As poderosas fêmeas dos piprídeos

Post 23 - Blog Avoando (autor: Sandro Von Matter)

A América do Sul é o lar de algumas das mais belas aves do mundo que, além de cores exuberantes, apresentam alguns dos comportamentos mais enigmáticos do planeta.

Entre as mais de 1900 espécies, uma família em especial surpreende a todos nós pelo comportamento reprodutivo de seus integrantes simpáticos, coloridos e dançarinos.

São os Piprídeos, famosos membros da família pipridae, exclusivos da América. No Brasil, são representados por, pelo menos, 39 espécies de pequenas aves, de bico curto e plumagem muito colorida (nos machos), majoritariamente frugívoras (alimenta-se principalmente de frutos, preservando as sementes que são eliminadas intactas por defecação ou regurgitação) e que habitam os estratos mais baixos de nossas florestas (sub-bosque).

Mas o mais surpreendente nestas espécies não são as magníficas cores exibidas pelos machos, mas, sim, o fato de que todo esse colorido existe apenas para “agradar” as fêmeas. Afinal são justamente seus olhos criteriosos que escolhem o parceiro ideal e garantem a sobrevivência desta espécie.

Literalmente, segundo estudo publicado pela pesquisadora Natascha Bloch, na revista Proceedings of the Royal Society B, os genes responsáveis pela percepção afinada de cores nos olhos das fêmeas estão diretamente relacionados aos genes que expressam a coloração nas penas dos machos.

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Mas ser colorido, não basta para agradar as fêmeas dos Piprídeos. Para conquistarem um novo amor, os machos além de lindos precisam ser muito talentosos.

É por isso que o sistema reprodutivo destas aves se enquadra na classificação que, nós cientistas, chamamos de leques poligínicos, caracterizada por um sistema onde os machos mantêm seus territórios em grupos e dançam – isso mesmo!! – executando uma coreografia extremamente elaborada para atrair a atenção das fêmeas (foto ao lado).

Segundo Richard Prum, pesquisador da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, além de dançar e cantar, os machos ainda produzem intencionalmente um som mecânico com as asas que, em muitos casos, pode se tornar aquele detalhe a mais para que o macho seja escolhido.

Na verdade, estudo publicado recentemente pelo pesquisador Matthew Fuxjager e equipe, no periódico eLife, revelou que, para executar estes sons, algumas  aves desenvolveram um conjunto de músculos capaz de produzir o movimento mais rápido do mundo animal.

Seus músculos evoluíram ao longo de décadas em associação com as danças nupciais executadas pelos machos destas famílias e podem mover suas asas tão rápido que seria o equivalente a 6 ou 8 vezes mais intenso do que 8-hertz (Hz). Em outras palavras, suas asas se movem 8 vezes mais rápido que as pernas de o velocista jamaicano Usain Bolt (multicampeão olímpico e mundial) durante uma corrida.

A evolução moldou profundamente a forma como estas espécies se reproduzem, maximizando o sucesso reprodutivo das fêmeas, ao criar um verdadeiro espetáculo de dança. Durante esse espetáculo, as fêmeas podem sentar, relaxar e “beliscar um aperitivo” enquanto assistem ao show e comparam os atributos de cada macho para escolher o que mais lhe agrada ou… simplesmente não escolher nenhum.

Aliás, os cientistas acreditam que é graças à pressão exercida durante centenas de gerações durante a seleção dos machos pelas fêmeas, que os machos dessa família se tornaram tão coloridos. Por outro lado, as fêmeas, que possuem em suas mãos, ou melhor, em suas asas, todo o poder de decisão, são levemente esverdeadas (foto acima).

Agora, assista ao vídeo abaixo, registrado pelo biólogo Ivo Kindel, um trecho da dança nupcial executada pelo Tangará-dançador (Chiroxiphia caudata), um dos mais famosos representantes da família pipridae.

Foto: Octavio Campos Salles e Glauco Kohler

Sandro Von Matter

Pesquisador em ecologia e conservação, se dedica a investigar questões sobre o topo das florestas tropicais e as fascinantes interações entre animais e plantas. Hoje, à frente do Instituto Passarinhar, é um dos pioneiros em ciência cidadã no Brasil, e desenvolve projetos em conservação da biodiversidade e restauração ecológica, criando soluções para tornar os centros urbanos mais verdes.

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