Ativista entrega à Procter & Gamble tampão gigante, feito com aplicadores plásticos descartados no meio ambiente

Ativista entrega à Procter & Gamble tampão gigante, feito com aplicadores plásticos descartados no meio ambiente

A ativista britânica Ella Daish tem uma missão: dar um basta no descarte de aplicadores de plástico de tampões femininos no meio ambiente. O produto, criado para dar mais praticidade à vida das mulheres durante o período menstrual, é certamente um avanço, mas gera um resíduo completamente desnecessário. Pelo menos o das marcas mais conhecidas do mundo, Tampax e Always, da multinacional Procter & Gamble (há outra empresa concorrente que fabrica um produto similar, mas sem o aplicador plástico, e no ano passado, uma estudante brasileira desenvolveu um absorvente interno com fibra de banana e ganhou um prêmio de design com ele).

Por sua campanha #EndPeriodPlastic – #AcabeComOPlásticoMenstrual -, Ella já ganhou diversos prêmios, entre eles, o Climate Coalitions Green Heart Hero 2020 Award for Individual Inspiration e apareceu na lista da BBC Woman’s Hour Power.

Ela começou a campanha em 2018, quando nas idas e vindas de seu trabalho (ela era carteira e percebia o tamanho enorme dos sacos de lixo pelas casas onde passava pela sua cidade, Cardiff). Chocada com o volume de resíduos, decidiu fazer mudanças em sua vida pessoal para reduzir a geração de dejetos, mas se deparou, durante seu período menstrual, com os aplicadores de plástico, que não podem ser reciclados.

“Isso realmente começou a me frustrar e eu sabia que tinha que fazer algo a respeito, não apenas para aumentar a conscientização, mas também para trazer mudanças. Eu ficava pensando ‘o que eu, como funcionária dos correios, posso fazer a respeito disso?’ mas eu não podia fazer nada. Eu tinha que fazer algo porque, se não o fizesse agora, quem faria. Eu vi o sucesso de outras campanhas online, o que me obrigou a tomar uma posição contra o plástico”, conta a ativista.

Estima-se que 2,5 milhões de absorventes internos são descartados nos vasos sanitários do Reino Unido todos os dias, algo em torno de 2 bilhões por ano. Uma vez que tenham entrado no sistema de esgoto, se não forem interceptados nas estações de tratamento de água, eles acabam nos rios, desaguam no mar e vão parar nas nossas praias. Eles são o 5o tipo mais comum de lixo plástico presente nas praias da Europa.

A campanha criada por Ella tem vários focos: não apenas pressionar fabricantes a repensar suas embalagens, mas também pressionar supermercados, farmácias e outros pontos de venda a deixar de comercializar produtos que contenham esse tipo de resíduo plástico. E ela já conseguiu resultados. Algumas redes do Reino Unido ouviram seu apelo e mudaram o design de seus próprios absorventes internos para evitar o uso do plástico descartável.

Desde 2019, a ativista tenta fazer com que a Procter & Gamble também abrace a mudança. Mas até agora só ouviu promessas. Na semana passada então foi até a sede da multinacional americana na Europa, localizada em Genebra, na Suíça, para entregar um tampão gigante, feito com 1.200 aplicadores de plástico, encontrados em praias e cursos d’água no Reino Unido.

Com a ação, ela buscava conseguir conversar com algum representante da empresa e entregar a cópia de uma petição online, que já tem quase 250 mil assinaturas, e que pede o comprometimento da Procter & Gamble para remover os aplicadores plásticos descartáveis das linhas Tampax; a redução e remoção de plástico nos produtos Tampax e Always e o desenvolvimento de opções reutilizáveis.

Ativista entrega à Procter & Gamble tampão gigante, feito com aplicadores plásticos descartados no meio ambiente

Durante dois dias ela ficou na porta da multinacional e apenas ontem (16/11) foi atendida, na parte externa, por funcionários.

“Hoje entreguei o aplicador gigante à Procter & Gamble como uma representação da poluição global de plástico pela qual são responsáveis. Voltei para a sede na esperança de falar com um tomador de decisões da equipe de gerenciamento sênior Tampax & Always. Eles não estavam disponíveis. Encontrei-me com a diretora de comunicação novamente e, infelizmente, embora ela tenha dito que discutiria minhas solicitações com os tomadores de decisão da P&G, eles ainda não podem se comprometer a fazer quaisquer mudanças. Eles me convidaram para uma reunião virtual em uma data posterior”, escreveu Ella em suas redes sociais.

“Estou incrivelmente frustrada porque eles continuaram focando a conversa em torno da necessidade de educar os consumidores para não jogarem o resíduo na privada. Eles são a fonte deste plástico descartável, cortando-o na fonte evitamos todos os impactos ambientais negativos. Eles disseram que a mudança leva tempo. Salientei que todas as outras pessoas que conheci estão dando passos na direção certa e que, como líderes globais do setor, eles deveriam estar liderando, não ficando para trás. Solicitei que respondessem aos compromissos que a campanha os convoca a assumir. Vamos ver o que acontece a seguir”, desabafou.

Já imaginou se o mundo tivesse mais Ella Daishes? Só com a pressão de mais e mais consumidores é que empresas irão mudar e assumir sua responsabilidade social e o impacto que têm sobre o meio ambiente. Parabéns, Ella!

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Fotos: reprodução Facebook Ella Daish

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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