Organizações da mídia, repórteres e correspondentes cobram mais empenho de Bolsonaro nas buscas por Dom Phillips e Bruno Pereira

O desaparecimento do jornalista inglês Dom Phillips – junto com o indigenista Bruno Pereira – tem ajudado a repercutir o caso mundialmente. Se apenas Bruno tivesse sumido, o caso seria abafado e esquecido como aconteceu com o servidor da Funai, Maxciel Pereira dos Santos, em 2019. Ele atuava em defesa dos indígenas da TI do Vale do Javari, e foi morto na mesma região em que Dom e Bruno desapareceram no domingo.

Editores das mais respeitadas organizações de mídia e de liberdade de imprensa do mundo, repórteres e correspondentes têm se mobilizado para cobrar mais empenho do governo Bolsonaro nas buscas pelos dois ativistas, registrando sua indignação por meio de cartas públicas ou, no caso da comunidade global do Pulitzer Center, com o registro fotográfico do protesto que fizeram durante sua conferência anual sobre florestas tropicais.

“Recorra ao máximo de esforço para encontrar Dom e Bruno”

Logotipos de algumas das organizações que assinam a carta

Em carta pública dirigida a Bolsonaro – e enviada também aos ministros da Defesa e das Relações Exteriores -, editores e jornalistas de, pelo menos, 20 grandes organizações de mídia e de liberdade de imprensa, pediram para que o presidente brasileiro “intensifique urgentemente os esforços” de busca do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira, desaparecidos no Vale do Javari, na Amazônia, no último domingo.

Liderada pelos jornais The Guardian, britânico, e Washington Post, americano –para os quais Dom trabalhou como freelancer –, a iniciativa conta com a adesão de editores sêniores do New York Times, Wall Street Journal, National Public Radio, Bloomberg News, Associated Press, Financial Times, Pulitzer Center, Bureau of Investigative Journalism, ProPublica, The Intercept, Dagens Nyheter, Mongabay, Stat e Wallace House Center for Journalists. 

Do Brasil, assinam o documento: Folha de S. PauloRepórteres Sem Fronteiras, Repórter Brasil, Amazônia Real, revista Piauí, Agência Pública de Jornalismo Investigativo e Agência epbr.

A seguir, trechos da carta publicados ontem, 9/6, no The Guardian:

“Escrevemos para expressar nossa extrema preocupação com a segurança e o paradeiro de nosso colega e amigo Dom Phillips, e Bruno Araújo Pereira, com quem Dom estava viajando. Dom é um jornalista respeitado globalmente com um profundo amor pelo Brasil e seu povo”.

“Como você sabe por inúmeras reportagens da imprensa, Dom e Bruno estão desaparecidos na Amazônia há mais de três dias. Suas famílias, amigos e colegas solicitaram repetidamente assistência de autoridades locais, estaduais e nacionais e serviços de emergência.

“Como editores e colegas que trabalharam com Dom, agora estamos muito preocupados com relatos do Brasil de que os esforços de busca e resgate até agora têm recursos mínimos, com as autoridades nacionais demorando a oferecer assistência mais do que muito limitada.

“Pedimos que você intensifique com urgência e recorra ao máximo de esforço para localizar Dom e Bruno, e que forneça todo o apoio possível às suas famílias e amigos”.

Mobilização popular

No texto sobre a carta, o The Guardian ainda destaca que Phillips “estava trabalhando em um livro sobre o desenvolvimento da floresta tropical, acompanhado por Pereira, um explorador que trabalha com tribos indígenas na região há anos”. E que foram vistos pela última vez na manhã de domingo no rio Itaquaí, no extremo oeste do Brasil.

Também conta que a área onde estavam é remota e, por isso, as buscas oficiais demoraram a começar. Vale destacar, aqui, que os indígenas já haviam feito duas incursões pelo trajeto da comunidade São Rafael, onde estiveram pela última vez, até Atalaia do Norte, no mesmo dia. E não encontraram vestígios.

A publicação lembrou também que, na quarta-feira, a pressão do público e a mobilização de personalidades como o ex-jogardor de futebol Pelé, o cantor e compositor Caetano Veloso e a atriz Camila Pitanga, certamente provocou as autoridades, que disseram ter aumentado a equipe e a estrutura de buscas “com 250 pessoas, dois aviões, três drones e 16 embarcações envolvidas na operação”. 

O jornal ainda destacou que a polícia anunciou a prisão de um homem suspeito – conhecido na região como ‘Pelado’ -, que teria estado com Dom e Bruno, “mas as autoridades disseram que não o vincularam diretamente a nenhum crime”. 

Hoje, a agência Amazônia Real divulgou reportagem na qual conta que foram encontrados vestígios de sangue no barco de ‘Pelado’, que teve a prisão decretada.

Pressão internacional

No texto que divulga a carta, o The Guardian chama Bolsonaro de “presidente extremista”, lembrando que, desde que assumiu o poder em 2019, tem atacado e insultado a imprensa com frequência. E lembrou que, em entrevista, Bolsonaro “pareceu culpar Phillips e Pereira por seus próprios problemas quando chamou sua viagem de reportagem de ‘uma aventura que não é recomendável para ninguém’”.

Em editorial publicado em 8 de junho, o The Guardian apelou a governos e organizações para que pressionem “o líder de extrema-direita”, já que “é altamente improvável que o governo mude de rumo sem pressão internacional”. E que “isso deve primeiro ser levado em consideração para produzir uma resposta adequada a esse desaparecimento”.

Protesto da ‘Rainforest Journalism Fund’

Hoje, durante a conferência anual do Pulitzer Center #Interconnected22 – (foto de destaque deste post) jornalistas que produzem reportagens sobre as florestas tropicais na Amazônia, no Congo e no Sudeste Asiático se manifestaram cobrando ações imediatas do governo para encontrar Bruno e Dom.

Como tem acontecido em manifestações pelos dois ativistas, todos seguravam cartazes com a ilustração do brasileiro Cris Vector e a frase Where are Dom and Bruno?, que também foi reproduzida em uma faixa. A foto que registrou o momento foi “capturada” no tweet do Pulitzer Center.

‘Nos recusamos a perder a esperança’, dizem correspondentes

Mais de 40 correspondentes internacionais e amigos do jornalista britânico Dom Phillips – entre eles Eliane Brum, Sonia Bridi, Patricia Campos Mello e o editor e repórter do The Guardian, Jonathan Watts e Tom Phillips – se uniram e escreveram uma carta e a enviaram para o jornal O Globo.

Nela, afirmaram que se recusam a perder a esperança de que ele e Bruno sejam encontrados vivos e bem, e fizeram apelo ao governo para que nenhum recurso seja poupado nas operações de busca e que os esforços sejam “ampliados imediatamente”.

A seguir, a carta na íntegra:

“Nós somos os amigos do Dom e estamos no Brasil, no Reino Unido, nos Estados Unidos e em outros países pelo mundo. Estamos grudados em nossos telefones, televisões e computadores buscando desesperadamente informações sobre o nosso amigo e colega. Fazemos ligações, trocamos notícias e links pelo WhatsApp em busca de qualquer vestígio que possa sugerir que o veremos novamente, são e salvo. Nós nos recusamos a acreditar no pior sobre ele e Bruno Pereira, o indigenista que o acompanhada.

Todos nós conhecemos Dom como um dos jornalistas mais perspicazes e atenciosos da América do Sul. Como correspondentes, estamos habituados a ouvir pessoas perguntarem o porquê de termos trocado o conforto de nossas casas pelo Brasil, com todos seus problemas. A resposta é geralmente a mesma, porque amamos este país. Como Alessandra, sua esposa, disse ontem: ‘meu marido ama o Brasil e ama a Amazônia. Ele poderia viver em qualquer lugar do mundo, mas escolheu viver aqui.’

Antes de vir para o Brasil em 2007, Dom tinha uma vida interessante no Reino Unido escrevendo sobre música. Ele foi editor de uma revista e depois publicou um livro brilhante sobre o nascimento da cultura dos DJs. Mas queria para si um segundo ato. Veio para São Paulo, atraído por amigos DJs. Seu plano era passar alguns meses por aqui, porém imediatamente se sentiu em casa no Brasil. Ele se mudou de São Paulo para o Rio, casou-se com uma baiana e, há alguns anos, mudou-se com ela para Salvador. Sua segunda carreira como correspondente é tão brilhante quanto sua primeira como escritor musical.

Dom escreveu para o Guardian, o New York Times, o Washington Post, o Intercept e muitos outros. Queria, contudo, deixar uma marca, e seu amor pela Amazônia, um lugar que conheceu durante viagens a trabalho, é profundo. Seu projeto de publicar um livro sobre o desenvolvimento na região o permite passar mais tempo por lá para conhecer a fundo as pessoas e suas dificuldades.

Há muito mais sobre ele além de páginas e parágrafos. Seus amigos o conhecem como um cara sorridente que levanta antes do sol nascer para fazer stand-up paddle. Nós o conhecemos como alguém que está esperando ansiosamente a papelada para que possa adotar uma criança com sua mulher. Dom é o amigo que manda mensagens no WhatsApp no dia dos nossos aniversários e é o voluntário que deu aulas de inglês em uma favela carioca. Uma das primeiras coisas que fez em Salvador foi se envolver com o Jovens Inovadores, um programa de saúde coletiva da UFBA. Lá, era cercado por pessoas jovens, adolescentes que descrevia carinhosamente como igualmente barulhentos, distraídos e cheios de curiosidade sobre o mundo.

Foi essa mesma curiosidade que o levou ao Vale do Javari na companhia do Bruno, um indigenista experiente e reconhecido. É uma área isolada que pouquíssimas pessoas um dia verão. Esse isolamento é a razão pela qual os esforços de resgate devem ser ampliados imediatamente. Cada segundo é vital. Toda pessoa, barco, helicóptero e satélite pode fazer a diferença. Estamos preocupados, mas nos recusamos a perder a esperança. Por favor, não poupem recursos para encontrar nosso amigo e o amigo dele, o Bruno.

Os signatários:

  • Jon Lee Anderson, redator, New Yorker
  • Manuela Andreoni, repórter, New York Times
  • Claudia Antunes, editora de Mundo, O Globo
  • Jenny Barchfiend, editor regional do Alto Comissariado da ONU para Refugiados para a América Latina
  • Vincent Bevins, autor de ‘The Jakarta Method’ (‘O Método Jacarta’, em tradução livre)
  • Paula Bianchi, editora, Agência Pública
  • David Biller, diretor de noticias no Brasil, Associated Press
  • Sônia Bridi, repórter, TV Globo
  • Eliane Brum, jornalista
  • Patrícia Campos Mello, repórter especial, Folha de S.Paulo
  • Gareth Chetwynd, editor de notícias, NHST
  • Sylvia Colombo, correspondente de América Latina, Folha de S.
  • Paulo Sam Cowie, jornalista Tony Danby, jornalista freelance
  • Wyre Davies, ex-correspondente de América Latina, BBC
  • Andrew Downie, autor de ‘Doutor Sócrates: A Biografia’
  • Fabio Erdos, cinegrafista, Panos Pictures
  • Janaína Figueiredo, correspondente na Argentina, O Globo
  • Andrew Fishman, jornalista colaborador, The Intercept
  • Lulu Garcia-Navarro, apresentadora, New York Times Opinion Tom Hennigan, correspondente na América do Sul, The Irish Times
  • James Hider, autor e jornalista Martin Hodgson, editor de internacional, Guardian EUA
  • Henrik Brandão Jönsson, correspondente na América Latina, Dagens Nyheter
  • Richard Lapper, autor de ‘Beef, Bible and Bullets: Brazil in the age of Bolsonaro'(‘Boi, Bíblia e Balas: Brasil na era Bolsonaro’, em tradução livre)
  • Luciana Magalhães, repórter, Wall Street Journal
  • Fabiano Maisonnave, correspondente na Amazônia, Associated Press
  • Elisangela Mendonça, repórter, Bureau of Investigative Journalism
  • Flávia Milhorance, jornalista colaboradora, New York Times
  • Lianne Milton, fotógrafa, Panos Pictures
  • Jack Nicas, chefe de redação no Brasil, New York Times
  • Stephanie Nolen, repórter de saúde global, New York Times
  • Cecília Olliveira, diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)
  • Tariq Panja, correspondente global de esportes, New York Times
  • Samantha Pearson, correspondente no Brasil, Wall Street Journal
  • Tom Phillips, correspondente na América Latina, The Guardian
  • Paulo Prada, editor de negócios na América Latina, Reuters
  • Paula Ramon, ex-correspondente no Brasil, AFP
  • Simon Romero, correspondente nacional, New York Times
  • William Schomberg, ex-correspondente no Brasil
  • Sebastian Smith, correspondente na Casa Branca, AFP Vinod Sreeharsha, correspondente, Latin Finance
  • Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa
  • Jonathan Watts, editor de meio ambiente global, The Guardian
  • E outros amigos ao redor do mundo.

Foto: Divulgação/Twitter Pulitzer Center

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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