Ativistas invadem desfile de grife francesa e protestam contra o impacto da indústria da moda nas mudanças climáticas

Ativistas invadem desfile de grife francesa e protestam contra o impacto da indústria da moda nas mudanças climáticas

As temporadas de moda, em Paris – que acontecem duas vezes ao ano – foram suspensas no ano passado devido à pandemia, mas este ano voltaram a ser presenciais. E, na terça-feira, 5/10, último dia da Semana de Moda (também chamada de Semana de Prêt-à-Porter, que significa roupa pronta), ganhou protestos durante e depois de um dos desfiles mais aguardados: o da grife francesa Louis Vuitton, no Museu do Louvre.

Cerca de trinta ativistas das organizações Extinction Rebellion (XR), Youth For Climate e Amis de la Terre France (Amigos da Terra) invadiram o desfile da marca e fizeram performances na parte externa do museu para denunciar o impacto da indústria da moda nas mudanças climáticas e também protestar contra a inação do governo de Emmanuel Macron.

Alguns deles se infiltraram entre os convidados, em lugares estratégicos e, em dado momento, se misturaram aos modelos na passarela (junto ao público formado por artistas, jornalistas e formadores de opinião) exibindo faixas onde se lia ‘consumo excessivo é igual à extinção’.

Uma das militantes da Extinction Rebellion – movimento internacional de desobediência civil contra a mudança climática – chegou a fazer o percurso inteiro na passarela e foi fotografada, como qualquer modelo, pela bancada de fotógrafos. Ao voltar para fazer o trajeto de volta, foi impedida por um agente de segurança que precisou da ajuda de outros dois para retirá-la do recinto.

Veja a cena no post publicado no Instagram pela organização, que reproduzo no final deste post.

A manifestação atingiu boa parte do objetivo da organização já que causou tumulto entre os convidados, exceto nas atrizes Catherine Deneuve e Isabelle Huppert, que sentavam na primeira fileira da plateia e nem se mexeram.

Mais adiante, membros do clã de Bernard Arnault (dono do grupo LVMH, ao qual pertence a Louis Vuitton), considerado o homem mais rico do mundo, se entreolharam ao lado do presidente e diretor executivo.

Do lado de fora do museu, os ativistas realizaram seu próprio desfile para fazer suas denuncias de maneira mais contundente. Entre os cartazes exibidos pelos manifestantes, um deles dizia: LVMH – Macron: cúmplices da inação.

Segundo comunicado divulgado pelas ONGs, dois ativistas foram presos e liberados depois de mais de 13 horas de interrogatórios na delegacia.

Uma das indústrias mais poluidoras

A indústria da moda é uma das que mais poluem o meio ambiente, seja pela alta produção, pelo lixo que produzido com seu descarte (nem todo mundo sabe o que fazer com uma roupa desgastada demais, uma meia velha…), pela utilização de matérias-primas altamente poluentes como o algodão…

De acordo com a Extinction Rebelliona moda representa até 8,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, além disso, os artigos têxteis são responsáveis por 11% do consumo de agrotóxicos no mundo, causando cerca de 20% da poluição dos cursos de água.

e ainda se mantém pela constante atualização das tendências, descartando – de uma estação para outra – uma cor, uma forma, um estilo. Isso, sem falar na poluição provocada pelo descarte irresponsável de roupas e acessórios desgastados. Há uma corrida frenética pela novidade, que gera consumo excessivo e lixo.

É certo que existe um grande movimento por uma moda mais sustentável – como em todos os setores da economia -, como adotar algodão orgânico, promover a reciclagem de tecido… mas ainda é muito insuficiente diante de uma indústria tão gigante.

Assim, além da redução do impacto da moda, em geral, os ativistas denunciaram o governo de Emmanuel Macron por não obrigar a indústria da moda a respeitar o Acordo de Paris.

Para tanto, essa indústria deveria reduzir a produção – “em 2019, somente na França, comercializou 42 peças de vestuário por habitante” -, diminuir seu impacto ambiental de forma veemente e exigir o respeito aos direitos humanos nos países onde estão as oficinas de costura que os atendem.

Homenagem a estilista morto por covid-19

O último desfile realizado na Semana de Moda de Paris foi da grife Lanvin e fez uma homenagem ao estilista marroquino Alber Elbaz, que foi diretor artístico da marca de 2002 a 2015, quando se afastou para um período sabático.

Voltou à moda em janeiro deste ano, na Semana de Alta Costura de Paris, com um projeto novo: a marca AZ Factory, com roupas feitas com tecidos high-tech e uma grade de tamanhos incomum na ‘alta moda’: do XXS ao XXXL. Ou seja, para mulheres completamente fora dos padrões de beleza.

Elbaz foi muito bem recebido pela imprensa e compradores, mas não teve tempo para usufruir do retorno de sua ideia. Em 24 de abril, aos 59 anos, morreu em decorrência de complicações relacionadas à covid-19, depois de três semanas internado em um hospital de Paris.

Com informações da Extinction Rebellion, The Independent, The Guardian, Louis Vuitton

Foto: reprodução de vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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