Após quatro anos, bacia do Rio Doce ainda sofre com impacto do desastre e precisa de mais ações para enfrentar efeitos da crise climática

Após quatro anos, bacia do Rio Doce ainda sofre com impacto do desastre e precisa de mais ações para enfrentar efeitos da crise climática

Em novembro de 2015, a região da Bacia do Rio Doce foi devastada pelo rompimento da barragem de Fundão, próximo à Mariana, em Minas Gerais. Considerada uma das maiores tragédias ambientais da história do país, o acidente fez com que um mar de lama com rejeitos de metais pesados e elementos químicos da mineradora Samarco destruísse o vilarejo de Bento Rodrigues (matando 19 pessoas) e contaminasse todo o leito do rio, tirando a vida de centenas de animais e deixando um impacto de longo prazo sobre todo o ecossistema local.

Desde 2017, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), instituição global da área de conservação, trabalha para assessorar e fazer recomendações, com base em avaliações científicas e independentes, sobre as melhores estratégias para recuperação e preservação da bacia do Rio Doce.

No final de julho, a IUCN-Brasil apresentou um novo relatório em que destaca a vulnerabilidade da região e como as mudanças climáticas podem influenciar no processo de restauração da bacia.

O estudo Integração da perspectiva da mudança climática na restauração da Bacia do Rio Doce chama a atenção para os extremos climáticos e os riscos que eles representam para alguns dos programas da Fundação Renova, criada para administrar a crise e ajudar a população que ficou desamparada.

Os cientistas citam, por exemplo, as fortes tempestades que ocorreram no primeiro semestre de 2020 na região sudeste do país, onde fica a Bacia do Rio Doce, com secas extremas no período de estiagem. Os especialistas envolvidos no estudo recomendam que sejam usadas soluções baseadas na natureza na manutenção da infraestrutura hídrica, a redução das emissões de gases de efeito estufa e capacitação para as autoridades estaduais e locais se adaptarem aos eventos climáticos por meio de mais cooperação e participação.

O Conexão Planeta enviou algumas perguntas para os cientistas responsáveis pelo relatório – Peter May, Christianne Maroun, Francisco Barbosa, Yolanda Kakabadse e Maria Cecília Wey de Brito.

Seguem abaixo suas respostas:

Quais são os principais pontos de preocupação levantados em relação à recuperação da Bacia do Rio Doce apontados por esse novo relatório?
O relatório aponta, principalmente, os potenciais riscos que a mudança climática pode significar para a região, assim como a vulnerabilidade desse território a esses efeitos. Também analisa programas do TTAC (Termo de Transação e Ajustamento de Conduta) que podem ter sua execução e resultados impactados pelos eventos extremos, assim como as possibilidades de mitigação e adaptação e também as oportunidades que a restauração pode trazer para uma transição para uma economia de baixo carbono, e os programas que podem impulsionar essa transição.

É importante ressaltar que os Programas do TTAC não levaram em conta os potenciais impactos das mudanças climáticas no desenho das intervenções para restauração da bacia, embora eventos climáticos extremos tenham ocorrido, expondo a vulnerabilidade das populações e do rio às intempéries indicadas por cientistas como presságio de mudanças climáticas mais drásticas para o futuro. 

Como a bacia ainda é afetada pelo desastre ocorrido? Que impactos são sentidos pela fauna e flora da região?
Embora os dados sejam conflitantes, há possíveis danos associados à qualidade da água afetando o consumo de peixes, o que levou à manutenção do banimento de pesca em partes do rio. As condições atuais da qualidade da água provavelmente voltaram às condições prevalecentes antes do desastre, mas isto não quer dizer que estamos afirmando que a qualidade da água é boa, já que ainda foram relatadas violações de alguns elementos acima dos limites da legislação (As, Cu, Mn Ni, Zn) em amostras de pescado, provavelmente devido a fatores como desmatamento, erosão, esgoto doméstico e rejeitos da mineração de ferro, como também impactos sobre a diversidade microbiana de diferentes ecossistemas da bacia.

Outros autores também chamam atenção para o fato de que a permanência dos rejeitos constitui um fonte de contaminação crônica, mas os estudos ainda estão em andamento. 

O relatório recomenda a redução da emissão de gases de efeito estufa para limitar o aumento da temperatura. Como isso seria possível localmente?
As ações mundiais de combate às mudanças climáticas têm duas vertentes muito claras: mitigação e adaptação. Mitigação diz respeito aos esforços de redução de emissões de GEE nos processos da nossa sociedade para que possamos no longo prazo reduzir o avanço das mudanças climáticas; e a adaptação refere-se a modificarmos processos já existentes para nos protegermos das mudanças climáticas já em curso ou que irão acontecer.  

Ambas as vertentes fazem parte de uma ação climática conjunta e coordenada para que haja o enfrentamento do problema que tem escala planetária. A proposta de redução das emissões não irá reduzir diretamente a tendência de aumento da temperatura na região, pois o aumento relatado no documento já irá acontecer independentemente de qualquer ação praticada hoje (ele é resultado da soma das emissões já realizadas no mundo).

Porém, é fundamental adotar  práticas de baixo carbono em todas as regiões do planeta para somar esforços de forma que as mudanças climáticas e os eventos extremos causados por elas não sejam ainda mais intensos. Além disso, as práticas de mitigação das emissões de GEE geralmente reduzem a poluição local devida a outros poluentes diferentes dos GEE, como por exemplo, óxidos de enxofre e nitrogênio, que provocam chuva ácida.

O estudo afirma que alguns programas de restauração da Fundação Renova apresentam riscos. Poderia citar alguns deles e explicar a razão pela qual eles não são os mais seguros?
Por exemplo, a ocorrência de secas severas ou a redução das chuvas (previstas nos estudos de clima da região) pode ter um forte efeito na sobrevivência das mudas usadas em programas de revegetação, restauração de nascentes e recuperação de áreas degradadas, gerando custos mais elevados devido à necessidade de repetir o plantio, além de atrasos na finalização da restauração.

Ao mesmo tempo, uma redução significativa nas chuvas pode deixar a vegetação mais vulnerável e suscetível a incêndios. Nesse caso, a seleção de espécies mais resilientes à essas alterações é um exemplo de medida que pode ser adotada. Estudos referenciados no relatório, mostram que a mudança climática também pode impactar negativamente os esforços para a retomada das atividades agropecuárias. Também é importante ressaltar que alguns programas, como o de Uso Sustentável da Terra, já adotam essa perspectiva, com análises detalhadas sobre os potenciais riscos à restauração.

Além disso, a maior intensidade e frequência de eventos extremos prevista para a região pode danificar outras estruturas da restauração, caso as mesmas não sejam implantadas levando em consideração essas mudanças no clima.  Por exemplo, os depósitos de rejeitos em Candonga e outras construções em andamento.

Quais seriam algumas das soluções baseadas na natureza que ajudariam a recomper aquele ecossistema?
Os esforços já empreendidos pela Fundação Renova ainda em escala piloto de renaturalizar os cursos de água, no caso de partes do Rio Gualaxo do Norte onde ocorreu o desastre, são exemplos de soluções baseadas na natureza que poderiam ser empreendidas em escala, assim como a substituição de ações que envolvem mudanças estruturais. Outros exemplos são a recuperação de APPs e nascentes e a consolidação de Unidades de Conservação dentro da Bacia.

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Foto: Corpo de Bombeiros (MG)/Fotos Públicas

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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