As mulheres são as mais prejudicadas pela má distribuição de renda no mundo, alerta Oxfam

Intitulado Tempo de Cuidar – talvez como uma mensagem maior de alerta aos responsáveis pelo sistema econômico – o relatório publicado, hoje, pela Oxfam denuncia que as mulheres são as maiores perdedoras na distribuição de riqueza no mundo. O documento foi lançado na véspera do Fórum Econômico de Davos, que começa amanhã e reunirá as maiores lideranças mundiais e a elite financeira. Segundo a agência Bloomberg, pelo menos 119 bilionários devem ir ao encontro deste ano.

Vale destacar que a fortuna dessa gente chega a 500 bilhões de dólares. E eles representam uma pequena parcela dos bilionários de hoje. A quantidade duplicou: são 2.153! E estes têm mais recursos que 60% da população mundial – ou que as 4,6 bilhões de pessoas mais pobres do planeta. Por isso, é tão importante taxar as grandes fortunas. E isso não é ideia de comunista, como dizem os mal informados ou mal intencionados, é justiça.

Veja o que diz o relatório: “Se, durante dez anos, essas pessoas pagassem apenas 0,5% de imposto sobre sua riqueza, seria possível, aos governos, investir na criação de 117 milhões de novos empregos, em áreas sociais. Isso é justiça social.

Há mais de 180 milhões de desempregados! A renda está cada vez mais concentrada, o planeta mais desigual, e as mulheres são as que mais sofrem com essa desigualdade.

“Mulheres e jovens são as que menos tiram vantagem do atual sistema econômico”, destacou Amitabh Behar, diretor da organização na Índia, durante coletiva de imprensa. Ele será o representante da Oxfam este ano no Fórum, que começa amanhã, 21/1.

Segundo a Oxfam, 42% das mulheres no mundo não podem ter trabalho remunerado devido à carga muito grande de trabalho doméstico – cuidados no ambiente privado ou familiar. No caso dos homens, isso acontece somente com 6%.

Sim, embora cuidar de outras pessoas, cozinhar ou limpar sejam tarefas essenciais, essa responsabilidade recai geralmente sobre as mulheres – adultas ou meninas – e perpetua não só as desigualdades econômicas, como também as de gênero”, afirma o relatório.

Assim, mulheres (acima de 15 anos) dedicam 12,5 bilhões de horas diárias às tarefas domésticas, que não são remuneradas. Isso representaria cerca de US$ 10,8 trilhões por ano. Isso é “três vezes mais que o valor do setor digital em todo o mundo”, enfatiza a ONG. Veja o tamanho da injustiça!

“Nossas economias falidas estão enchendo os bolsos dos bilionários e dos grandes negócios às custas dos homens e mulheres comuns”, destacou Behar na coletiva. “Não surpreende que as pessoas comecem a questionar se os bilionários devem sequer existir”. E sentenciou: “O fosso entre ricos e pobres não pode ser resolvido sem políticas deliberadas de combate à desigualdade. Os governos devem garantir que as empresas e os ricos paguem sua parte justa dos impostos”.

Brasil aprofunda a desigualdade

Foto: Peter Bauza

O sistema parece não se importar com o tamanho do fosso ao qual se referiu Behar. E o governo brasileiro é um grande exemplo nesse sentido. Apoiado (e pressionado) pela elite financeira, claro.

Neste relatório, a OXFAM ataca as opções econômicas de alguns governos, como o de Bolsonaro, e denuncia sua política econômica, que adota cada vez mais estratégias para aprofundar a desigualdade, favorecendo a elite e tirando direitos da classe média e dos mais pobres.

“A maioria dos líderes mundiais ainda está perseguindo agendas políticas que conduzem a uma maior distância entre os que têm e os que não têm”. E cita Estados Unidos e Brasil. “Líderes como o presidente Trump e o presidente Bolsonaro são exemplos dessa tendência. Eles estão oferecendo políticas como redução de impostos para bilionários, obstruindo medidas para enfrentar a emergência climática, ou o racismo, o sexismo e o ódio às minorias“, declara a organização. Um acinte!

Voltando ao Brasil, a Oxfam não citou apenas o primeiro ano com Bolsonaro. O nome de Michel Temer – o presidente que participou do golpe e preparou o terreno para o futuro presidente – também está impresso no documento e se refere a políticas para as mulheres.

“Os cortes governamentais também estão exercendo pressão sobre as organizações de mulheres. No Brasil, em 2017, os cortes nos gastos públicos contribuíram para uma redução de 66% do financiamento federal no orçamento inicialmente destinado em 2017 aos programas de direitos das mulheres que promovem a igualdade de gênero”, revela o relatório.

E lembra as mobilizações crescentes em inúmeros país pelo mundo contra o conservadorismo, a falta de liberdade, a censura, o arrocho econômico e o descaso com as mudanças climáticas.

“Diante de líderes como esses, pessoas em todos os lugares estão se reunindo para dizer que já chega. Do Chile à Alemanha, os protestos contra a desigualdade e o caos climático são enormes. Milhões estão tomando as ruas e arriscando suas vidas para exigir o fim da desigualdade extrema e exigir um mundo mais justo e mais verde“.

Necropolítica e minorias

Os dados do relatório da Oxfam são terríveis e materializam o crescimento da necropolítica (o uso do poder social e político para ditar como algumas pessoas podem viver e outras devem morrer, tão bem definida pelo filósofo e historiador africano Achille Mbembe, em seu livro homônimo) “adotada” por muitos governos – inclusive no Brasil.

Mas, como nos mostra a análise que reproduzi acima, há um mundo inquieto, que tem desejo de justiça. Uma onda crescente que clama por igualdade, eqüidade, diversidade, justiça, ética, empatia, e por um mundo mais feminino, no sentido do cuidar. O estilo masculino de liderar parece com os dias contados porque é destruidor,

Podemos colaborar com essa onda parando de nos referir a pobres, negros e mulheres como minorias. A Oxfam ainda usou esse termo em seu relatório, mas está errado. Ou deveria.

Minorias são os 22 homens mais ricos do mundo ou os 2,1 mil bilionários que detêm riqueza superior aos bens das 4,6 bilhões de pessoas mais pobres do planeta, não? Não preciso nem citar os pobres em nosso país, mas só pra dar um número, os negros representam 54% da população do país. Minoria?

Agora, assista ao vídeo que resume os dados do relatório da Oxfam:

Foto: Mohamed Hassam, Pixabay

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta