gari

A Ilha de Fraser é um importante destino turístico da Austrália. Localizada a 250 km ao norte de Brisbane, ela é considerada a maior ilha de areia do mundo. Com 122 km de extensão, está na lista dos Patrimônios Mundiais da Unesco. É o único lugar no planeta onde altas florestas tropicais crescem em dunas de areia em altitudes de mais de 200 metros. Esse paraíso natural abriga ainda metade dos lagos empoleirados do mundo (lagos formados quando as depressões nas dunas se enchem permanentemente com água da chuva). E agora, a Ilha de Fraser deixará de receber esse nome e passará a ser conhecida como K’Gari, como ela foi originalmente batizada pelos povos aborígenes, os primeiros a viverem ali.

A mudança de nome foi anunciada pelo governo australiano, que desde 1993, quando foi instituído o “Native Title Act”, começou a reconhecer o direito dos aborígenes como proprietários de suas terras originais.

K’Gari significa “paraíso” na língua dos Butchulla, primeiros habitantes da ilha e que já habitavam o local muito antes dos colonizadores europeus desembarcarem na Austrália.

“A mudança de nome reconhece e homenageia os povos Butchulla e suas tradições, sua cultura e sua conexão contínua com o país”, afirmou Meaghan Scanlon, ministra do Meio Ambiente e da Grande Barreira de Corais e da Ciência e Assuntos da Juventude, em um comunicado.

Outros lugares da Austrália também já tiveram seus nomes mudados nas últimas décadas, como por exemplo, Ayers Rock, que agora se chama Uluru, e Ilha de Moreton virou Gheebulum Kunungai National Park Mulgumpin.

Em janeiro, o governo australiano já tinha alterado uma frase no hino nacional para reparar a injustiça histórica com os aborígenes. A letra do hino de 1878 falava de uma nação “jovem e livre”, mas os povos originais já viviam no continente australiano há muitos séculos. Até hoje, essas populações ainda sofrem os impactos sociais e econômicos de anos de desprezo e discriminação.

De acordo com a organização não-governamental Australians Together, a taxa de suicídio entre os aborígenes australianos é duas vezes maior do que no resto da população, o índice de desemprego é cinco vezes mais alto entre os nativos e a expectativa de vida é dez vezes menor.

“Essas estatísticas são o resultado das injustiças persistentes da colonização – expropriação, deslocamento, exploração e violência. Este comportamento em relação aos indígenas foi justificado pelo sistema colonial britânico que não entendia, respeitava ou valorizava os aborígenes e que continua a ter um impacto sobre eles até hoje, apesar dos esforços de determinados povos indígenas para resistir e superar essa adversidade”, denuncia a Australians Together.

*Com informação da CNN International

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Foto: Antoine Beauvillain on Unsplash

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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