Após quase 60 ataques a humanos, cidade no Japão caça macacos responsáveis por confrontos

Após mais de 50 ataques a humanos, cidade no Japão caça macacos responsáveis pelos confrontos

macaco-japonês (Macaca fuscata), também conhecido como macaco-das-neves, é uma espécie endêmica do sul do Japão, que costuma habitar florestas acima de 1.500 metros de altitude. Todavia, recentemente, eles têm se aproximado cada vez mais do ambiente urbano e desde o começo de julho provocado terror entre os habitantes da cidade de Yamaguchi, próximo a Hiroshima, onde 58 pessoas já sofreram ataques desses animais, incluindo, uma bebê e uma menina de 4 anos, que brincava num parquinho.

Pelos relatos feitos pelas vítimas, os macacos dão preferência a atacar crianças e idosos e pelas costas. Costumam morder e arranhar partes do corpo, especialmente as pernas. Já foram registrados ataques em escolas infantis e também, em quintais de casa. Uma mulher estava estendendo a roupa no varal quando se deparou com o “agressor”.

A situação se tornou tão preocupante que as autoridades de Yamaguchi contrataram uma equipe especial para caçar os animais com dardos tranquilizantes, após a tentativa inicial de atrair os macacos a armadilhas com comidas, mas a estratégia não funcionou.

Na terça-feira (26/07), a prefeitura informou que um macho, medindo 49 cm, foi abatido. Todavia, especialistas afirmam que é improvável que apenas um indivíduo tenha sido responsável pelas dezenas de ataques.

Na manhã desta quarta, algumas escolas foram alertadas para não deixaram seus estudantes brincarem ao ar-livre porque macacos foram observados em áreas próximas.

A recomendação aos moradores é que, caso encontrem um macaco, não devem olhá-lo nos olhos e se distanciem vagarosamente, sem movimentos abruptos.

Possíveis causas para o aumento da população de macacos

No começo do século passado, a população dos Macaca fuscata estava em declínio. Mas graças a esforços de conservação, o número de macacos-japoneses começou a aumentar. E pelo que parece, muito.

Segundo uma análise feita pelo pesquisador Hiroto Enari, um especialista em primatas, que escreveu um artigo científico sobre o tema, publicado no ano passado, os conflitos entre seres humanos e esses animais têm aumentado bastante.

Enari analisa que fatores teriam contribuído para a maior interação entre os macacos e as comunidades que vivem próximos às montanhas onde eles vivem. Entre as diversas hipóteses apontadas estão as mudanças climáticas que deixaram o clima na região mais ameno, com invernos menos rigorosos, e com isso, é possível que a reprodução da espécie tenha aumentado.

Além disso, os lobos (Canis lupus), um dos principais predadores de topo de cadeia, que eram os responsáveis pelo controle natural da população de macacos, já não é mais encontrado nas florestas do Japão desde o século passado. “O desequilíbrio do ecossistema na ausência do predador de ponta tem sido frequentemente apontado como o principal fator que permitiu o crescimento excessivo das populações de macacos”, pondera o especialista.

Por último, ele menciona a relação entre os japoneses e os macacos. No passado, esses animais eram tanto adorados como espíritos da natureza, como utilizados não apenas como fonte de alimento, mas partes do corpo serviam de ingredientes nos medicamentos produzidos pela medicina tradicional oriental.

“Esse vínculo foi quebrado quando os macacos desapareceram e não puderam ser encontrados em torno dos assentamentos devido ao seu uso comercial excessivo e aos gargalos de habitat observados no século XIX. A ruptura desse vínculo durou mais de 100 anos e influenciou criticamente a consciência subconsciente do povo japonês moderno, que hoje, muitas vezes, possui instintivamente algumas atitudes diferentes em relação a eles, e a principal delas é a intolerância“, diz o pesquisador.

O macaco-japonês: um macho adulto da espécie pode pesar mais de 10 kg
(Foto: Zweer de Bruin/Creative Commons/Flickr)

*Com informações da Agência de Notícias Associated Press e o jornal The New York Times

Foto de abertura: Angelica Kaufmann, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.