Apresentação de ‘líderes de torcida’ em parque da Disney causa revolta ao ridicularizar indígenas

Apresentação de 'líderes de torcida' em parque da Disney causa revolta ao ridicularizar indígenas

Um grupo de alunas da Escola Secundária de Port Neches-Groves, do Texas, nos Estados Unidos, foi convidada para fazer uma performance no parque temático Magic Kingdom, do Walt Disney World, em meados de março.

Elas são ‘líderes de torcida’ (cheer leaders), conhecidas como Indianettes, e protagonizaram um espetáculo ofensivo, que causou revolta entre personalidades e líderes indígenas e nas redes sociais.

Antes de começar o espetáculo, elas foram convidadas a tirar os cocares que usavam (foto acima) devido a seu estilo caricato que provocou certo constrangimento, o que, de alguma forma, anunciava o que viria a seguir.

Apresentação de 'líderes de torcida' em parque da Disney causa revolta ao ridicularizar indígenas
As ‘líderes de torcia’, sem cocar / Reprodução de vídeo

Usando roupas inspiradas nos trajes de indígenas americanos, com franjas brancas também nos adereços, dançaram coreografia estereotipada com gestos que remetiam a rituais dos povos nativos. Com direito a batidinha na boca e gritos de Uuuuu.

Acompanhando o ritmo dos tambores, cantaram “índios, escalpelem eles, índios, escalpelem!”.

O mais absurdo é que a maioria do público acompanhava a apresentação com palmas, sem perceber o quanto a performance das garotas agredia a cultura e a identidade dos povos originários daquele país.

Repercussão

Tara Houska, advogada do povo indígena Ojibwe, foi uma das primeiras pessoas a reagir. Em sua página no Twitter, escreveu: “Por que um monte de garotas cantando ‘escalpelem índios, escalpelem’ é uma honra? Qualquer nativo que frequenta a escola de Port Neches-Groves deveria aceitar seus colegas de classe desumanizando-o porque é ‘tradição’? Que vergonha a Disney Parks hospedando isso!”.

Seu post recebeu 27,8 mil curtidas e foi retuitado por mais de 11 mil pessoas, que a apoiaram e repudiaram a performance desrespeitosa classificando-a de racista

Em outro tweet, no qual compartilhou o link de um artigo publicado por um site de fãs da Disney, Houska disse que “as líderes de torcida não foram autorizadas a usar os cocares falsos, como costumam fazer em suas apresentações, mas o canto ofensivo foi aprovado!”. 

Vale destacar aqui, como ilustração de seu ativismo e atenção às questões indigenas pelo mundo, que Houska compartilhou o tweet da organização Survival International sobre a devolução da Medalha do Mérito Indigenista ao governo pelo sertanista Sydney Possuelo (divulgamos aqui no site), em desagravo à condecoração de Bolsonaro e colaboradores do governo com a mesma honraria (como contamos aqui).

Ao tomar conhecimento da performance repugnante, a escritora Kelly Lynne D’Angelo, da etnia Tongva, criticou a demora da sociedade em reconhecer o racismo contra os indígenas, destacando que “99% por cento das pessoas que compartilham sua indignação em relação a esta apresentação são nativos. Isso é um problema também!”. E continuou:

“Por que devemos ser nós a falar de todo o racismo flagrante contra nós? Dos constantes maus-tratos? Por que devemos lutar, com unhas e dentes, para vocês entenderem que somos humanos, vivos e prósperos também?”. 

E ela ainda condenou o estereótipo de “selvagem” contido na expressão ‘escalpelem’, lembrando que “nossos caminhos estão certos e sempre foram porque nossas práticas relacionais uns com os outros e com a terra são o ‘núcleo fundamental’ para uma experiência humana saudável e harmoniosa”.

Este episódio é como tantos outros que se repetem nos Estados Unidos, aqui no Brasil e em outros países da América Latina, todos os dias, contra seus povos originários. E que tem raízes profundas na colonização. Merece resistência.

Alguns acontecimentos relacionados aos indígenas e outras raças e também a questões de gênero, que têm marcado a trajetória da empresa que administra os parques temáticos Disney, dão bem essa medida desse cenário.

Desculpas e mais desculpas

Em nota, Jacquee Wahler, porta-voz da Disney Parks, desculpou-se dizendo que “a apresentação ao vivo em nosso parque não refletiu nossos valores fundamentais e lamentamos que tenha acontecido”. Sobre o canto,  acrescentou: “Não foi condizente com a fita de audição que a escola forneceu e imediatamente implementamos medidas para que isso não se repita”.

Nós últimos anos a empresa tem se comprometido a desenvolver atrações que se orientem pela inclusão, mas não tem sido muito bem sucedida. 

Primeiro, eliminou a saudação “senhoras e senhores, meninos e meninas”, durante o show de fogos no Magic Kingdom. Demorou!

Em 2021, removeu do passeio Jungle Cruise, inaugurado em 1955, representações de símbolos religiosos, como também referências aos povos indígenas como “selvagens” ou “caçadores de cabeças”.

E, recentemente, Bob Chapek, CEO da Disney, também “pisou na bola”, quando financiou um projeto de lei contra a comunidade LGBT, denominado Don’t Say Gaye promovido por parlamentares da Flórida.

Fãs e funcionários da empresa, que integram essa comunidade, criticaram a postura e Chapek teve que retirar o apoio e se desculpar. Esperamos que o episódio racista das ‘líderes de torcida’ e sua repercussão desastrosa sirva de lição e de orientação para suas decisões, daqui em diante.

A seguir, leia o tweet de Tara Houska e assista à parte da apresentação acintosa das líderes de torcia do Texas.

Fotos: Reprodução do Twitter

Fontes: NY Post, WW News Today, Beaumont Enterprise

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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