As andanças de Juca Chico e o ‘causo’ da zagaia na Serra da Canastra

As andanças de Juca Chico e o 'causo' da zagaia na Serra da Canastra


Era assim que sucedia. Dia após dia vinha o Juca Chico por aquela serra de meu-Deus, mato rasteiro, cupinzeiros por todo lado. Vez por outra desbarrancava do calor da estrada de terra para a beira de qualquer córrego ou riacho. Usava chapéu aprumado, bota gasta ou de pé no chão, como ele bem gostava de andar, errante como um conterrâneo dele, o lobo-guará.

Juca nasceu José. Virou Juca Chico porque o pai era Francisco, e devoto do santo homônimo quis logo apelidar o filho para não lhe faltar proteção.

Por ter visto o mundo pela primeira vez das janelas da Serra da Canastra, em Minas Gerais, herdou a força que emana das montanhas. Tão forte que, aos 96 anos, estava ainda a postos para qualquer viagem.  

“Nos antigamentes”, ele atravessava léguas a levar bois de Minas para a divisa com São Paulo. Não só viu a vida passar, mas passou por ela deixando marcas. Ia, mas sempre voltava. A vocação para cruzar céus e terras a pé ou no lombo do cavalo faz parte da natureza do homem da Canastra e das tradições ali instaladas.

Aprende-se ao mesmo tempo em que se contempla a vastidão do Cerrado. E nem a idade alivia a vontade de ir, ir, sempre ir. Para todo bom mineiro, toda viagem rende um bom causo…

Nenhum como a lenda da fazenda Zagaia, que seu Juca Chico jurava de pé junto ter presenciado.

A casa grande continua lá, assustadora, na face oeste da serra, destroçada pelo tempo e pelo temor do povo da redondeza. Embaixo do assoalho que ainda resta ficaram os retalhos da história: sapatos e roupas de diversos tamanhos e cores ocupam o vazio deixado entre o antigo piso e os alicerces.

Nas lembranças de seu Juca, a fazenda centenária foi pousada dos tropeiros nas noites frias onde, àqueles que chegavam, era oferecido um bom quarto, colchão de palha ou rede para quem não precisava de luxo para descansar. 

O que o visitante não sabia é que, presa ao teto, esperava a zagaia – espécie de tronco todo coberto por lâminas afiadas. A arma era amarrada a uma corda conhecida apenas pelo dono da pensão.

Na madrugada, quando os visitantes rolavam exaustos sobre o colchão de palha, a arma era lançada. Das vítimas, os donos da casa tiravam a vida, as moedas e o gado. 

A emboscada só foi interrompida graças a um fumo de rolo que uma das empregadas da fazenda ganhou de presente de um dos hóspedes. Agradecida, ela denunciou os crimes e poupou a vida do tropeiro generoso.

Isso conta Seu Juca que só sobreviveu porque recusou a pechincha de dormir no quarto grande pelo preço do pequeno. Sabendo que o tempo é quem governa o serviço, respeitava a chuva, esperava a brisa mansa para cruzar céus e terras.

Juca Chico levava com ele fé e sorrisos. Distribuía histórias. Era prova viva de uma pureza que só existe ali, a pureza das águas do rio São Francisco.

Quando Juca partiu, o outono deixou secos todos os cantos da serra, cada curva, cada vale. Órfãos ficaram seus filhos, netos, bisnetos e uma legião de amigos, formada por gente, bichos e plantas.

Para gente como ele, a cada ano, florescem os campos, voam os gaviões, a água corre gelada cachoeira abaixo, o sol tinge de dourado o entardecer dos campos da sua Serra da Canastra.

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Laís Duarte (texto) e Adriano Gambarini (fotos)

Laís Duarte é jornalista especializada em meio ambiente, repórter da TV Cultura, mineira, leitora voraz, curiosa e viajante. É autora de vários livros sobre o tema, muitos deles ao lado de Adriano Gambarini, geólogo de formação, espeleólogo, fotógrafo, documentarista. Um contador de histórias por imagens, e palavras; ganhador do Prêmio Comunique-se

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