‘Arco da Restauração’: projeto liderado pelo cientista Carlos Nobre prevê replantio de uma área de mais de 1 milhão de km² na Amazônia

Projeto 'Arco da Restauração' prevê replantio de uma área de mais de 1 milhão de km² na Floresta Amazônica, conta o climatologista Carlos Nobre

Enquanto o país está de olho nas eleições, o climatologista Carlos Nobre faz cálculos para um novo projeto que apresentará, em novembro, na 27ª Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU – a COP27 –, no Egito. Batizado de Arco da Restauração, a iniciativa propõe replantar a floresta amazônica em uma área de mais de 1 milhão de km². 

O nome faz referência ao Arco do Desmatamento, região com os maiores índices de destruição da floresta, entre o leste e o sul do Pará, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre. Nesta faixa de terra se dá o avanço da fronteira agrícola sobre a floresta.

O Presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), entende que a Conferência das Nações Unidas costuma avançar muito devagar e, por isso, quer pressionar. “A emergência climática exige urgência de soluções”, declara nesta entrevista.

Em 2020, Nobre criou o Painel Científico para a Amazônia, que reúne 200 cientistas dos nove países que compõem a Bacia Amazônica, e que conta com a participação de cientistas indígenas. Em 2021, foi agraciado com o prêmio da Associação Americana para o Avanço da Ciência e, este ano, tornou-se membro da Royal Society, uma das academias de ciências mais antigas do mundo.

O senhor pretende lançar o ‘arco da restauração’ ao lado de outros cientistas na COP 27. Qual é a ideia?

A ideia do arco da restauração, que será lançado em novembro, na COP 27, pelo Painel Científico para a Amazônia, é um grande projeto de restauração florestal de uma área da Amazônia da ordem de 1 milhão km², desmatadas e degradada, para que nós possamos reduzir o risco que o bioma corre de se degradar, de grande parte da floresta desaparecer e se tornar um ecossistema degradado, de céu aberto, com pouquíssimas árvores, gramíneas e arbustos, muito vulnerável ao fogo.

Então, a proposta do arco da restauração é transformar o arco do desmatamento em uma imensa área com restauração florestal para, em primeiro lugar, reduzir o risco desse ponto de não-retorno e, em segundo lugar, combater as mudanças climáticas

De acordo com os divulgados, agora, pelo INPE, no último ano, em média, 18 árvores foram derrubadas por segundo na Amazônia. Um recorde! Com o histórico de desmatamento e este ritmo atual, como compensar o que já foi destruído? 

Na Bacia Amazônica, mais de 1 milhão de km² foram desmatados e quase 1 milhão de km² adicionais estão em vários estados de degradação. Nós estamos falando de áreas alteradas por desmatamento ou por degradação ultrapassando 2 milhões de km².

Das áreas desmatadas, muitas foram abandonadas. Por exemplo, na Amazônia brasileira, cerca de 160, 170 mil  km² foram abandonados principalmente pela pecuária e ali, a floresta está se regenerando naturalmente. Há áreas abandonadas em que essa floresta tem mais de 30, 40 anos. Então, isso mostra que também áreas que são abandonadas pela pecuária podem ser regeneradas naturalmente.

Foto: Christian Braga / Greenpeace Brasil

Há custos estimados para esse trabalho? Como seria o financiamento? E o plantio na prática, seria em locais pré-determinados? Por quem?

Esses dados sobre os custos, as estratégias para desenvolver e implantar eficazmente esse grande projeto do arco da restauração florestal está sendo produzido agora. O documento ficará pronto no final de setembro, e, então, teremos esses detalhes de como seria o financiamento, como seria o plantio.

Lógico que deve-se buscar grandes financiamentos, tanto de governos de países ricos como de fundos do sistema bancário, até porque a restauração florestal remove uma grande quantidade de carbono e a COP 27 irá avançar – e todos esperamos que ela bata o martelo no marco legal do mercado de crédito de carbono global.

Portanto, também a remoção do gás carbônico de um grande projeto como esse, de restauração de 1 milhão km², terá valor de bilhões de dólares por ano e essa também será uma maneira de buscar o financiamento para uma efetiva implantação do arco da restauração florestal.

Existe alguma espécie mais ameaçada? Se sim, essa é que seria replantada ou outra?

A ideia é buscar a restauração de duas maneiras: na Amazônia brasileira mais de 160 mil km², eram áreas principalmente de pecuária, foram abandonadas e a floresta está recrescendo há muitos anos.

A floresta secundária recresce muito rapidamente e reproduz uma grande parte da biodiversidade da floresta primária. Estudos mostram que uma floresta secundária já bastante desenvolvida, com mais de 50, 60 anos, tem acima de 70% das espécies da biodiversidade, e também recompõe mais de 80%, 85% da quantidade de carbono que a floresta primária tem. Então, essa é uma das estratégias, logicamente. 

A regeneração em áreas que não são muito distantes de florestas, a regeneração natural é muito efetiva. Em áreas altamente desmatadas, muito distantes da floresta, há a necessidade de se buscar o replantio. Tem que escolher um grande número de espécies de árvores e replantar centenas delas – a Amazônia tem milhares e milhares de espécies – porque aí, quando a floresta secundária estiver recrescendo, ela começa a atrair a dispersão de sementes por animais que transportam as sementes, e a floresta vai de novo adquirindo características de floresta secundária.

Foto: João Marcos Rosa

Árvores podem levar décadas para crescer. O tempo pode ser um problema para garantir que a recuperação ocorra?

Para atingir um nível de total maturidade, a floresta leva muitas décadas, mas a floresta secundária amazônica, as florestas tropicais recrescem muito rápido e retiram uma grande quantidade de gás carbônico da atmosfera no seu recrescimento. Removem entre 11 e 18 toneladas de gás carbônico por hectare/ano da atmosfera. E isso por um período muito longo: 30, 35 anos.

Depois permite-se que a floresta secundária continue inalterada ao crescer por mais décadas, e em 60, 70 anos ela já recuperou a maior parte da biodiversidade e, também, já estocou uma grande quantidade – 75%, 80% do carbono – do que uma floresta primária tem.

A ciência alerta sobre o processo de savanização da Amazônia. O que na prática mudaria na floresta? Quão perto estamos dessa possibilidade?

De fato, todo o sul da Amazônia está muito perto desse ponto de não-retorno, de se transformar 60% até 70% da floresta num ecossistema muito degradado, de céu aberto, parece uma savana tropical, mas muito diferente da savana tropical do Cerrado que é a savana tropical mais biodiversa do mundo, com enorme armazenamento de carbono.

Esse ecossistema degradado que a Amazônia se tornaria é muito pouco biodiverso e com muito menos armazenamento de carbono. Nós estamos muito próximos desse ponto.

A estação seca já ficou 4 a 5 semanas mais longa nos últimos 42 anos. Estação seca é mais quente e mais seca. E apresenta aumento da mortalidade de árvores muito grande nessa imensa região de 2 milhões de km². O fogo corre pelo chão da floresta.

A floresta em milhões de anos era muito resiliente ao fogo, muito úmida, o fogo não propagava, então, tudo isso mostra que essa imensa região, mais 2 milhões de km² em todo o sul da Amazônia, corre o risco e está muito próxima desse ponto de não-retorno.

Existem locais em que a Amazônia já mudou dessa forma? Se sim, pode citar um exemplo e o cenário encontrado hoje? Que consequências a população local enfrenta?

Regiões muito desmatadas como o sul da Amazônia já são mais quentes, mais secas, as temperaturas máximas, por exemplo, de áreas de pastagem podem ser de 3 a 5 graus mais quentes, então, as populações que vivem nessas regiões já estão enfrentando uma condição bastante mais quente, por exemplo. Essa é uma mudança climática já bastante perceptível em toda essa região no sul da Amazônia onde os desmatamentos já atingiram um nível muito elevado.

Em toda a Amazônia, além da degradação florestal, além do fogo, todo ano, com as imensas queimadaseste ano tivermos recordes de queimadas, mais queimadas do que nos últimos 12 anos –  e a poluição das queimadas, os particulados, principalmente, causam em dezenas de milhares de pessoas doenças respiratórias, cardíacas, causam muitas mortes, então essa é uma realidade que afeta a saúde humana todos os anos na Amazônia.

Foto: Marcos Amend

Estamos em disputa eleitoral e, no discurso, todo mundo protege a Amazônia, a natureza. Mas por que ainda “floresta em pé” não é uma prática de quem tem poder econômico e poder político nas mãos?

É um movimento de acabar com a floresta, um movimento que considera a floresta um inimigo do que eles chamam de desenvolvimento, mas é um desenvolvimentismo lá dos anos de 1970, da época da ditadura militar.

De fato, essa é uma disputa eleitoral importante. E seria muito importante que nós, os brasileiros todos, principalmente os eleitores dos Estados amazônicos pudéssemos eleger políticos que tivessem uma visão do grande potencial que a Amazônia tem, da sua biodiversidade, é a chamada bioeconomia de floresta em pé. Ela tem um potencial muito maior do que o de derrubar a floresta e substituir por pastagens e baixíssima produtividade.

Então, esta disputa política é muito importante e decisiva para salvar a Amazônia.

O que senhor espera da COP27, em novembro? Acredita que iremos avançar em compromissos e ações?

A COP26, em Glasgow, significou alguns avanços nas suas promessas sobre como reduzir as emissões globais em 50% até 2030, mas é preciso avançar muito. Por exemplo, na criação do Fundo Verde.

O Fundo Verde não chegou nem a 100 bilhões de dólares por ano! Mas os países desenvolvidos já tinham se comprometido que, em 2020, ele chegaria a esse montante. Para o mundo desenvolvido e rico contribuir com todo o mundo, principalmente para que os países pobres e mais vulneráveis entrem numa trajetória mais sustentável de combate ás mudanças climáticas, esses investimentos, essa ajuda tem que passar de 700, 800 bilhão de dólares, ou de um trilhão de dólares.

Então, é importante que a COP27 avance nisso. É difícil prever se ela vai avançar ou não.

Outro aspecto importante é bater o martelo no marco legal do mercado de carbono, de criar todo um marco legal importante e global para desenvolver um grande mercado de carbono em todo o planeta. Portanto, espera-se que a COP27 atinja esses objetivos.

É difícil prever porque as COPs avançam muito devagar, mas a emergência climática exige tanta urgência de soluções que nós vamos torcer que esta conferência avance nessa direção, ou até mais, obtendo resultados importantes, mais até do que a COP26 conseguiu.

Foto: Divulgação Volvo Environmental Prize 2016

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Sabrina Pires

Com mais de 20 anos de carreira, já passou pelas rádios Eldorado e Bandeirantes e as emissoras Redetv e TV Gazeta. Apaixonada por natureza e animais, criou o “E aí, bicho?”, canal na internet que debate as nossas interações com os animais - de tubarão a cachorro! Repórter e apresentadora, também escreve sobre sustentabilidade. Ama viajar e contar histórias enquanto se divide entre São Paulo e Santos.